Resposta Rápida

como saber se minha cicatriz é hipertrófica ou queloide, e isso tem tratamento?

A diferença clínica principal é a borda: a cicatriz hipertrófica fica restrita à área da ferida original e costuma melhorar ao longo de meses, enquanto o queloide avança sobre a pele que não foi lesada e tende a voltar após tratamento. Ambas têm opções com algum respaldo em estudos (silicone, corticoide injetado, combinações com 5-fluorouracil, laser e, em casos selecionados, cirurgia com adjuvante), mas nenhuma garante desaparecimento ou ausência de recidiva. Lesão que cresce rápido, surge sem trauma conhecido, ulcera ou tem aspecto atípico precisa de avaliação médica e, às vezes, de biópsia antes de qualquer tratamento estético.

Principais Achados Científicos
  • Cicatrizes hipertróficas e queloides são respostas fibroproliferativas da pele a uma lesão que atingiu a derme reticular.
  • A primeira tende a permanecer dentro dos limites da ferida e pode regredir com o tempo; o queloide invade a pele vizinha, raramente regride sozinho e recidiva com frequência depois de tratado.
  • A toxina botulínica mostra sinais favoráveis em ensaios pequenos e heterogêneos.
  • Em quase todas as modalidades, a qualidade dos estudos limita conclusões firmes, e as taxas de recidiva variam muito conforme local, técnica e tempo de seguimento.

Resumo

Cicatrizes hipertróficas e queloides são respostas fibroproliferativas da pele a uma lesão que atingiu a derme reticular. A primeira tende a permanecer dentro dos limites da ferida e pode regredir com o tempo; o queloide invade a pele vizinha, raramente regride sozinho e recidiva com frequência depois de tratado. Esta revisão narrativa reúne consensos, revisões sistemáticas e metanálises publicadas majoritariamente entre 2018 e 2026, localizadas no PubMed, para responder a três perguntas práticas: como distinguir os dois quadros (e quando suspeitar de outra doença), o que reduz o risco de formação e o que a literatura mostra sobre cada tratamento. As recomendações internacionais de 2014 ficam aqui como contexto histórico; é discutida a diretriz alemã S2k atualizada em 2020, a versão mais recente publicada, com validade declarada até 31/12/2024 e sem versão posterior localizada em 10/10/2026 (por isso tratada como contexto, não como norma vigente), e o consenso Delphi latino-americano de 2026 sobre lasers e dispositivos de energia, este último pensado para fototipos altos e miscigenados como os do Brasil. Corticoide intralesional, crioterapia e produtos de silicone aparecem como base nesses documentos; a associação de triamcinolona com 5-fluorouracil tem o apoio mais consistente nas metanálises em rede; laser vascular e laser fracionado têm evidência de certeza baixa ou muito baixa na revisão Cochrane; cirurgia isolada de queloide recidiva muito e costuma ser combinada com adjuvante, com destaque para radioterapia. A toxina botulínica mostra sinais favoráveis em ensaios pequenos e heterogêneos. Em quase todas as modalidades, a qualidade dos estudos limita conclusões firmes, e as taxas de recidiva variam muito conforme local, técnica e tempo de seguimento.

Palavras-chave: queloide; cicatriz hipertrófica; corticoide intralesional; silicone; 5-fluorouracil; laser de corante pulsado; radioterapia; recidiva.

1. Por que separar os dois quadros importa

Na conversa cotidiana, "queloide" virou sinônimo de qualquer cicatriz alta. A literatura especializada não trata assim. O consenso do Japan Scar Workshop (JSW) de 2018 descreve queloides e cicatrizes hipertróficas como entidades relacionadas, com mecanismos sobrepostos, mas com comportamento clínico, prognóstico e algoritmos terapêuticos distintos; o documento propõe inclusive uma escala de pontuação (JSW Scar Scale) para ajudar a classificar a lesão e graduar o risco do paciente e do local. [1]

A distinção muda expectativas. Uma cicatriz hipertrófica recente de cirurgia pode melhorar com medidas conservadoras e tempo. Um queloide de lóbulo de orelha removido apenas com cirurgia tem alta chance de voltar, às vezes maior que a lesão inicial. Tratar os dois como se fossem o mesmo problema leva a escolhas inadequadas: excisão isolada de queloide, por exemplo, ou intervenção agressiva em cicatriz que estava em fase natural de amadurecimento.

Há ainda um terceiro grupo, menos lembrado: lesões que parecem cicatriz, mas não são. O mesmo consenso dedica uma parte ao diagnóstico diferencial com tumores benignos e malignos que podem imitar queloide. [1] Esse ponto é tratado na seção 11.

Este texto também não repete o que já foi discutido em revisões vizinhas do acervo. Cicatrizes atróficas de acne e o papel do laser de CO2 nelas foram tratados em Laser CO2 fracionado em cicatrizes e em Microagulhamento para cicatriz de acne. Aqui o foco é a cicatriz elevada, de excesso de tecido.

2. Método e limites desta revisão

Foi feita busca dirigida no PubMed em 10 de outubro de 2026, com termos combinando "keloid", "hypertrophic scar" e cada modalidade (silicone, triamcinolone, 5-fluorouracil, cryotherapy, laser, radiotherapy, botulinum toxin, dermatofibrosarcoma), com prioridade para consensos, revisões Cochrane, revisões sistemáticas e metanálises publicadas entre 2018 e 2026. Foram incluídas exceções anteriores a esse período quando ainda são a referência mais citada para uma pergunta específica: as recomendações internacionais de 2014, [2, 3] mantidas apenas como contexto histórico, a revisão Cochrane de placas de silicone de 2013, [4] o ensaio randomizado de 2014 sobre dispositivo de descarga de tensão, [5] uma metanálise de radioterapia de 2017, [6] a revisão de Ogawa de 2017 sobre inflamação crônica [7] e um relato de caso de 2018. [8] Também foram buscadas diretrizes posteriores a 2014: localizamos a diretriz alemã S2k (atualização 2020) [9] e o consenso Delphi latino-americano sobre dispositivos de energia (2026). [10]

Trata-se de revisão narrativa crítica. Não houve protocolo registrado, seleção independente em duplicata, avaliação formal de risco de viés nem metanálise própria. Numa segunda passada, foi lido o texto completo aberto (PubMed Central ou Europe PMC) de oito fontes: o ensaio de descarga de tensão, [5] a revisão sistemática de 2023 sobre tratamentos de queloide, [11] a metanálise em rede de combinações, [12] a metanálise de crioterapia, [13] as duas revisões sistemáticas de 2026 sobre cirurgia com adjuvantes, [14, 15] o resumo das diretrizes alemãs escrito pelo coordenador da S2k [16] e uma revisão sobre fototipos altos. [17] As demais fontes foram lidas pelo resumo no PubMed; quando é o caso, o texto diz "no resumo". O texto integral do consenso latino-americano não estava acessível (acesso pago, sem cópia aberta no PubMed Central ou Europe PMC em 10/10/2026); para a S2k, a versão longa está no registro da AWMF (n.º 013-030), que declara validade até 31/12/2024; buscas no registro, no PubMed e na web em 10/10/2026 não localizaram atualização, prorrogação formal ou retirada, e a diretriz é usada aqui como a mais recente publicada, não como norma vigente; o conteúdo da S2k citado aqui vem do resumo publicado por seu coordenador, [16] e o do consenso, do resumo do artigo. [10] Detalhes de dose e técnica não foram reconstruídos nem são recomendados. Números citados vêm da fonte conferida e não foram recalculados.

Três limitações atravessam a literatura e precisam ficar visíveis desde já. Primeiro, muitos estudos misturam cicatrizes hipertróficas e queloides na mesma análise, embora o prognóstico seja diferente. Segundo, os desfechos variam (escala de Vancouver, POSAS, altura, volume, "resposta excelente", recidiva), o que dificulta comparação. Terceiro, recidiva de queloide pode surgir depois de um ano ou mais, e seguimentos curtos tendem a subestimá-la.

3. Como se reconhece cada tipo

Tabela 1. Diferenças clínicas usadas na prática

CaracterísticaCicatriz hipertróficaQueloide
LimiteRestrita à área da ferida originalUltrapassa a borda e invade pele sadia
InícioEm geral semanas após a lesãoPode surgir meses depois, às vezes após trauma mínimo (acne, picada, piercing)
Evolução naturalTende a regredir parcialmente com o amadurecimentoRaramente regride sozinho; pode crescer por anos
Recidiva após excisão isoladaMenorAlta
Locais típicosÁreas de tensão e articulações, queimadurasTórax anterior, ombros, região escapular, lóbulo da orelha, região suprapúbica
SintomasPrurido e dor possíveisPrurido e dor frequentes, sobretudo nas bordas ativas

Síntese descritiva a partir do consenso JSW e das recomendações internacionais; [1, 3] não é ferramenta diagnóstica validada.

A borda é o critério mais útil, mas não é infalível. Cicatrizes hipertróficas extensas, de queimadura por exemplo, podem parecer invadir áreas vizinhas porque a própria lesão original era grande. E queloides pequenos, nos primeiros meses, podem ainda não ter ultrapassado claramente a margem. Por isso o consenso japonês trabalha com pontuação de risco, que soma características do paciente (história familiar, número de lesões, local) às características da cicatriz, em vez de depender de um único sinal. [1]

Quadro comparativo em duas colunas entre cicatriz hipertrófica e queloide, com seis linhas de características clínicas.
Diferenças clínicas entre cicatriz hipertrófica e queloide. Síntese descritiva a partir do consenso JSW e das recomendações internacionais; não é ferramenta diagnóstica validada.

O tempo também ajuda. Cicatrizes passam por remodelação que pode durar de um a dois anos. Uma cicatriz vermelha e elevada aos três meses não é, por definição, patológica. A revisão Cochrane sobre malhas compressivas em queimados observa que o efeito pleno de qualquer terapia pode só aparecer por volta de 18 meses, o que limita estudos de seguimento curto. [18]

4. Fatores de risco: o que é modificável e o que não é

As revisões concordam em um conjunto de fatores, embora com graus diferentes de quantificação.

Profundidade da lesão. Ogawa propõe que cicatrizes patológicas resultam de inflamação crônica na derme reticular e observa que lesões superficiais, que não atingem essa camada, não formam queloide nem cicatriz hipertrófica. [7] A lista de gatilhos citada inclui trauma, queimadura, cirurgia, vacinação, piercing, acne, foliculite, varicela e herpes-zóster. [7]

Tensão mecânica. A tensão da pele sobre a ferida aparece de forma recorrente como fator que amplifica e mantém a inflamação. Uma proposta recente do mesmo grupo japonês, baseada na observação de cicatrizes patológicas, defende que queloides crescem na direção da tensão predominante e sugere linhas de incisão que reduzam essa tensão, além de zetaplastias quando a linha ideal não é viável. [19] É uma proposta conceitual, não um ensaio comparativo; o valor está em explicar por que tórax e ombros, áreas sob tração constante, concentram casos.

Localização. O tórax anterior, a região escapular, os ombros, o lóbulo da orelha e a região suprapúbica aparecem como locais de maior propensão nos consensos. [1] Na metanálise de radioterapia de 2017, o tórax foi o local com maior taxa de recidiva no subgrupo por localização. [6]

Fototipo e ancestralidade. O consenso japonês destaca que populações asiáticas e africanas têm maior propensão e casos mais graves, ao passo que pessoas de ancestralidade europeia desenvolvem menos e com menor gravidade. [1] Revisões recentes também descrevem queloides como mais frequentes em pessoas de pele mais pigmentada, [14] associação epidemiológica sem medida de magnitude confiável nas fontes conferidas. No Brasil, onde a população é muito miscigenada, isso significa que boa parte dos pacientes está em faixa de risco aumentado, inclusive para efeitos adversos de laser (seção 9).

Genética e fatores sistêmicos. História familiar, múltiplos queloides e fatores sistêmicos aparecem como componentes da pontuação de risco. [1] Uma revisão de 2026 sobre patogênese lista alelos e genes associados a suscetibilidade, como HLA-DRB1*15, mas o próprio formato (revisão narrativa ampla) não permite transformar isso em teste clínico. [20] Hoje não há exame genético de rotina que preveja quem fará queloide.

Na prática, o paciente não muda a ancestralidade nem o local de uma cirurgia necessária. O que se pode modular é tensão, inflamação e tempo de cicatrização, e é aí que entram as medidas preventivas.

5. O que acontece no tecido, em resumo

Ilustração conceitual em corte de pele estilizado, com fibras desordenadas e pequenos vasos em profundidade, em tons de ameixa e marfim.
Figura 1. Ilustração conceitual gerada por IA, sem escala; não representa histologia real. Esquema simplificado da inflamação persistente na derme reticular, com fibroblastos ativados, vasos novos e colágeno desorganizado.

O modelo mais citado nas fontes consultadas é o de inflamação crônica localizada. Na derme reticular de queloides e cicatrizes hipertróficas há células inflamatórias, mais fibroblastos, vasos novos e depósito de colágeno; fatores pró-inflamatórios como IL-1α, IL-1β, IL-6 e TNF-α aparecem aumentados no tecido de queloide. [7] Nessa leitura, queloide e cicatriz hipertrófica seriam extremos de um mesmo processo, diferindo em intensidade, frequência e duração da inflamação. [7] Uma revisão posterior do mesmo grupo discute o papel de inflamassomas e a possível interação entre estímulo mecânico e inflamação, mas apresenta a hipótese como agenda de pesquisa, não como fato estabelecido. [21]

O TGF-beta entra como um dos eixos centrais. Uma revisão de 2026 descreve as vias TGF-β/Smad, MAPK/ERK, PI3K/AKT/mTOR e Wnt/β-catenina formando uma rede que mantém fibroblastos ativados e produção excessiva de matriz extracelular, além de mecanotransdução por canais PIEZO1 e YAP/TAZ, que ligam a tensão física à resposta celular. [20] Boa parte desses dados vem de cultura de células, tecido excisado e modelos experimentais. Eles explicam plausivelmente por que corticoide, 5-fluorouracil, radiação e redução de tensão têm efeito, mas não autorizam prever resposta individual nem justificar terapias novas que ainda não foram testadas em ensaio clínico.

Vale um aviso específico: produtos vendidos com promessa de "bloquear o TGF-beta" ou "regenerar sem cicatriz" partem desse vocabulário. A existência de uma via biológica não demonstra que um produto tópico qualquer a modula na pele humana de forma clinicamente relevante.

6. Prevenção: o que tem respaldo e o que é hábito

Reduzir tensão. A lógica mecânica é forte (seção 4) e está presente nos consensos, que incluem técnicas cirúrgicas de redução de tensão, fitas e estabilização da ferida entre as estratégias. [1, 7] Há ao menos um ensaio randomizado sobre o tema. Em 2014, um estudo multicêntrico aberto aplicou um curativo de descarga de tensão (embrace) em uma metade de incisões de abdominoplastia, com a outra metade recebendo o cuidado habitual do cirurgião. [5] Pelo texto completo, 65 pacientes foram randomizados, mas só 36 forneceram fotografias aos 12 meses; 13 interromperam por irritação ou erupção na pele, um por infecção e 11 não voltaram para a avaliação final. Nesses 36, a nota de aparência em escala visual analógica foi melhor no lado tratado (2,90 contra 3,29; diferença 0,39; IC 95% 0,14 a 0,66), e a POSAS também favoreceu o dispositivo. [5] Três ressalvas pesam. O desfecho foi aparência global da cicatriz, não incidência de cicatriz hipertrófica ou queloide, que não foi medida. A perda de quase metade da amostra aumenta o risco de viés por perdas e limita a análise dos participantes que completaram o seguimento. E dois autores são fundadores e acionistas da fabricante (Neodyne), que forneceu os dispositivos e apoiou o estudo; outros autores são funcionários ou consultores dela. O ensaio sustenta a plausibilidade clínica da descarga de tensão, não a prevenção de queloide.

Silicone. É a medida preventiva mais estudada. A revisão Cochrane de 2013 (20 ensaios, 873 pessoas) encontrou, em pessoas propensas a cicatrizar mal, redução da incidência de cicatriz hipertrófica com placa de silicone comparada a nenhum tratamento (risco relativo 0,46; IC 95% 0,21 a 0,98), mas classificou os estudos como altamente suscetíveis a viés e concluiu que a evidência de prevenção é fraca. [4] Para gel fluido de silicone, uma metanálise de 2026 incluiu 35 artigos na revisão e 20 na análise quantitativa, comparando o gel com placebo, ausência de tratamento, placa e outros tratamentos; o resumo parte da constatação de que, apesar do uso disseminado, a superioridade do gel tem evidência inconsistente, e não apresenta as estimativas agrupadas, que não foram verificadas aqui. [22] Em resumo: silicone tem baixo risco de efeitos sistêmicos, embora possa causar irritação local, e aparece como primeira linha preventiva nos consensos (no consenso latino-americano de 2026, curativos de silicone ou hidrocoloide entram entre as primeiras opções para cicatrizes recentes e inflamatórias), [10] mas o tamanho real do efeito é incerto.

Compressão. Em queimados, a malha compressiva é cuidado-padrão em muitos serviços. A revisão Cochrane de 2024 (15 estudos, 1.179 participantes) não conseguiu fazer metanálise por heterogeneidade e classificou como muito incerta a evidência de benefício na escala de Vancouver em comparação com nenhum tratamento ou lanolina. [18] Como adjuvante após excisão de queloide, a compressão aparece com taxas de recidiva de 10,66% e 14% em dois estudos de uma revisão sistemática de 2026; no texto completo, os autores dizem que o efeito variou conforme protocolo e local, e a discussão a descreve como particularmente eficaz em queloide de orelha, sem que os dois números sejam atribuídos explicitamente a essa região. [15]

Fotoproteção. Proteger do sol uma cicatriz em amadurecimento é recomendação repetida em orientações clínicas, sobretudo para reduzir escurecimento. Não foi localizado, nesta busca, ensaio controlado que mostre que fotoproteção previne cicatriz hipertrófica ou queloide. É uma medida razoável e de baixo risco, mas o benefício específico sobre o relevo não está demonstrado. Para cuidados após procedimentos com laser em período de sol forte, ver CO2 fracionado no verão.

Toxina botulínica logo após o fechamento da ferida. A ideia é reduzir a tração muscular sobre a sutura. Uma metanálise de 2025 (9 ensaios randomizados e 1 estudo prospectivo, 521 participantes, excluindo estudos de tratamento de queloide ou cicatriz hipertrófica) não encontrou diferença na escala de Vancouver (diferença média −0,35; IC 95% −1,01 a 0,30), mas relatou melhor pontuação em escala visual analógica e largura de cicatriz menor (diferença média −0,19). [23] Isso se refere a qualidade de cicatriz cirúrgica comum, em geral facial, e não prova prevenção de queloide.

Evitar gatilhos eletivos em quem já tem queloide. Piercing, tatuagem e cirurgias estéticas eletivas em áreas de risco são situações em que a pessoa com história de queloide deve discutir o risco antes, e não depois. Essa orientação decorre da lista de gatilhos e da pontuação de risco dos consensos, [1, 7] e não de ensaio específico.

7. Corticoide intralesional: a base, com efeitos colaterais conhecidos

A injeção de triamcinolona dentro da lesão é a modalidade mais antiga e a que aparece como primeira linha em quase todas as sínteses. Uma revisão sistemática de estudos prospectivos sobre queloide (108 estudos incluídos, publicados entre 2010 e 2020) conclui que a literatura apoia silicone em gel ou placa com corticoide injetado como primeira linha. [11] Uma metanálise de ensaios randomizados em cicatriz hipertrófica de adultos (34 ensaios) concluiu que triamcinolona combinada a silicone ou a 5-fluorouracil foi superior à triamcinolona isolada. [24] Na atualização 2020 da diretriz alemã, triamcinolona intralesional e crioterapia continuam como tratamentos principais e em geral são usadas juntas. [9, 16]

Ilustração conceitual de uma superfície de tecido marfim com uma linha fina central e fios dourados tensionados em direções opostas.
Ilustração conceitual gerada por IA, sem escala; não representa anatomia, técnica cirúrgica nem resultado de tratamento. Sugere a tensão mecânica que atua sobre uma ferida em cicatrização.

Depois de cirurgia, o corticoide também serve para reduzir recidiva, e o momento da aplicação foi testado. Entre os estudos tabulados no texto completo da revisão de 2023, um ensaio randomizado com 70 pacientes não encontrou diferença de recidiva entre uma injeção única intraoperatória e injeções repetidas no pós-operatório (seguimento médio de cerca de 17 meses), com menos complicações no esquema de dose única (8,5% contra 23%: atrofia, telangiectasia, hipopigmentação, deiscência). [11] É um ensaio único e não basta para fixar protocolo.

Os efeitos adversos locais conhecidos incluem atrofia da pele ao redor, telangiectasias e alterações de pigmentação; a revisão Cochrane de laser lista atrofia entre os eventos relatados nos estudos comparativos, sem dados suficientes para quantificar. [25] Dor na aplicação é queixa frequente. A técnica (concentração, volume, profundidade, intervalo) varia muito entre estudos, e esse detalhe raramente aparece no resumo.

Também é preciso lembrar que o corticoide reduz a lesão, mas não "cura" o queloide no sentido de eliminar a tendência. Recidiva após resposta inicial é comum, e a combinação com outras modalidades existe justamente por isso.

8. 5-fluorouracil, bleomicina, verapamil e crioterapia

5-fluorouracil (5-FU). É um antimetabólito que inibe a proliferação de fibroblastos. As recomendações internacionais de 2014 já defendiam uso mais precoce do 5-FU em queloide, sobretudo combinado ao corticoide. [2, 3] A diretriz alemã de 2020 (validade declarada até 2024, sem versão posterior localizada) elevou a força da recomendação para queloide resistente a tratamento, de "pode ser considerado" para "pode ser recomendado", registrando que o uso é fora de bula. [16] O consenso latino-americano de 2026 também indica corticoide intralesional associado a 5-FU ou bleomicina como primeira escolha para queloide e cicatriz hipertrófica em crescimento ativo. [10] As metanálises em rede chegam a conclusão parecida:

  • Uma metanálise em rede de 2024 (20 ensaios, 1.114 pacientes, queloide) comparou triamcinolona, 5-FU, toxina botulínica, verapamil e bleomicina. Toxina botulínica isolada e triamcinolona com 5-FU tiveram eficácia significativamente melhor que 5-FU, triamcinolona ou verapamil isolados; não houve diferença significativa de eventos adversos entre toxina, triamcinolona com 5-FU, 5-FU e triamcinolona. [26]
  • Uma metanálise em rede de 2026 (24 ensaios, cicatriz hipertrófica e queloide) concluiu que triamcinolona com 5-FU teve o equilíbrio mais favorável entre eficácia e controle de recidiva; a toxina botulínica ficou no topo em resposta ao tratamento, mas sem redução significativa do risco de recidiva; verapamil teve eficácia significativamente menor que triamcinolona. [27]
  • Uma metanálise em rede de 2025 sobre combinações em queloide (22 ensaios, 1.398 casos, protocolo registrado no PROSPERO) encontrou que apenas combinações com triamcinolona e 5-FU superaram a triamcinolona isolada em eficácia: triamcinolona + 5-FU + laser de corante pulsado (risco relativo 2,98; IC 95% 1,26 a 7,02) e triamcinolona + 5-FU (risco relativo 1,43; IC 95% 1,05 a 1,93). As menores taxas de recidiva foram vistas com triamcinolona + bleomicina (risco relativo 0,04; IC 95% 0,00 a 0,84) e triamcinolona + 5-FU + braquiterapia (risco relativo 0,23; IC 95% 0,07 a 0,73). [12]

O intervalo de confiança da combinação com bleomicina (0,00 a 0,84) é muito largo, sinal de poucos eventos e estimativa instável. Metanálises em rede combinam comparações diretas e indiretas e dependem de os ensaios serem comparáveis entre si; com estudos pequenos e heterogêneos, a ordem do ranking pode mudar com a entrada de um único ensaio novo. O resultado mais robusto, porque se repete nas três análises, é que a associação de triamcinolona com 5-FU tende a superar a triamcinolona isolada.

Dados de recidiva com 5-FU após cirurgia existem, mas vêm de estudos pequenos. No texto completo da revisão de 2023, um estudo prospectivo relata recidiva de 3,57% em 28 pacientes tratados com 5-FU na margem e no leito da excisão, contra 21,9% em 32 pacientes com triamcinolona intralesional, em um ano, com necrose superficial em 11% e deiscência em 7% no grupo do 5-FU. [11] A mesma revisão descreve um ensaio em que o verapamil teve recidiva bem maior que a triamcinolona em 12 meses (razão de risco 8,44; IC 95% 1,62 a 44,05), com apenas 14 lesões. [11]

5-FU é um quimioterápico. Uso injetável exige prescrição e manejo médico, cuidado com gestação e com doses, e acompanhamento de efeitos locais como ulceração e dor. A bleomicina, que aparece bem colocada em recidiva, tem outro problema em pele pigmentada: uma revisão sobre fototipos IV a VI reúne estudos com hiperpigmentação em 56,7% e até 76,9% dos pacientes tratados, o que levou autores a sugerir uso parcimonioso nesses fototipos. [17]

Crioterapia. O congelamento, superficial ou intralesional, é usado sozinho ou antes da injeção de corticoide. Uma metanálise de 2026 (13 estudos, 1.012 casos, ensaios randomizados e estudos prospectivos não randomizados) encontrou maior taxa de resposta com crioterapia combinada ao corticoide do que com diversos controles (risco relativo 1,19; IC 95% 1,03 a 1,36), mas sem diferença na variação percentual média de melhora (diferença média padronizada 0,14; IC 95% −0,39 a 0,68) nem na incidência geral de eventos adversos (risco relativo 1,35; IC 95% 0,99 a 1,83). [13] O texto completo acrescenta o dado de segurança que faltava no resumo: na análise por evento, o grupo da combinação teve mais hipopigmentação (risco relativo 1,68; IC 95% 1,07 a 2,63) e mais telangiectasia (risco relativo 4,63; IC 95% 1,68 a 12,75) que os controles. Os autores atribuem a hipopigmentação à sensibilidade dos melanócitos ao frio e consideram a crioterapia de superfície pouco adequada para pele escura; a crioterapia intralesional, que congela a lesão por dentro, poupa mais a superfície, segundo os autores. [13] O texto completo não apresenta resultados separados por fototipo, então a frequência de hipopigmentação em pele brasileira de fototipo alto continua sem número próprio.

9. Laser vascular e laser fracionado: menos certeza do que se imagina

Laser é a modalidade em que a distância entre a percepção de mercado e a certeza da evidência é maior.

A revisão Cochrane de 2022 incluiu 15 ensaios randomizados, 604 participantes e 906 segmentos de cicatriz, com seguimento de 12 semanas a 12 meses; todos os ensaios tinham alto risco de viés em pelo menos um domínio. [25] Os achados principais, conforme o resumo:

  • Laser de corante pulsado (PDL) de 585 nm versus nenhum tratamento: evidência de certeza baixa de que pode haver mais melhora (risco relativo 1,96; IC 95% 1,11 a 3,45; dois estudos, 60 segmentos). [25]
  • Laser fracionado não ablativo e laser de CO2 fracionado versus nenhum tratamento: efeito incerto, evidência de certeza muito baixa. [25]
  • PDL versus triamcinolona, 5-FU ou triamcinolona com 5-FU: incerto, certeza muito baixa. [25]
  • Eventos adversos relatados incluíram dor, carbonização, telangiectasia, atrofia, púrpura, hipopigmentação e erosão por bolhas, sem dados suficientes para comparação. [25]

Metanálises posteriores são um pouco mais favoráveis em contextos específicos. Na metanálise de cicatriz hipertrófica em adultos, silicone e laser melhoraram a escala de Vancouver em 5,06 e 3,56 pontos, respectivamente, e os autores apoiam PDL e CO2 fracionado entre as opções. [24] Uma revisão sistemática de ensaios comparativos entre lasers (39 estudos, 1.262 participantes, a maioria sobre cicatriz atrófica) concluiu que, em cicatriz hipertrófica e queloide, lasers ablativos e não ablativos tiveram resultados comparáveis, especialmente em combinação, e destacou que o fototipo influencia a escolha pelo risco de hiperpigmentação pós-inflamatória. [28]

O papel mais defensável do laser fracionado em queloide, nas sínteses consultadas, é o de facilitador: canais criados pelo laser permitem aplicar corticoide tópico com oclusão ou combinar com injeção. [11] No texto completo da revisão de 2023, um estudo prospectivo com 41 queloides tratados com CO2 fracionado seguido de triamcinolona tópica relata recidiva de 10,5% em 24 meses, sem grupo controle. [11] A diretriz alemã de 2020 incorporou o laser fracionado ablativo, recomendado sobretudo para cicatrizes de queimadura, e admite considerá-lo em queloide plano e inativo, combinado à triamcinolona. [16] O consenso latino-americano de 2026 vai na mesma direção: laser fracionado para textura depois que a cicatriz foi aplanada, laser vascular para lesões precoces e inflamatórias. [10]

Segurança em fototipos altos. Em pele mais pigmentada, que é justamente a mais propensa a queloide, o laser carrega risco de hiperpigmentação e hipopigmentação pós-inflamatória. [28] Uma revisão de 2024 sobre tratamentos não cirúrgicos em fototipos IV a VI explica parte do mecanismo: os comprimentos de onda do PDL (585 e 595 nm) e do KTP (532 nm) são absorvidos também pela melanina, que compete com a hemoglobina e pode levar a discromia; os estudos citados nela associam bons resultados nesses fototipos a fluências mais baixas, resfriamento e parâmetros ajustados a cada paciente, e relatam hipopigmentação maior quando lasers foram combinados por excesso de dano térmico. [17] Os próprios autores concluem que faltam tratamentos com eficácia demonstrada especificamente nessa população. [17] O consenso latino-americano estabeleceu recomendações de segurança específicas para fototipos altos, [10] mas o detalhamento delas não está no resumo e o texto completo não estava acessível. Há também o risco teórico, citado em consensos, de que qualquer trauma adicional em queloide ativo funcione como novo estímulo inflamatório. [1, 7] Nada disso proíbe laser; pede indicação por médico com experiência em pele pigmentada e expectativa realista. A frequência de manchas por fototipo continua sem estimativa confiável nas fontes lidas.

Resultados não se transferem entre aparelhos. Um ensaio com PDL de 585 nm não informa sobre laser de outro comprimento de onda, nem um resultado em cicatriz atrófica de acne (tema de revisões vizinhas) se aplica a queloide.

10. Cirurgia, radioterapia e o problema da recidiva

Tabela 2. Taxas de recidiva relatadas em sínteses sobre queloide

FonteIntervençãoRecidiva relatadaObservação
Mankowski 2017, metanálise (72 estudos, 9.048 queloides) [6]Radioterapia após cirurgia vs radioterapia isolada22% vs 37%Diferença significativa (p = 0,005)
Mankowski 2017 [6]Braquiterapia pós-operatória vs raio X vs elétrons15% vs 23% vs 23%p = 0,04 vs raio X; p = 0,1 vs elétrons (sem diferença significativa); o resumo não explicita se raio X e elétrons foram pós-operatórios; tórax com maior recidiva
Wojarska 2026, revisão sistemática (22 estudos, mais de 2.219 pacientes) [14]Cirurgia + radioterapia1,6% a 55,2%Varia com dose, fracionamento, técnica e seguimento
Wojarska 2026, revisão sistemática (21 artigos, misturando revisões e estudos primários) [15]Cirurgia + braquiterapia3,1% a 15%Faixa do resumo; a tabela do próprio artigo lista um estudo com braquiterapia de baixa taxa de dose em 19,4% a 22,3%, fora da faixa
Wojarska 2026 [15]Cirurgia + radioterapia externa14% a 29,3%Idem
Wojarska 2026 [15]Cirurgia + triamcinolona6,6% a 33%Depende do protocolo

Valores de Mankowski conforme o resumo (texto completo não acessível); valores de Wojarska conferidos no texto completo. A revisão sobre adjuvantes [15] inclui revisões sistemáticas e metanálises junto de estudos primários; seu total de pacientes pode contar populações sobrepostas, por isso não é usado aqui como medida de robustez; para aconselhamento, valem os números dos estudos primários. As faixas não são comparáveis entre si de forma direta: populações, locais e tempo de seguimento diferem.

Figura em dois painéis: à esquerda, pontos com taxas agrupadas de recidiva de queloide por modalidade de radiação; à direita, barras com a amplitude de recidiva entre estudos, de 1,6% a 55,2%.
Figura 2. Recidiva de queloide em sínteses publicadas (Tabela 2), em dois painéis que não devem ser comparados diretamente. A: estimativas agrupadas da metanálise de Mankowski 2017 (conforme o resumo). B: amplitude entre estudos (menor e maior valor relatado) nas revisões de Wojarska 2026, conferidas no texto completo; essas amplitudes não são intervalos de confiança. Populações, locais e tempo de seguimento diferem. Fontes: referências [6], [14] e [15].

A excisão isolada de queloide é reconhecida nas revisões como associada a alta recidiva, e por isso quase sempre se discute adjuvante. [14, 15] No texto completo da revisão de 2026 sobre adjuvantes, a discussão cita recidiva de 45% a 100% com cirurgia como monoterapia, e um dos estudos incluídos relata 54% sem adjuvante; a revisão sobre radioterapia não traz número próprio para cirurgia isolada. [14, 15] A diretriz alemã recomenda cirurgia de queloide só depois de pesar riscos e benefícios e sempre com adjuvante (radioterapia, compressão ou triamcinolona). [16] Entre os adjuvantes físicos, a radioterapia é o mais estudado. A metanálise de 2017 mostra recidiva menor quando a radiação vem depois da cirurgia do que quando é usada isolada, e a menor taxa com braquiterapia pós-operatória (15%, contra 23% com raio X e 23% com feixe de elétrons; a diferença foi significativa em relação ao raio X, p = 0,04, mas não ao feixe de elétrons, p = 0,1; o resumo não explicita se essas duas modalidades foram aplicadas após cirurgia); o efeito adverso mais relatado foi alteração de pigmentação. [6] A revisão sistemática de 2026 sobre radioterapia adjuvante mostra a outra face: recidivas de 1,6% a 55,2%, e falta de padronização de dose e momento de aplicação. [14] O texto completo explica os extremos. O menor valor vem de um estudo com 20 Gy por feixe de elétrons; o maior, de um grupo irradiado depois de enxerto de pele, que no mesmo estudo teve 16,7% com outra sequência de tratamento. Os autores notam tendência de menor recidiva com doses mais altas, mas sem comparação estatística formal, e não propõem dose de referência. O seguimento pesa: em um estudo, a recidiva passou de 32% em um ano para 35% em cinco anos. [14] Hiperpigmentação foi o efeito adverso mais citado, com frequências de 5,17% a 38,9% entre os estudos que a quantificaram (um relatou hiperpigmentação leve em todos os pacientes). Foram descritos três tumores malignos secundários em dois estudos, em órgãos fora do campo irradiado; os autores não estabelecem relação causal direta, mas reconhecem que o seguimento curto e a falta de vigilância sistemática de longo prazo limitam essa conclusão. [14] Uma revisão publicada online em 2021 (edição de 2022) sobre radioterapia adjuvante discute os mesmos fatores (momento, dose, frações, local) e também registra ausência de consenso sobre a estratégia ideal. [29]

Radioterapia é tratamento de serviço de radio-oncologia, indicado em casos selecionados, em geral queloides recorrentes ou extensos, com discussão individual de risco, inclusive em áreas sensíveis e em pessoas jovens. Não é procedimento estético.

Entre adjuvantes farmacológicos após cirurgia, a revisão de 2026 relata recidiva de 6,6% a 33% com triamcinolona conforme o protocolo, redução de recidiva com 5-FU em comparação com cirurgia isolada e resultados mais altos e inconsistentes com imiquimode 5%. [15] A leitura do texto completo pede cautela com os números de 5-FU e imiquimode: o mesmo artigo diz em um trecho que não houve recidiva com 5-FU e, em outro, lista 4% e 19%; e o valor de 39% para imiquimode vem de um único estudo de 77 pacientes. O seguimento dos estudos foi de 3 a 6 meses até 16 anos. [15] Os próprios autores concluem que abordagens combinadas reduzem recidiva, mas que a heterogeneidade impede comparar estudos com segurança. [15] Na metanálise em rede de combinações, excisão com braquiterapia ocupa posição favorável no ranking global de eficácia e recidiva; isso não equivale a superioridade estatística sobre todas as opções. Na classificação específica de recidiva, os autores colocaram triamcinolona com bleomicina em primeiro lugar. [12]

O que fica claro é que "recidiva" é um número muito sensível ao tempo de seguimento. Um estudo de seis meses e outro de três anos podem relatar taxas muito diferentes para o mesmo protocolo. Qualquer número apresentado ao paciente precisa vir com a pergunta: em quanto tempo de acompanhamento?

11. Quando não tratar como cicatriz: diagnóstico diferencial e encaminhamento

Nem toda lesão firme e elevada sobre uma cicatriz é queloide. O consenso JSW inclui, no algoritmo, a diferenciação com tumores benignos e malignos clinicamente parecidos. [1] O exemplo mais citado é o dermatofibrossarcoma protuberante (DFSP), um sarcoma cutâneo raro de evolução inicial lenta, que pode ser confundido com lesão benigna. Um relato de caso de 2018 descreve DFSP surgindo sobre cicatriz de queloide e discute a dificuldade diagnóstica. [8] Relato de caso não informa frequência; serve para lembrar que o erro existe e tem consequência grave.

Sinais que, segundo a lógica desses documentos, pedem avaliação médica e possível biópsia antes de qualquer tratamento estético:

  • lesão que surgiu sem trauma, cirurgia ou inflamação conhecida no local;
  • crescimento rápido, endurecimento irregular, nódulos dentro da lesão ou mudança de cor;
  • ulceração, sangramento espontâneo ou dor desproporcional;
  • "queloide" que não responde de forma alguma a tratamentos que costumam funcionar;
  • lesão única em local atípico para queloide, sobretudo em pessoa sem história prévia.

Há também situações em que não intervir, ou adiar, é a melhor conduta: cicatriz hipertrófica recente ainda em amadurecimento natural, gestação (para 5-FU e outros fármacos), infecção local ativa, doença sistêmica descompensada e expectativa de resultado incompatível com o que a literatura mostra. Queloides grandes, múltiplos, recorrentes ou em locais de alto risco pedem acompanhamento em serviço de dermatologia ou cirurgia plástica com acesso a terapias combinadas e, quando indicado, a radioterapia.

Este periódico descreve a literatura. Não afirma que a clínica que o publica realize tratamento de queloide ou qualquer das terapias farmacológicas e radioterápicas discutidas. A decisão sobre cada caso depende de avaliação presencial individual.

12. Toxina botulínica: sinal interessante, base frágil

A toxina botulínica tipo A entrou no tema por duas vias: reduzir a tensão muscular sobre feridas (prevenção, seção 6) e tratar cicatriz já formada, com hipóteses de efeito direto sobre fibroblastos.

Para tratamento, uma metanálise de 2024, publicada na Cureus, incluiu sete ensaios randomizados; segundo o resumo, os participantes eram sobretudo pacientes com cicatriz hipertrófica, o que limita a extrapolação para queloide. No resumo, a toxina melhorou a pontuação da escala de Vancouver (diferença média −1,69) e a maleabilidade (−0,76), mas não teve efeito significativo sobre altura ou espessura, vascularização ou pigmentação, com alta heterogeneidade entre estudos. [30] Nas metanálises em rede, não foi detectada diferença significativa de eficácia entre toxina e triamcinolona com 5-FU, o que não demonstra equivalência entre elas [26] e no topo do ranking de resposta, mas sem redução de recidiva. [27]

Esses sinais não sustentam a toxina como tratamento de primeira escolha de queloide. Os ensaios são poucos, pequenos, com doses e escalas diferentes, e o achado de que altura e espessura não mudaram significativamente na metanálise de 2024 contrasta com o que o paciente costuma esperar. [30] O uso para cicatriz é fora da indicação de bula (off-label), e deve ser apresentado assim ao paciente. Para quem já conhece a toxina por outras aplicações, como em hiperidrose, vale reforçar: resultado em uma indicação não se transfere para outra.

13. Terapias combinadas: por que viraram regra

As fontes favorecem combinações selecionadas em queloide, especialmente triamcinolona com 5-FU; isso não demonstra superioridade de qualquer associação sobre qualquer monoterapia. As recomendações internacionais de 2014 já diziam que uma abordagem combinada oferece o maior potencial de sucesso. [3] Os documentos mais novos repetem a ideia com mais detalhe. A diretriz alemã S2k de 2020, [9] a mais recente publicada (validade declarada até 31/12/2024, sem versão posterior localizada em 10/10/2026), segundo o resumo publicado por seu coordenador, parte da constatação de que uma única terapia raramente basta: triamcinolona com crioterapia é a combinação-padrão; 5-FU fora de bula ganhou recomendação para queloide resistente; laser fracionado ablativo e microagulhamento entraram como opções; e hialuronidase, bloqueadores de canal de cálcio e plasma foram listados sem recomendação a favor ou contra, por dados escassos e conflitantes. [16] O consenso Delphi latino-americano de 2026, com 22 dermatologistas e 23 cenários clínicos (consenso em 21), preferiu de forma consistente combinações a monoterapias e organizou a escolha por fase da cicatriz. [10] É opinião de especialistas, com o peso e os limites desse formato: útil para a população brasileira, que os ensaios quase não representam, mas não substitui ensaio comparativo. A revisão de 2023 sobre queloide propõe silicone mais corticoide como primeira linha, com 5-FU, bleomicina ou verapamil como adjuvantes possíveis, laser combinado para facilitar penetração de fármacos e excisão com radiação imediata para lesões refratárias; registra ainda que silicone e compressão têm evidência para reduzir recidiva. [11] As metanálises em rede dão suporte quantitativo, ainda que com limitações, à associação de triamcinolona e 5-FU. [12, 27]

Tabela 3. Resumo da evidência por modalidade

ModalidadePapel nas síntesesLimites da evidênciaPrincipais riscos citados
Silicone (placa ou gel)Prevenção e tratamento de primeira linhaEstudos com alto risco de viés; Cochrane 2013 julga a evidência fraca [4, 22]Irritação local; baixo risco
Triamcinolona intralesionalBase do tratamentoMuitos ensaios pequenos e heterogêneos [11, 24]Atrofia, telangiectasia, alteração de pigmento, dor
Triamcinolona + 5-FUCombinação com apoio mais consistenteMetanálises em rede de ensaios pequenos; comparações indiretas [12, 26, 27]Dor, ulceração; restrições na gestação
Crioterapia + corticoideAlternativa de primeira linha em casos selecionadosPoucos ensaios, controles heterogêneos [9, 13, 16]Hipopigmentação (risco maior que controles), telangiectasia, bolhas
PDL 585 nmAdjuvante, sobretudo em lesão vermelhaCerteza baixa na Cochrane [25]Púrpura, dor
Laser fracionado (CO2, não ablativo)Adjuvante e facilitador de fármacoCerteza muito baixa na Cochrane; consenso de especialistas [10, 25, 28]Hiper/hipopigmentação em fototipos altos [17]
Cirurgia isolada (queloide)Não recomendada sem adjuvanteConsistente quanto à alta recidiva [14, 15]Recidiva, às vezes maior que a lesão
Cirurgia + radioterapia/braquiterapiaQueloide refratário ou extensoEstudos observacionais; dose e seguimento sem padrão [6, 14, 15]Pigmentação; dúvidas de longo prazo
Toxina botulínicaExperimental/adjuvanteEnsaios pequenos, alta heterogeneidade [26, 27, 30]Uso fora de bula; poucos dados de recidiva

A coluna "Limites da evidência" é leitura desta revisão sobre desenho e consistência dos estudos, não avaliação GRADE formal; graus de certeza formais só existem onde atribuídos pela revisão Cochrane.

14. O que segue incerto

Algumas perguntas continuam sem resposta boa:

  • Não há padronização de dose, intervalo e número de sessões para quase nenhuma modalidade injetável.
  • Faltam ensaios que separem cicatriz hipertrófica de queloide na análise, e que estratifiquem por fototipo.
  • Recidiva de longo prazo (dois anos ou mais) é pouco relatada fora das séries de radioterapia.
  • Não se sabe quem vai responder a qual tratamento; marcadores genéticos e moleculares ainda são hipóteses de pesquisa. [20]
  • A comparação direta entre lasers diferentes, em pele brasileira de fototipo intermediário a alto, é praticamente inexistente nas fontes lidas. [28]

Uma lacuna também na comunicação: as escalas capturam dimensões diferentes. A escala de Vancouver avalia características observadas da cicatriz; a componente do paciente da POSAS inclui dor, coceira e percepção da aparência. Mesmo assim, a mudança da pontuação não descreve sozinha impacto na roupa, atividades ou qualidade de vida, nem garante melhora percebida como relevante.

15. Transparência

Esta revisão foi preparada a partir de consulta dirigida a registros PubMed em 10 de outubro de 2026, com leitura do texto completo de oito fontes e dos resumos das demais. Não há conflito financeiro declarado pela autoria. A revisão médica humana foi realizada por Alessandro Borges Alla (CRM-SP 118.136) em 10 de outubro de 2026 e está registrada no registro editorial do Fascículo 12. O revisor médico é sócio da Clínica Talita Almeida Estética Avançada, vínculo que se declara como possível interesse. O conteúdo descreve a literatura científica e não constitui indicação de tratamento, nem afirma a oferta, pela clínica que publica este periódico, das terapias farmacológicas, cirúrgicas ou radioterápicas discutidas. Qualquer decisão exige avaliação presencial individual.

16. Perguntas Frequentes

Toda cicatriz alta é queloide?

Não. Muitas cicatrizes altas são hipertróficas, ficam dentro do limite da ferida e melhoram com o tempo. Queloide invade pele sadia ao redor e tende a voltar após tratamento.

Placa ou gel de silicone funciona?

Há sinais de benefício para prevenção e para reduzir espessura e cor, mas os estudos têm alto risco de viés. É uma medida de baixo risco, recomendada como primeira linha em consensos, sem garantia de efeito.

Tirar o queloide com cirurgia resolve?

Cirurgia isolada de queloide tem recidiva alta (de 45% a 100% segundo a discussão de uma revisão de 2026). Por isso costuma ser combinada com adjuvante, como corticoide ou radioterapia, e mesmo assim a recidiva varia muito entre estudos.

Laser é a melhor opção para queloide?

A revisão Cochrane encontrou evidência de certeza baixa para o laser de corante pulsado e incerteza para lasers fracionados. Em pele mais pigmentada, há risco de manchas claras ou escuras, e os parâmetros precisam ser ajustados ao fototipo. Laser costuma entrar como parte de uma combinação, não como solução isolada.

Toxina botulínica trata queloide?

Há ensaios pequenos com melhora em escalas de cicatriz, mas sem efeito significativo em altura e espessura em uma metanálise, e sem redução de recidiva em outra. É uma opção ainda considerada experimental.

Quando devo procurar um médico antes de qualquer tratamento?

Se a lesão surgiu sem trauma, cresce rápido, sangra, ulcera, tem nódulos ou não responde ao que normalmente funciona. Alguns tumores de pele, como o dermatofibrossarcoma protuberante, podem imitar queloide.

Quem já teve queloide pode fazer piercing ou cirurgia estética?

A história de queloide é um dos principais fatores de risco para novo queloide. Procedimentos eletivos em áreas de risco devem ser discutidos antes, com avaliação individual do risco e das medidas preventivas.

Avaliação personalizada na Clínica Talita Almeida

Av. Jandira, 295, Moema, São Paulo. Dra. Talita Almeida (Enfermeira Esteta, COREN-SP 427.906).

Referências Científicas

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Aviso importante: Este artigo tem finalidade informativa e educacional. Os resultados apresentados são baseados em médias de estudos clínicos e podem variar. Consulte um profissional qualificado antes de iniciar qualquer procedimento.
TA
Talita Almeida
Enfermeira Estética, COREN-SP 427.906
Especialista em procedimentos estéticos minimamente invasivos baseados em evidência. Clínica em Moema, São Paulo.