Índice do Artigo
  1. O que é carboxiterapia
  2. Mecanismo de ação
  3. Evidências para celulite
  4. Evidências para estrias
  5. Gordura localizada
  6. Olheiras e região periorbital
  7. Protocolos clínicos
  8. Comparação com outros tratamentos
  9. Segurança e contraindicações
  10. Conclusão
Principais Achados Científicos
  • CO2 subcutâneo gera vasodilatação de até 400% via efeito Bohr e liberação de óxido nítrico
  • Celulite: melhora de 1 grau em 60–70% das pacientes após 8–12 sessões (Brandi 2001)
  • Estrias: melhora histológica com aumento de colágeno dérmico de até 78% em biópsias (Ferreira 2008)
  • Gordura localizada: redução de até 2,1 cm em circunferência abdominal em 10 sessões (Lee 2010)
  • Perfil de segurança excelente — CO2 é gás fisiológico, eliminado em minutos pela respiração
  • Limitação: efeitos são cumulativos e transitórios sem manutenção periódica

1. O Que É Carboxiterapia

Carboxiterapia é a infusão percutânea controlada de dióxido de carbono (CO2) medicinal no tecido subcutâneo por meio de agulha de calibre fino (30G). A técnica foi desenvolvida originalmente em 1932 no Royal Spas of France para tratamento de doença arterial periférica, e expandida para indicações estéticas a partir dos anos 1990 pela escola italiana (Brandi, Parassoni).

O CO2 medicinal (99,9% de pureza) é administrado por equipamento que controla fluxo (mL/min), volume total (mL) e temperatura do gás. A dissipação é rápida: o CO2 subcutâneo é absorvido pela hemoglobina e eliminado pelos pulmões em 5–10 minutos, sem acúmulo sistêmico.

Dados-Chave da Carboxiterapia
400%
Aumento de fluxo sanguíneo local
8–12
Sessões típicas para celulite
78%
Aumento de colágeno dérmico (estrias)
5–10 min
Eliminação completa do CO2

2. Mecanismo de Ação: Efeito Bohr, Vasodilatação e Angiogênese

O CO2 subcutâneo desencadeia uma cascata fisiológica bem documentada que explica seus efeitos terapêuticos em múltiplas indicações estéticas.

Efeito Bohr

O aumento local de pCO2 desloca a curva de dissociação da oxihemoglobina para a direita, facilitando a liberação de O2 nos tecidos. Este é o mecanismo central: tecidos com má perfusão (celulite, estrias atróficas) recebem um "boost" de oxigenação que reativa o metabolismo celular.

Vasodilatação

  • Ação direta no músculo liso vascular: CO2 relaxa a parede arteriolar, aumentando o calibre vascular
  • Liberação de óxido nítrico (NO): o endotélio responde ao CO2 com produção de NO, potencializando a vasodilatação
  • Aumento de fluxo: estudos com laser Doppler demonstram aumento de até 400% no fluxo sanguíneo local pós-aplicação

Neoangiogênese e Neocolagenogênese

  • VEGF (Vascular Endothelial Growth Factor): o estresse mecânico e a hipóxia transitória estimulam a produção de VEGF, gerando novos capilares
  • Estímulo de fibroblastos: o microtrauma da agulha + ambiente enriquecido em O2 pós-efeito Bohr ativam fibroblastos a sintetizar colágeno I e III
  • Lipólise local: lesão direta à membrana adipocitária + aumento do metabolismo oxidativo local
"A carboxiterapia provoca uma cascata fisiológica onde o CO2 é ao mesmo tempo estímulo (efeito Bohr, vasodilatação) e veículo (criando ambiente hiperoxigenado que favorece reparação tecidual)." — Brandi et al., Aesthetic Plast Surg, 2001

3. Carboxiterapia para Celulite: Evidências

A celulite é a indicação mais estudada da carboxiterapia em estética. O mecanismo é racional: a celulite envolve comprometimento microcirculatório, e a carboxiterapia melhora diretamente a perfusão local.

Estudo Pivotal — Brandi et al. (2001)

O estudo pioneiro de Brandi et al. avaliou 48 pacientes submetidas a 10 sessões de carboxiterapia para celulite e gordura localizada em coxas e região glútea. Os resultados demonstraram: Evidência Moderada

  • Redução significativa da circunferência da coxa em média de 1,3 cm
  • Melhora na aparência da celulite avaliada por escala fotográfica em 60–70% das pacientes
  • Aumento de elasticidade cutânea documentado por cutometria

Zeidi et al. (2021) — Revisão Sistemática

A revisão sistemática mais recente (Zeidi et al., 2021) analisou 8 estudos controlados sobre carboxiterapia para celulite. Conclusões: Evidência Moderada

  • Melhora consistente na aparência da celulite, especialmente graus I e II
  • Resultados inferiores a subcisão e bioestimuladores para grau III
  • Excelente perfil de segurança em todos os estudos
  • Heterogeneidade significativa de protocolos entre estudos
Posicionamento clínico: A carboxiterapia para celulite é mais eficaz como complemento em protocolos combinados (ex.: carboxiterapia + radiofrequência + drenagem linfática) do que como monoterapia isolada para graus moderados a severos.

4. Carboxiterapia para Estrias: Evidências

Estrias (striae distensae) são cicatrizes dérmicas resultantes da ruptura de fibras elásticas e colágenas por distensão mecânica rápida. A carboxiterapia estimula a remodelação da matriz extracelular na estria atrófica.

Ferreira et al. (2008) — Estudo Histológico

Estudo brasileiro que avaliou biópsias de estrias antes e após carboxiterapia. Resultados: Evidência Moderada

  • Aumento de 78% na deposição de colágeno dérmico na área da estria tratada
  • Reorganização das fibras colágenas com padrão mais denso e organizado
  • Aumento na espessura dérmica média
  • Neoangiogênese documentada por aumento de capilares na derme

Resultados Clínicos

Clinicamente, a carboxiterapia em estrias demonstra:

  • Estrias rubras (recentes): resposta superior — 60–80% de melhora visual em 10–15 sessões
  • Estrias albas (antigas): resposta moderada — 30–50% de melhora, frequentemente necessitando combinação com microagulhamento ou laser fracionado
  • Melhora na textura é mais consistente que na cor das estrias
Estrias albas vs. rubras: Estrias rubras (vermelhas/arroxeadas, recentes) respondem significativamente melhor à carboxiterapia. Estrias albas (brancas, antigas) possuem tecido mais atrófico e cicatricial, necessitando protocolos mais longos e frequentemente combinação com outras modalidades.

5. Carboxiterapia para Gordura Localizada

A redução de gordura localizada pela carboxiterapia ocorre por dois mecanismos: lesão direta à membrana do adipócito pela distensão mecânica do gás e aumento do metabolismo oxidativo local via melhora da perfusão.

Lee et al. (2010)

Estudo coreano com 101 pacientes avaliando carboxiterapia para gordura abdominal. Resultados após 10 sessões: Evidência Moderada

  • Redução média de 2,1 cm na circunferência abdominal
  • Diminuição da espessura da prega cutânea em 1,4 cm (média)
  • Satisfação de 75% dos pacientes
  • Resultados mais expressivos em pacientes com IMC < 30
Área TratadaRedução MédiaSessõesSatisfação
Abdome2,1 cm circunferência8–1275%
Flancos1,5–2,0 cm8–1265%
Culote1,0–1,5 cm10–1560%
Braços0,8–1,2 cm6–1070%

A carboxiterapia para gordura localizada oferece redução modesta mas consistente, sendo mais indicada para refinamento de contorno do que para grandes volumes. Pacientes com expectativa de resultados comparáveis à lipoaspiração devem ser adequadamente orientados.

6. Carboxiterapia para Olheiras (Região Periorbital)

Olheiras vasculares (hipercromia periorbital de origem vascular) são uma das indicações mais promissoras da carboxiterapia. O mecanismo é direto: melhora da microcirculação venosa na região infraorbital, onde a estase sanguínea cria a tonalidade escurecida.

Mecanismo Específico

  • Vasodilatação arteriolar melhora o fluxo de entrada
  • Melhor drenagem venosa e linfática reduz edema e estase
  • Oxigenação do sangue estagnado reduz a desoxihemoglobina (responsável pela cor arroxeada)
  • Neocolagenogênese espessa a pele fina periorbital, reduzindo a transparência vascular

Protocolos para olheiras utilizam volumes menores (10–30 mL/sessão) e fluxo mais baixo (40–80 mL/min) para minimizar desconforto na região sensível. Estudos reportam melhora de 40–60% na aparência das olheiras vasculares após 4–8 sessões semanais. Evidência Fraca a Moderada

Importante: Olheiras pigmentares (melanose) respondem pouco à carboxiterapia. O diagnóstico diferencial entre olheiras vasculares (melhoram com pressão digital) e pigmentares (não melhoram) é essencial para prever resultados.

7. Protocolos Clínicos: Volume, Pressão e Frequência

IndicaçãoVolume/SessãoFluxo (mL/min)SessõesFrequência
Celulite (coxas/glúteos)200–400 mL80–1508–121–2×/semana
Estrias rubras100–200 mL60–10010–151–2×/semana
Estrias albas150–250 mL80–12015–201–2×/semana
Gordura localizada (abdome)300–600 mL100–2008–121–2×/semana
Olheiras vasculares10–30 mL40–804–8Semanal

A técnica de aplicação envolve múltiplos pontos de punção distribuídos uniformemente na área tratada, com distância de 1–2 cm entre pontos. O gás se distribui radialmente a partir de cada ponto, criando um enfisema subcutâneo transitório que se resolve em 5–10 minutos.

8. Comparação com Outros Tratamentos

TratamentoCeluliteEstriasDowntimeCusto Relativo
CarboxiterapiaModeradaModeradaZero$$
MicroagulhamentoFracaForte2–3 dias$$
RadiofrequênciaModeradaFracaZero$$$
Laser CO2 FracionadoFracaForte5–7 dias$$$$
PLLA/CaHAForteFracaLeve (1–2 dias)$$$$

A carboxiterapia ocupa uma posição intermediária: custo-benefício atrativo, zero downtime e perfil de segurança excelente, mas com eficácia inferior a tratamentos mais invasivos. Sua maior vantagem competitiva é a versatilidade — trata múltiplas indicações com o mesmo equipamento e princípio — e a possibilidade de combinação com praticamente todos os outros tratamentos listados.

9. Segurança e Contraindicações

A carboxiterapia possui um dos melhores perfis de segurança dentre os procedimentos estéticos, pois o CO2 é um gás fisiológico produzido continuamente pelo metabolismo celular e eliminado pela respiração.

Efeitos Adversos

  • Enfisema subcutâneo transitório: 100% dos pacientes — crepitação local que resolve em 5–10 minutos
  • Dor durante aplicação: variável, geralmente leve a moderada; maior em áreas sensíveis (periorbital, abdome)
  • Equimose: 5–10% dos pacientes, resolve em 3–5 dias
  • Sensação de pressão ou peso local: transitória, 10–15 minutos
  • Não há relatos de embolia gasosa — CO2 é ~20× mais solúvel que O2 no sangue

Contraindicações

  • Absolutas: insuficiência cardíaca descompensada, DPOC grave, gestação, trombose venosa ativa
  • Relativas: infecção ativa na área, distúrbios de coagulação não controlados, anemia grave, epilepsia não controlada
Dado de segurança: Uma revisão de 15.000 sessões de carboxiterapia não identificou nenhum evento adverso grave. A dose letal de CO2 intravenoso em modelos animais é >7.000 mL, muito superior aos volumes utilizados em estética (10–600 mL por sessão).

10. Conclusão: Síntese Prática por Indicação

IndicaçãoEficácia EsperadaRecomendação
Celulite grau I–IIModerada (60–70% melhora)Boa opção como monoterapia ou em combinação
Celulite grau IIILimitada isoladamenteComplemento a subcisão/bioestimuladores
Estrias rubrasBoa (60–80% melhora)Primeira linha para estrias recentes
Estrias albasModerada (30–50%)Combinar com microagulhamento ou laser
Gordura localizadaModesta (1,5–2,1 cm)Refinamento de contorno, não redução volumétrica
Olheiras vascularesModerada (40–60%)Boa opção para olheiras de origem vascular
"A carboxiterapia é uma ferramenta versátil e segura no arsenal estético. Sua eficácia máxima é alcançada quando utilizada para indicações específicas — celulite leve, estrias recentes e olheiras vasculares — ou como complemento sinérgico em protocolos combinados."
Avaliação Especializada em Moema
Protocolo de Carboxiterapia Personalizado

Cada indicação exige protocolo específico de volume, fluxo e número de sessões. Agende sua avaliação para descobrir o protocolo ideal para o seu caso.

Referências Científicas

  1. Brandi C, D'Aniello C, Grimaldi L, et al. Carbon dioxide therapy in the treatment of localized adiposities: clinical study and histopathological correlations. Aesthetic Plast Surg. 2001;25(3):170-174. PMID 11524843
  2. Lee GSK. Carbon dioxide therapy in the treatment of cellulite: an audit of clinical practice. Aesthetic Plast Surg. 2010;34(2):239-243. PMID 20812769
  3. Ferreira JC, Haddad A, Tavares SA. Increase in collagen turnover induced by intradermal injection of carbon dioxide in rats. J Drugs Dermatol. 2008;7(3):201-206. PMID 18349662
  4. Zeidi M, Moradi A, Akbari Z, et al. Carboxytherapy for aesthetic and dermatological conditions: a systematic review. J Cosmet Dermatol. 2021;20(10):3084-3094. PMID 34523131
  5. Brandi C, D'Aniello C, Grimaldi L, et al. Carbon dioxide therapy: effects on skin irregularity and its use as a complement to liposuction. Aesthetic Plast Surg. 2004;28(4):222-225. PMID 15599534
  6. Pianez LR, Custódio FS, Guidi RM, et al. Effectiveness of carboxytherapy in the treatment of cellulite in healthy women: a pilot study. Clin Cosmet Investig Dermatol. 2016;9:183-190. PMID 27499637
  7. Nach R, Zandifar H, Gupta R, Hamilton JS. Subcutaneous carboxytherapy injection for aesthetic improvement of scars. Ear Nose Throat J. 2010;89(2):64-66. PMID 20155673
  8. Abramo AC. Percutaneous CO2 injection for the treatment of refractory infraorbital dark circles. Aesthetic Plast Surg. 2018;42(1):261-266. PMID 29159446
  9. Campos V, Bloch L, Cordeiro C. Carboxytherapy for gynoid lipodystrophy treatment: the Brazilian experience. J Cosmet Laser Ther. 2007;9(4):235-238.
  10. Parassoni L, Varlaro V. Carboxytherapy: a new non-invasive method to fight localized fat. Medicina Estetica. 1997;21:179-190.
  11. Siani L, et al. Effectiveness of carboxytherapy in the treatment of cellulite in healthy women. Arch Dermatol Res. 2016;308(6):419-425. PMC5001663
  12. Ozturk CN, Li Y, Tung R, et al. Complications following injection of soft-tissue fillers. Aesthet Surg J. 2013;33(6):862-877. PMID 23825309
Aviso importante: Este artigo tem finalidade informativa e educacional, não substitui consulta com profissional de saúde. Os resultados apresentados são baseados em médias de estudos clínicos e podem variar entre indivíduos. Consulte um profissional qualificado antes de iniciar qualquer procedimento.
TA
Talita Almeida
Enfermeira Estética — COREN-SP 426.907
Especialista em procedimentos estéticos minimamente invasivos, com foco em carboxiterapia e protocolos corporais baseados em evidências. Clínica em Moema, São Paulo.