a inflamação crônica de baixo grau é a causa do envelhecimento da pele?
Não há base para dizer que ela seja a causa, nem a causa principal. Há sinais em pele humana de que marcadores de senescência celular, mediadores inflamatórios e exposição solar acompanham o envelhecimento e se associam a rugas e elastose, mas grande parte da cadeia causal foi demonstrada apenas em células ou em animais. O inflammaging é, hoje, um mecanismo plausível em estudo, que convive com fatores genéticos, hormonais, estruturais e ambientais.
- Inflammaging é o nome dado a um estado inflamatório crônico, de baixa intensidade e sem sinais clínicos evidentes, que acompanha o envelhecimento.
- O conceito nasceu na imunologia do envelhecimento e passou a ser usado para descrever também a pele, onde se combina com senescência celular, radiação ultravioleta, glicação, poluição, alterações do microbioma e perda de função de barreira.
- A síntese mostra três camadas de evidência com pesos distintos: associações observacionais em biópsias e populações; estudos mecanísticos em laboratório; e um número pequeno de ensaios clínicos que medem desfechos visíveis, quase sempre sem medir inflamação.
- Fotoproteção diária e retinoides tópicos têm ensaios controlados para sinais de envelhecimento, mas esses ensaios não demonstram que o benefício ocorra por redução do inflammaging.
- Senolíticos aplicados ao envelhecimento cutâneo permanecem experimentais.
Resumo
Inflammaging é o nome dado a um estado inflamatório crônico, de baixa intensidade e sem sinais clínicos evidentes, que acompanha o envelhecimento. O conceito nasceu na imunologia do envelhecimento e passou a ser usado para descrever também a pele, onde se combina com senescência celular, radiação ultravioleta, glicação, poluição, alterações do microbioma e perda de função de barreira. Esta revisão narrativa, a primeira de uma série de dois textos, examina o que sustenta essa ideia em pele humana e o que depende de culturas de células ou de camundongos. A síntese mostra três camadas de evidência com pesos distintos: associações observacionais em biópsias e populações; estudos mecanísticos em laboratório; e um número pequeno de ensaios clínicos que medem desfechos visíveis, quase sempre sem medir inflamação. Fotoproteção diária e retinoides tópicos têm ensaios controlados para sinais de envelhecimento, mas esses ensaios não demonstram que o benefício ocorra por redução do inflammaging. Senolíticos aplicados ao envelhecimento cutâneo permanecem experimentais. O conceito é útil para organizar hipóteses; não é, isoladamente, uma explicação do envelhecimento da pele nem um alvo terapêutico validado.
Palavras-chave: inflammaging; envelhecimento cutâneo; senescência celular; SASP; fotoenvelhecimento; barreira cutânea; produtos de glicação avançada; exposoma.
1. De onde vem o conceito
O termo inflamm-aging foi proposto em 2000 por Franceschi e colaboradores, em uma leitura evolutiva da imunossenescência: a exposição contínua a estímulos ao longo da vida manteria o sistema imune inato em ativação persistente e de baixo grau, com aumento progressivo de mediadores pró-inflamatórios [1]. A proposta original falava do organismo como um todo e não da pele em particular.
Em 2018, o mesmo grupo atualizou a ideia com uma perspectiva imunometabólica, em que patógenos, restos celulares e moléculas fora de lugar, nutrientes e a microbiota intestinal funcionariam como estímulos para essa ativação [2]. No ano seguinte, uma revisão em Nature Medicine reuniu dados que ligam a inflamação sistêmica crônica ao risco de doenças cardiovasculares, metabólicas e neurodegenerativas, e chamou atenção para um problema que reaparecerá em toda esta revisão: ainda não existe um conjunto padronizado de biomarcadores para diagnosticar esse estado em uma pessoa [3].
A transposição para a dermatologia veio por revisões que propuseram a pele como órgão em que o inflammaging tanto acontece quanto pode ser alimentado [4, 5, 6, 7]. Uma revisão de 2026 sobre estratégias senolíticas e senomórficas em dermatologia trata a senescência como mecanismo central do envelhecimento cutâneo, mas a própria formulação do resumo é condicional: as células senescentes "podem" degradar a matriz, alterar a pigmentação e prejudicar a barreira [8]. A revisão narrativa de Pająk e colaboradores admite, no texto completo, que ainda não está claro o que é causa e o que é consequência nessa relação [7]. É útil registrar também que várias dessas revisões são narrativas e que parte delas tem autoria ligada à indústria cosmética; isso não as invalida, mas reforça a necessidade de verificar os estudos primários em vez de citar a síntese como prova.
2. Método e limites desta revisão
Esta é uma revisão narrativa crítica, sem protocolo registrado, sem busca sistemática exaustiva, sem seleção em duplicata e sem meta-análise própria. Foi feita consulta dirigida ao PubMed até 10 de outubro de 2026, com termos combinando inflammaging, skin aging, senescence, SASP, photoaging, advanced glycation end products, pollution, microbiome, barrier e os nomes das intervenções discutidas. Foram priorizados: textos fundadores do conceito; estudos em biópsias ou populações humanas; ensaios clínicos controlados de intervenções de uso corrente; e exemplos de estudos em células ou camundongos, escolhidos justamente para mostrar onde termina a evidência humana.
Na passada final, o estudo de Leiden de 2016 [9] foi conferido em registro bibliográfico e resumo, pois o corpo do artigo não foi recuperado. O texto completo foi aberto no PubMed Central para outros estudos que sustentam números centrais do argumento: dois estudos de Leiden [10, 11], o ensaio de dasatinibe mais quercetina [12], o piloto do emoliente [13], o segundo ensaio do peptídeo [14], o estudo de macrófagos [15], a meta-análise em rede de tópicos [16], a revisão de senoterapia [8] e a revisão de Pająk [7]. Para os demais, a leitura se apoiou no resumo publicado no PubMed; quando um número vem só do resumo, detalhes de métodos, perdas de seguimento e análises secundárias não foram reconstruídos. O texto completo do ensaio de vitamina C [17] não estava acessível: o Europe PMC o registra apenas com acesso por assinatura, sem versão aberta, e o resumo não informa o número de participantes nem a magnitude do efeito. Para antipoluição e antiglicação, foi feita nova consulta dirigida ao PubMed (termos de poluição, material particulado, glicação, AGEs e carnosina combinados com envelhecimento cutâneo, rugas ou elasticidade, filtrados por ensaio clínico) e ao ClinicalTrials.gov em 10 de outubro de 2026; ela localizou estudos pequenos de formulações específicas, mas nenhum que demonstrasse prevenção clínica pelo mecanismo proposto. Revisões citadas servem para contextualizar e não como prova de causalidade. Vários trabalhos têm vínculo visível com a indústria cosmética já no registro do PubMed: a revisão de Zhuang e Lyga é de autores de um centro de pesquisa da Avon [4]; o estudo de macrófagos é de um centro de pesquisa da Shiseido [15]; os estudos de Leiden têm coautor da Unilever [9, 10]; a revisão do exposoma tem coautores da Vichy e da L'Oréal [18]; os ensaios do peptídeo tópico são da empresa que o desenvolve [14, 19]; o estudo de exposição a material particulado tem autores da L'Oréal e da SkinCeuticals [20]; o ensaio de probiótico oral tem a maioria dos autores na empresa que produz a cepa [21]; e a revisão de 2026 sobre senoterapia em dermatologia tem três autores ligados à L'Oréal, embora declare ausência de conflitos [8]. Não verificamos o financiamento declarado de todos esses trabalhos no texto completo.
Este texto é a primeira parte de uma série de dois. Ele trata da inflamação que acompanha o envelhecimento sem que ninguém a provoque. A resposta inflamatória a procedimentos estéticos (laser, microagulhamento, bioestimuladores), que é aguda e induzida de propósito, fica para a segunda parte, prevista para novembro; aqui ela só aparece quando é preciso separar os dois fenômenos. Também ficam fora doenças inflamatórias da pele, como rosácea, dermatite atópica e psoríase, que têm literatura própria.
3. Inflamação aguda e inflamação crônica de baixo grau não são a mesma coisa
A inflamação, no sentido clássico, é uma resposta a infecção ou lesão que recruta células e mediadores, elimina o agente e encerra o processo com reparo tecidual [22]. Na pele, uma queimadura solar leve, um corte ou uma reação a um irritante seguem esse roteiro: há vermelhidão, calor, às vezes dor, e depois resolução. Essa resposta é necessária; sem ela, não haveria cicatrização.

O inflammaging descreve outra situação. Não há um agente agressor único nem sinais clínicos claros. O que se observa, em estudos de população e de tecido, é um nível basal discretamente mais elevado de citocinas como interleucina 6 (IL-6), fator de necrose tumoral alfa (TNF-alfa) e interleucina 1 beta, sustentado por longos períodos e sem fase de resolução bem definida [2, 3]. Medzhitov descreveu essa condição como uma espécie de inflamação "parainflamatória", mais próxima de uma adaptação a estresse tecidual crônico do que de uma defesa contra infecção [22].
A distinção tem consequência prática. Um sinal inflamatório agudo após um procedimento não é, por si, inflammaging. E reduzir uma inflamação aguda (com corticoide, por exemplo) não equivale a tratar um estado crônico de baixo grau, que ninguém sabe ainda medir de forma confiável na pele de um paciente individual.
Tabela 1. Diferenças entre inflamação aguda reparadora e inflamação crônica de baixo grau
| Característica | Inflamação aguda reparadora | Inflamação crônica de baixo grau (inflammaging) |
|---|---|---|
| Gatilho | Lesão, infecção ou irritante identificável | Estímulos difusos e persistentes: dano acumulado, células senescentes, exposição ambiental |
| Duração | Horas a semanas, com fase de resolução | Meses a anos, sem resolução clara |
| Sinais clínicos | Vermelhidão, calor, edema, às vezes dor | Em geral ausentes; detectada por marcadores em tecido ou sangue |
| Função | Defesa e reparo | Discutida; pode refletir adaptação a estresse que se torna desvantajosa |
| Medição na prática clínica | Exame físico | Não há exame padronizado validado para a pele |
| Fontes | [22] | [1, 2, 3, 22] |
4. Senescência celular e SASP: o elo mais citado
Em termos simplificados, células senescentes são células que pararam de se dividir de modo estável, em geral por dano ao DNA, encurtamento de telômeros ou estresse oxidativo, mas continuam metabolicamente ativas. A definição de trabalho é mais exigente: não existe um marcador único e específico de senescência, e p16INK4a ou p21, isolados, indicam parada do ciclo celular, não identificam com certeza toda célula senescente nem apenas elas. Por isso os estudos citados adiante falam em "células positivas para p16INK4a" (ou p21), e não em contagem direta de células senescentes; a seção 11 volta a esse limite. Coppé e colaboradores descreveram, em fibroblastos humanos cultivados, que essas células passam a secretar um conjunto amplo de citocinas, quimiocinas, fatores de crescimento e proteases, o chamado fenótipo secretor associado à senescência (SASP), com IL-6 entre os componentes mais consistentes [23]. O achado vem sobretudo de células em cultura (com uma confirmação em tumores de próstata tratados com quimioterapia, fora da pele); ele mostra o que as células são capazes de secretar, não quanto secretam dentro da pele de uma pessoa.
Em pele humana, há evidências observacionais de que células com esses marcadores se acumulam com a idade. Ressler e colaboradores analisaram amostras de pele saudável de pessoas de 0 a 95 anos e encontraram número significativamente maior de células positivas para p16INK4a (um marcador de parada do ciclo celular) nos grupos mais velhos, tanto na epiderme quanto na derme [24]. No Leiden Longevity Study, Waaijer e colaboradores contaram células p16INK4a positivas em biópsias de pele protegida do sol do braço de 178 participantes de 45 a 81 anos; contagens epidérmicas maiores (principalmente em melanócitos) associaram-se a mais rugas faciais e maior idade aparente, e, segundo o resumo, quem estava no tercil mais baixo de contagem parecia 3 anos mais jovem do que quem estava no mais alto, independentemente da idade cronológica [9].
Esses dados são relevantes porque vêm de tecido humano e de desfechos visíveis. Ainda assim, são associações transversais: não mostram que eliminar essas células reduziria rugas. Um estudo posterior do mesmo grupo, com 80 participantes, examinou se a senescência na pele acompanhava a senescência de linfócitos T na mesma pessoa e encontrou relação apenas parcial (a positividade epidérmica para p16INK4a não se associou aos fenótipos de imunossenescência de linfócitos T, e a dérmica associou-se a um deles) [10]. Em outras palavras, a pele não parece ser um simples espelho do envelhecimento imune sistêmico.

5. IL-6, TNF-alfa e NF-kappa B: sinalização em comum
Boa parte dos estímulos discutidos nesta revisão converge para vias de sinalização compartilhadas. O fator de transcrição NF-kappa B regula a expressão de IL-6, TNF-alfa e outras citocinas, e participa tanto da resposta à radiação ultravioleta quanto do SASP [2, 6, 23]. Revisões sobre pele descrevem ainda alteração do equilíbrio entre macrófagos de perfil pró-inflamatório (M1) e reparador (M2) e participação do sistema complemento [4, 15].
Um estudo de Horiba e colaboradores, com pele facial de doadoras falecidas (jovens de 25 a 43 anos e idosas de 62 a 88 anos), encontrou aumento da razão M1/M2 na derme envelhecida, correlacionado com a porcentagem de células positivas para p21 e p16 (marcadores de senescência), e associou essa mudança à redução de IL-34; os efeitos do sobrenadante de macrófagos sobre a senescência foram mostrados in vitro [15]. É um exemplo típico do campo: uma observação em tecido humano, acompanhada de um experimento em cultura que sugere direção causal sem prová-la no organismo.
O ponto de cautela é que IL-6 e TNF-alfa não são específicos de envelhecimento. Sobem com infecção, obesidade, sono ruim, tabagismo, doenças crônicas e esforço físico intenso. Um valor isolado no sangue não informa de onde vem a inflamação nem se a pele contribui para ela [3].
6. Radiação ultravioleta: o fator ambiental com mais evidência
Na pele, nenhum fator externo tem tanta evidência quanto a radiação ultravioleta. Fisher e colaboradores mostraram, em pele humana irradiada com doses abaixo das que provocam queimadura, ativação de fatores de transcrição e aumento de metaloproteinases que degradam colágeno; o pré-tratamento com ácido retinoico tópico reduziu essa indução [25]. Revisões posteriores do mesmo grupo descrevem a fragmentação progressiva do colágeno dérmico como traço central tanto do envelhecimento cronológico quanto do fotoenvelhecimento [26]; o resumo dessa revisão não destaca a inflamação entre os mecanismos, e o papel inflamatório da exposição repetida vem de outras fontes [6, 7].
A radiação ultravioleta conecta-se ao inflammaging por várias vias: dano ao DNA que induz senescência, estresse oxidativo, liberação de citocinas por queratinócitos e recrutamento de células inflamatórias [6, 7, 26]. Isso torna o fotoenvelhecimento um caso em que o componente inflamatório é plausível e parcialmente demonstrado em pele humana. Mesmo aqui, a degradação da matriz não depende só da inflamação: há ação direta da radiação sobre células e proteínas.
A relação com manchas também é conhecida: a exposição solar contribui para hiperpigmentação e para o melasma, tema discutido em Melasma: tratamentos e evidências científicas e, em linguagem mais prática, no post Melasma: protetor solar basta para controlar?.
7. Glicação e produtos de glicação avançada
Produtos de glicação avançada (AGEs, na sigla em inglês) formam-se quando açúcares reagem de forma não enzimática com proteínas de vida longa, como o colágeno. Na pele, isso torna as fibras mais rígidas e menos capazes de renovação. Gkogkolou e Böhm revisaram o acúmulo de AGEs na pele com a idade e sua interação com o receptor RAGE, cuja ativação aciona vias inflamatórias, incluindo NF-kappa B [27]. Os próprios autores formularam o título como pergunta, o que reflete o estado do conhecimento.
Estudos recentes reforçam a plausibilidade em laboratório. Sultana e colaboradores expuseram queratinócitos HaCaT a AGEs derivados de glioxal, com e sem radiação UVB, e observaram aumento de IL-1 beta, IL-6 e TNF-alfa com ativação da sinalização via RAGE [28]. É um estudo in vitro com linhagem celular e abordagem computacional; não mostra que a quantidade de AGEs presente na pele de uma pessoa produza o mesmo efeito, nem que reduzir AGEs reduza rugas.
Em nova consulta ao PubMed e ao ClinicalTrials.gov em 10 de outubro de 2026, não localizamos ensaio controlado em humanos que demonstre que dieta com menos açúcar ou um ativo "antiglicação" tópico reduza sinais visíveis de envelhecimento por esse mecanismo. Existem ensaios pequenos de formulações específicas rotuladas como inibidoras de AGEs; um exemplo é um ensaio randomizado de meia face, duplo-cego, com 42 mulheres, em que um hidratante descrito como inibidor de AGEs foi usado após microagulhamento com radiofrequência ou peeling de ácido glicólico e associou-se a melhora de alguns atributos de aparência em relação a um hidratante simples [29]. Pelo resumo, o estudo não mediu AGEs na pele nem marcadores inflamatórios, avaliou o produto como complemento de procedimento e, embora o registro do PubMed não traga afiliações, dois dos coautores aparecem como funcionários da marca cosmética em outro estudo do mesmo ano [20]; ele não demonstra o mecanismo. A busca não foi exaustiva e o rótulo "antiglicação" cobre formulações muito diferentes. A orientação de controle glicêmico tem justificativas próprias de saúde, mas apresentá-la como tratamento antienvelhecimento da pele seria extrapolação.
8. Poluição e exposoma
O conceito de exposoma reúne o conjunto de exposições ao longo da vida: radiação solar, poluição, tabaco, nutrição, sono, estresse e outros fatores. Krutmann e colaboradores propuseram um "exposoma do envelhecimento da pele" e organizaram a evidência disponível para cada fator [18].

Para poluição, o estudo mais citado é o de Vierkötter e colaboradores, com 400 mulheres de 70 a 80 anos na Alemanha. A exposição a partículas relacionadas ao tráfego associou-se a mais sinais de envelhecimento extrínseco, sobretudo manchas pigmentares e, em menor grau, rugas; segundo o resumo, um aumento definido na fuligem e nas partículas de tráfego associou-se a 20% mais manchas na testa e nas bochechas [30]. O estudo é observacional, foi feito em uma população específica (mulheres caucasianas idosas) e mede associação. O mecanismo proposto, que inclui estresse oxidativo e ativação inflamatória, vem de estudos experimentais [18].
Do lado das intervenções, há estudos curtos com formulações específicas. Num deles, 15 voluntárias receberam um sérum com ácido ascórbico, ácido ferúlico e tocoferol nas costas, seguido de exposição diária a material particulado por 4 dias; as biópsias mostraram menor alteração de componentes da matriz e de marcadores de inflamação e estresse oxidativo nas áreas tratadas [20]. É um modelo de exposição controlada em pele do dorso, com desfechos histológicos e autoria de funcionários do fabricante; não mede rugas, manchas ou prevenção ao longo do tempo. Na nova consulta ao PubMed e ao ClinicalTrials.gov feita em 10 de outubro de 2026, não foi localizado ensaio que demonstre que um produto "antipoluição" previna envelhecimento cutâneo visível em uso real por um mecanismo inflamatório medido. Como os conceitos comerciais são heterogêneos e a busca não foi exaustiva, isso descreve uma lacuna nesta busca, não prova de que nenhum estudo exista. A proteção mais estudada contra fatores externos continua sendo a fotoproteção.
9. Microbioma cutâneo: uma área ainda inicial
A composição de bactérias e fungos na pele muda ao longo da vida, acompanhando mudanças de hidratação, sebo e pH. Russo e colaboradores, em estudo piloto exploratório com 15 mulheres saudáveis divididas em três faixas etárias, descreveram diferenças na composição do microbioma facial entre os grupos e entre pele seca e normal [31]. O tamanho da amostra e o desenho não permitem conclusões causais.
A hipótese de que um microbioma alterado alimente inflamação de baixo grau na pele envelhecida aparece em revisões sobre a pele [6] e é análoga ao papel atribuído à microbiota intestinal no inflammaging sistêmico [2], mas não localizamos estudo mostrando que probióticos tópicos ou orais melhorem sinais de envelhecimento por redução do inflammaging cutâneo. Essa lacuna mecanística não equivale à ausência de ensaios clínicos. Lee e colaboradores, por exemplo, randomizaram 110 adultos de 41 a 59 anos com pele seca e rugas para uma cepa específica de probiótico oral (Lactobacillus plantarum HY7714) ou placebo por 12 semanas, em desenho duplo-cego; segundo o resumo, o grupo do probiótico teve aumento da hidratação, redução da profundidade das rugas e melhora da elasticidade em relação ao placebo [21]. O ensaio foi conduzido em grande parte por autores da empresa que produz a cepa, não mediu marcadores inflamatórios nem o microbioma da pele, e o resultado vale para aquela cepa e dose; não se transfere a outros probióticos nem demonstra ação sobre o inflammaging. Rótulos que prometem "reequilibrar o microbioma para rejuvenescer" vão além do que a literatura sustenta.
10. Barreira cutânea: da pele para o sangue?
Uma linha de pesquisa particularmente interessante inverte a direção habitual: em vez de a inflamação sistêmica envelhecer a pele, a pele envelhecida contribuiria para a inflamação sistêmica. Hu e colaboradores mostraram em camundongos que a ruptura aguda da barreira epidérmica elevava citocinas na pele e no sangue, que camundongos idosos tinham níveis mais altos nos dois compartimentos e que corrigir a função epidérmica reduzia esses níveis [32]. São dados em animais.
O mesmo grupo testou a hipótese em humanos. Ye e colaboradores fizeram um estudo piloto em que 33 pessoas idosas aplicaram cerca de 3 mL de um emoliente reparador de barreira duas vezes ao dia por 30 dias, com 30 idosos sem tratamento e cerca de 10 jovens como comparação. No texto completo, o emoliente melhorou a função de barreira e a hidratação do estrato córneo, e IL-1 beta e IL-6 plasmáticas caíram de forma significativa em relação aos idosos não tratados, até níveis próximos aos dos jovens; o TNF-alfa caiu mais de 40%, mas sem significância estatística [13]. Os próprios autores chamam o estudo de piloto de prova de conceito. A alocação não foi randomizada (os participantes foram distribuídos de forma alternada pela ordem de inscrição), o grupo controle não recebeu nenhum produto, a amostra é pequena e o desfecho é laboratorial, não clínico. O emoliente é um produto comercial, e o texto acessado não traz declaração de financiamento ou de conflito de interesses. Elias, um dos autores dessa linha, comentou a revisão de Pilkington e colaboradores defendendo o papel da barreira no inflammaging [33], enquanto o grupo de Pilkington, em carta posterior, discutiu se o envelhecimento da pele pode de fato contribuir para o inflammaging sistêmico [34].
Um ensaio randomizado posterior, com 60 mulheres idosas e conduzido pela empresa que desenvolve um peptídeo tópico, usou como controle justamente o emoliente do estudo de Ye e relatou melhor barreira e queda de citocinas circulantes (IL-8 e IL-10) no grupo do peptídeo; no grupo controle, a queda de IL-1 beta e IL-6 do estudo anterior não se repetiu [14]. Por ser estudo do fabricante, ele fica registrado aqui como dado convergente, não como apoio às conclusões; nenhum dos dois estudos mediu desfecho clínico de saúde. É uma hipótese promissora e testável, com um ponto a favor: a intervenção (hidratar e reparar barreira) é de baixo risco. Mas ainda não autoriza dizer que um creme hidratante "reduz a inflamação do corpo" ou "retarda o envelhecimento".

11. Biomarcadores: o problema da medição
Se o inflammaging é um estado de baixo grau e sem sinais clínicos, só pode ser identificado por marcadores. É aqui que o conceito mais esbarra na prática. A revisão de Furman e colaboradores registra que não há um painel padronizado e validado para definir inflamação sistêmica crônica em indivíduos [3]. Proteína C reativa, IL-6 e TNF-alfa variam por muitos motivos e não são específicos.
Na pele, os marcadores mais usados em pesquisa (contagem de células p16INK4a ou p21 positivas, atividade de beta-galactosidase associada à senescência, perfil de citocinas em biópsia) exigem tecido e laboratório especializado. Waaijer e colaboradores, comparando diferentes marcadores de senescência em fibroblastos cultivados de 100 doadores e a contagem de células p16INK4a positivas na pele de 52 deles, observaram que cerca de metade das correlações entre marcadores diferentes em cultura foi significativa e que nenhum marcador em cultura se correlacionou com a positividade para p16INK4a na pele do mesmo doador [11]. Isso significa que dizer "a pele tem muita senescência" depende do marcador escolhido.
Para o leitor, a consequência é direta: não existe hoje exame de rotina que diagnostique "inflammaging da pele" em consultório. Testes comercializados com essa promessa devem ser vistos com cautela, perguntando qual marcador medem, em que tecido, com que validação e o que se faria com o resultado.
Tabela 2. Mecanismo proposto, evidência em humanos e principais lacunas
| Mecanismo proposto | Evidência em pele ou população humana | Evidência predominante em modelo celular ou animal | Lacunas principais |
|---|---|---|---|
| Senescência celular e SASP | Mais células p16INK4a positivas com a idade [24]; associação com rugas e idade aparente em 178 participantes [9] | Composição do SASP em fibroblastos cultivados [23] | Falta mostrar que reduzir senescência na pele melhora sinais visíveis |
| IL-6, TNF-alfa e NF-kappa B | Razão M1/M2 aumentada na pele exposta ao sol [15]; citocinas sistêmicas mais altas em idosos [13] | Vias de sinalização em cultura [15, 28] | Marcadores inespecíficos; origem cutânea x sistêmica indefinida |
| Radiação ultravioleta | Indução de metaloproteinases em pele humana irradiada [25]; ensaio de fotoproteção [35] | Mecanismos moleculares de dano [26] | Ensaios clínicos não medem inflamação como desfecho |
| Glicação (AGEs) | Acúmulo de AGEs na pele com a idade descrito em revisão [27] | Ativação inflamatória por AGEs com UVB em queratinócitos HaCaT [28] | Ensaios pequenos de formulações específicas [29]; nenhum localizado que demonstre o mecanismo com desfecho visível |
| Poluição | Associação observacional com manchas e rugas em 400 mulheres [30] | Estresse oxidativo e inflamação em modelos experimentais [18] | Estudo curto com desfecho histológico [20]; nenhum localizado com prevenção clínica em uso real |
| Microbioma | Diferenças de composição por idade em piloto com 15 mulheres [31] | Hipóteses mecanísticas em revisões [2, 6] | Causalidade desconhecida; ensaio de probiótico oral de cepa específica sem medida de inflamação [21] |
| Barreira cutânea | Piloto não randomizado, 33 idosos: emoliente e queda de IL-1 beta e IL-6 [13] | Ruptura de barreira eleva citocinas séricas em camundongos [32] | Ensaio randomizado maior e desfecho clínico ainda ausentes |
12. Intervenções com evidência clínica, e o que elas não demonstram
Esta seção separa duas perguntas: a intervenção melhora sinais de envelhecimento da pele em ensaio controlado? E, se melhora, há prova de que o faz por reduzir inflammaging? Para quase todas, a primeira resposta tem algum apoio e a segunda permanece em aberto.
Fotoproteção. O ensaio de Nambour, na Austrália, randomizou 903 adultos com menos de 55 anos para uso diário de protetor solar de amplo espectro ou uso discricionário (e, em paralelo, betacaroteno ou placebo). Após 4,5 anos, segundo o resumo, o grupo de uso diário não teve aumento detectável de envelhecimento cutâneo, e o envelhecimento foi 24% menor do que no grupo de uso discricionário (razão de chances relativa 0,76; IC 95% 0,59 a 0,98). O betacaroteno não teve efeito geral [35]. Os autores reconhecem dados faltantes e poder limitado. É, ainda assim, o ensaio de prevenção mais robusto disponível, e o desfecho foi a microtopografia da pele, não um marcador inflamatório.
Retinoides tópicos. Weiss e colaboradores, em 1988, conduziram um estudo duplo-cego controlado por veículo de 16 semanas com tretinoína tópica: os 30 pacientes que concluíram melhoraram no antebraço tratado e não no antebraço com veículo; na face, 14 de 15 do grupo tretinoína melhoraram, contra nenhum do grupo veículo, com irritação como efeito adverso [36]. Kafi e colaboradores testaram retinol 0,4% contra veículo em 36 idosos (idade média de 87 anos), em comparação entre braços, por 24 semanas; houve melhora significativa das rugas finas no lado tratado, além de aumento de glicosaminoglicanos e de pró-colágeno I em subgrupos pequenos [37]. Sínteses recentes mantêm esse lugar dos retinoides. Uma meta-análise em rede de 2025, com 23 ensaios randomizados e 3.905 participantes, encontrou melhora das rugas finas com isotretinoína, retinol e tretinoína tópicos e apontou como limites a pouca diversidade étnica, a possibilidade de viés comercial e a variação nas escalas de avaliação [16]. Uma revisão sistemática de 2024 com 25 estudos que compararam a tretinoína a outros tópicos concluiu que ela segue como padrão de referência, que a tolerância limita seu uso e que a maioria das comparações tem baixa qualidade ou risco de viés [38]. Num consenso Delphi de 2025, 62 dermatologistas de 43 centros chegaram a acordo sobre retinoides, vitamina C e protetor solar mineral para linhas finas e rugas, com a ressalva de que parte das escolhas se apoia em opinião de especialista [39]. Nenhum desses trabalhos tem inflamação crônica como desfecho. O mecanismo mais documentado dos retinoides é estímulo à matriz e antagonismo de vias induzidas pelo ultravioleta [25], o que se cruza com o eixo inflamatório, mas os ensaios não mediram inflammaging. O tema dialoga com Neocolagênese: como o colágeno é estimulado e com o uso de ácido retinoico em peelings químicos. Retinoides exigem cuidado com irritação e são contraindicados na gestação.
Antioxidantes tópicos. Humbert e colaboradores compararam creme com vitamina C a 5% e excipiente em pele fotoenvelhecida de colo e braços, em estudo duplo-cego randomizado de 6 meses, com melhora do escore global no lado tratado e alterações de microrrelevo e de tecido elástico [17]. A revisão de Pullar e colaboradores discute o papel da vitamina C na síntese de colágeno e na proteção antioxidante, e lembra que a penetração tópica depende muito da formulação [40]. O resumo do ensaio de Humbert não informa o número de participantes nem a magnitude do efeito; os ensaios de antioxidantes tópicos tendem a ser pequenos, de formulações específicas, e o resultado de uma formulação não se transfere automaticamente para outra.
Nutrição e estilo de vida. O mesmo ensaio de Nambour não encontrou efeito geral de suplementação de betacaroteno sobre o envelhecimento da pele [35]. Para colágeno oral, o suplemento mais vendido com promessa de pele mais jovem, uma revisão sistemática com meta-análise de 2025 reuniu 23 ensaios randomizados e 1.474 participantes. No conjunto, houve melhora de hidratação, elasticidade e rugas; separados por financiamento, os ensaios sem financiamento da indústria não mostraram efeito, e os de alta qualidade também não. Os autores concluem que não há evidência clínica que apoie o uso de colágeno para prevenir ou tratar o envelhecimento da pele [41]. O exemplo é útil além do colágeno: quando a análise separa quem pagou o estudo, parte do efeito pode desaparecer. Evitar tabaco, dormir bem, praticar atividade física e manter controle metabólico têm benefícios de saúde amplos e aparecem nas revisões sobre exposoma e inflamação crônica [3, 18], mas não localizamos ensaio que mostre, para a pele, efeito mediado por redução de inflammaging.
Senolíticos. São compostos que eliminam seletivamente células senescentes. No primeiro relato de redução de células senescentes em humanos (medida por marcadores como p16 e p21), Hickson e colaboradores administraram dasatinibe mais quercetina por via oral, por 3 dias, a 9 pessoas com doença renal do diabetes, em estudo aberto de fase 1; 11 dias depois, houve menos células p16 e p21 positivas no tecido adiposo e na epiderme, e redução de fatores do SASP circulantes [12]. O estudo não tinha grupo controle, não avaliou aparência da pele e envolveu medicamentos com riscos relevantes, prescritos para outra finalidade. Em nova consulta feita em 10 de outubro de 2026, não localizamos, no PubMed nem no ClinicalTrials.gov, ensaio controlado com fármaco senolítico (como dasatinibe, quercetina, fisetina ou navitoclax) que tenha avaliado sinais de envelhecimento cutâneo em pessoas saudáveis; os dois registros que apareceram para envelhecimento da pele com esses termos eram de suplementos, não de senolíticos. A revisão de 2026 sobre senoterapia em dermatologia trata a passagem para a prática clínica como expectativa futura e, no texto completo, sustenta os efeitos senolíticos sobretudo com estudos em animais [8].
Fora do campo dos fármacos, há ensaios pequenos com cosméticos descritos como "senoterapêuticos", e eles exigem leitura à parte, porque são estudos do fabricante. Um peptídeo tópico foi comparado ao mesmo veículo sem o peptídeo em 22 participantes, em desenho de meia face duplo-cego por 12 semanas, com redução da perda transepidérmica de água e da aparência de rugas periorbitais no lado ativo [19]. Em outro ensaio randomizado duplo-cego, com 60 mulheres de 60 a 90 anos (52 concluíram), uma formulação corporal com o peptídeo e outros ativos foi comparada a um emoliente comercial por 12 semanas, com melhor função de barreira e queda significativa de IL-8 circulante [14]. Pela declaração de conflitos do texto completo de [14], quatro autores são cofundadores da empresa e cinco constam como inventores de patente pertencente a ela. Os dois estudos são pequenos, a presença de outros ativos na formulação de [14] impede atribuir o efeito só ao peptídeo, e nenhum mediu marcadores de senescência na pele das participantes; o efeito "senoterapêutico" é inferido de modelos de laboratório. Por isso, esses dois ensaios ficam fora das conclusões desta revisão: são registrados para que a lacuna não seja descrita como maior do que é, não como evidência de que um cosmético atue sobre o inflammaging. Cosméticos rotulados como "senolíticos" não equivalem aos fármacos senolíticos e cada formulação precisa de ensaio próprio, de preferência independente de quem a vende.
Outras abordagens. Fototerapia com LED é às vezes apresentada como "anti-inflamatória"; a evidência e seus limites estão discutidos em LED terapia: evidências para pele e cicatrização. Procedimentos e bioestimuladores, que provocam inflamação aguda controlada, ficam para a segunda parte desta série.
Tabela 3. Intervenções: o que foi medido e o que não foi
| Intervenção | Melhor evidência localizada | Desfecho medido | Marcadores relacionados ao inflammaging medidos? |
|---|---|---|---|
| Protetor solar diário | Ensaio randomizado, 903 adultos, 4,5 anos [35] | Microtopografia da pele | Não |
| Tretinoína tópica | Ensaio duplo-cego, 16 semanas, 30 concluintes [36] | Escore clínico e histologia | Não |
| Retinol 0,4% | Ensaio duplo-cego entre braços, 36 idosos, 24 semanas [37] | Rugas finas, matriz | Não |
| Vitamina C tópica 5% | Ensaio duplo-cego randomizado, 6 meses [17] | Escore global, microrrelevo | Não |
| Emoliente de barreira | Piloto, 33 idosos, 30 dias [13] | Barreira e citocinas plasmáticas | Citocinas sistêmicas inespecíficas; não diagnóstico de inflammaging cutâneo; sem desfecho visível |
| Betacaroteno oral | Mesmo ensaio, 903 adultos [35] | Microtopografia | Não; sem efeito geral |
| Colágeno oral | Meta-análise, 23 ensaios, 1.474 participantes [41] | Hidratação, elasticidade, rugas | Não; sem efeito nos ensaios independentes e nos de alta qualidade |
| Dasatinibe mais quercetina | Fase 1 aberto, 9 pacientes com doença renal [12] | Células senescentes e SASP | Células positivas para p16 e p21 e fatores do SASP, em pacientes com doença renal; sem desfecho estético |
| Peptídeo tópico "senoterapêutico" | Ensaios duplo-cegos do fabricante, 22 e 60 participantes; fora das conclusões [14, 19] | Barreira, rugas, citocinas plasmáticas | Citocinas sistêmicas em um deles; senescência na pele não medida |
| Probiótico oral (L. plantarum HY7714) | Ensaio randomizado duplo-cego, 110 adultos, 12 semanas; autores ligados ao fabricante [21] | Hidratação, rugas, elasticidade | Não |
13. A transposição de modelos animais e celulares
Grande parte do que se escreve sobre inflammaging cutâneo vem de experimentos em que as condições são controladas e intensas. Um exemplo: Liang e colaboradores mostraram em camundongos sem o gene ApoE (modelo de dislipidemia) alimentados com dieta rica em gordura que a deleção adicional do gene p16 reduzia marcadores de SASP e fibrose na pele [42]. Isso ajuda a entender mecanismos, mas camundongos têm pele mais fina, outra densidade de pelos, outro ciclo de vida e outra resposta imune; a dieta e a manipulação genética não correspondem a uma situação clínica.
Da mesma forma, culturas de queratinócitos ou fibroblastos expostas a doses definidas de UVB ou de AGEs [28] mostram vias possíveis, não o que acontece em uma pele com várias camadas, circulação, células imunes e décadas de exposição variável. Quando um material de divulgação diz que um ativo "reduz a inflamação que envelhece a pele", vale perguntar: em que modelo isso foi medido, e houve ensaio em pessoas com desfecho que o paciente perceberia?
14. O que o conceito explica e o que não explica
O inflammaging ajuda a organizar observações dispersas: por que o sol envelhece a pele de modo diferente da idade cronológica, por que células com marcadores de senescência aparecem mais em pele idosa e se associam a rugas, por que uma barreira comprometida pode ter efeitos além da superfície. Também ajuda a formular perguntas testáveis.
O conceito não explica sozinho a perda de gordura facial, a remodelação óssea, as mudanças hormonais da menopausa, a variação genética de fototipo e espessura da pele, nem os efeitos mecânicos de expressão e gravidade. Rittié e Fisher descrevem o envelhecimento cutâneo como resultado de vários processos que afetam praticamente todos os componentes da pele [26]. Tratar inflammaging como causa única, ou como alvo que resolveria o envelhecimento, simplifica um fenômeno multifatorial.
15. Implicações para a prática e para a comunicação
Do ponto de vista prático, as medidas com ensaio clínico de prevenção ou melhora de sinais de envelhecimento (fotoproteção diária, retinoides tópicos em quem os tolera, algumas formulações antioxidantes) já são recomendadas independentemente da teoria do inflammaging. Saber que podem atuar também sobre vias inflamatórias é interessante, mas não muda a indicação nem justifica prometer mais. Para orientações de rotina em clima quente, o post Cuidados com a pele no verão traz um resumo prático.
Algumas situações pedem avaliação individual presencial antes de qualquer ativo: gestação (a orientação habitual é evitar retinoides tópicos por precaução, ainda que estudos de exposição acidental no primeiro trimestre não tenham detectado aumento de malformações maiores [43, 44]) e amamentação (faltam estudos específicos sobre retinoides tópicos, de modo que a decisão é individual e deve considerar o produto, a via e o local de aplicação; não se aplica contraindicação uniforme a todos os retinoides tópicos), pele sensível ou com doença inflamatória ativa, uso de medicamentos fotossensibilizantes, histórico de alergia a componentes de fórmulas. Suplementos e fármacos vendidos como "antienvelhecimento sistêmico", inclusive senolíticos, não devem ser usados sem indicação e acompanhamento médico, porque têm efeitos adversos e interações.
Na comunicação com o público, o que a literatura permite dizer cabe em pouco. A inflamação crônica de baixo grau é um mecanismo em estudo, que convive com outros e não responde sozinho pelo envelhecimento da pele. A evidência em pele humana é sobretudo observacional. As intervenções com ensaio clínico funcionam, quando funcionam, sem que se tenha demonstrado que o fazem por esse caminho.
Esta primeira parte fecha com uma pergunta deixada de propósito em aberto. Se a inflamação crônica de baixo grau é, no máximo, um componente do envelhecimento, o que dizer da inflamação aguda que laser, microagulhamento e bioestimuladores provocam de propósito? A segunda parte da série, prevista para novembro, parte dessa distinção.
16. Transparência
Revisão narrativa crítica preparada para o Fascículo 12 dos Cadernos de Estética Avançada. Não há conflito de interesse financeiro declarado pela autoria. A revisão médica humana foi realizada por Alessandro Borges Alla (CRM-SP 118.136) em 10 de outubro de 2026 e está registrada no registro editorial do Fascículo 12. O revisor médico é sócio da Clínica Talita Almeida Estética Avançada, vínculo que se declara como possível interesse. As referências foram conferidas em registros do PubMed; a maior parte da interpretação se apoia nos resumos publicados. O conteúdo é informativo, não substitui avaliação individual presencial e não indica que qualquer intervenção citada esteja disponível na clínica.
17. Perguntas Frequentes
O que é inflammaging, em uma frase?
É um estado inflamatório persistente e de baixa intensidade que acompanha o envelhecimento, sem sinais clínicos evidentes, descrito inicialmente no sistema imune e depois estudado na pele.
Existe exame para saber se tenho inflammaging na pele?
Não há exame padronizado e validado para uso clínico. Os marcadores usados em pesquisa exigem biópsia ou análises laboratoriais que não definem o diagnóstico de forma isolada.
Protetor solar reduz o inflammaging?
O protetor solar diário reduziu sinais de envelhecimento da pele em ensaio randomizado. Esse ensaio não mediu marcadores inflamatórios, então não se pode afirmar que o efeito ocorreu por esse caminho.
Cosméticos "anti-inflammaging" ou "senolíticos" funcionam?
Depende do produto e do estudo que ele tiver. A existência de um mecanismo em cultura de células não substitui ensaio controlado em pessoas. Não localizamos ensaio de fármaco senolítico com desfecho estético em pessoas saudáveis; há ensaios pequenos, conduzidos pelo fabricante, de um peptídeo tópico descrito como senoterapêutico, que não mediram eliminação de células senescentes na pele.
Hidratar a pele pode diminuir a inflamação do corpo?
Um estudo piloto não randomizado com 33 idosos encontrou queda de IL-1 beta e IL-6 no sangue após 30 dias de emoliente reparador de barreira. É um resultado preliminar, sem desfecho clínico, que precisa de confirmação em ensaio maior.
Dieta com menos açúcar evita rugas por reduzir glicação?
A relação entre glicação e envelhecimento da pele é plausível, mas não localizamos ensaio controlado mostrando redução de rugas por esse mecanismo; os poucos ensaios com produtos "antiglicação" são pequenos e não mediram o mecanismo. Controle glicêmico tem outros motivos de saúde.
Suplemento de colágeno combate o envelhecimento da pele?
A meta-análise mais recente encontrou efeito no conjunto dos ensaios, mas nenhum efeito nos ensaios sem financiamento da indústria nem nos de alta qualidade; os autores concluem que falta evidência clínica para esse uso.
Esta revisão trata da inflamação provocada por procedimentos estéticos?
Não. A inflamação aguda induzida por laser, microagulhamento e bioestimuladores será discutida na segunda parte desta série, prevista para novembro. Este texto trata apenas da inflamação crônica de baixo grau que acompanha o envelhecimento.
Avaliação personalizada na Clínica Talita Almeida
Av. Jandira, 295, Moema, São Paulo. Dra. Talita Almeida (Enfermeira Esteta, COREN-SP 427.906).
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