
Índice do Artigo
- Introdução
- Fisiopatologia do efluvio telógeno
- Gatilhos: bariátrica, dieta restritiva e GLP-1
- GLP-1: o que se sabe e o que não se sabe
- Timeline: quando aparece, quando resolve
- Diagnóstico diferencial: androgenética
- O que a estética avançada pode oferecer
- O papel da nutrição e da suplementação
- Quando encaminhar para avaliação adicional
- Perguntas frequentes
- Conclusão
Emagrecer rápido, fazer bariátrica ou usar GLP-1 pode causar queda de cabelo?
Sim. A perda de peso rápida — por dieta muito restritiva, cirurgia bariátrica ou agonistas de GLP-1 (semaglutida/Ozempic-Wegovy, tirzepatida/Mounjaro) — é um gatilho clássico e bem documentado de efluvio telógeno: uma queda de cabelo difusa (não localizada) causada pela entrada prematura e sincronizada de folículos na fase de repouso, tipicamente 2 a 4 meses após o evento gatilho.[1][2] Após cirurgia bariátrica, a incidência combinada relatada em metanálises fica entre 47% e 57% dos pacientes.[12][13]
Dois pontos centrais desde já: (1) na esmagadora maioria dos casos é autolimitado — resolve espontaneamente em 6 a 12 meses com a estabilização do peso e da nutrição — e (2) a associação com os agonistas de GLP-1 é emergente e observacional, não uma causalidade farmacológica estabelecida. A hipótese mais respaldada é que o próprio ritmo e a magnitude da perda de peso — e o déficit nutricional que às vezes a acompanha — sejam o gatilho, não uma ação direta do medicamento sobre o folículo.
- Prevalência pós-bariátrica: duas metanálises estimaram a incidência combinada em 57% (IC 95%: 42-71%; 18 estudos, n=2.538, 2021) e 47% (41 estudos, n=7.044, 2025), diminuindo com o tempo de acompanhamento[12][13]
- Queda pós-bariátrica tem dois padrões: aguda nos primeiros 3 meses (estresse cirúrgico/anestésico e restrição calórica abrupta) e tardia a partir do 6º mês, ligada a deficiências acumuladas de ferro, zinco, proteína, folato e B12[4]
- Sinal de alopecia com GLP-1 é dose-dependente: as doses menores, típicas do tratamento do diabetes, raramente foram implicadas; os relatos se concentram nas doses altas usadas para obesidade (semaglutida até 2,4 mg/semana; tirzepatida 5–15 mg/semana, escalas distintas entre as moléculas), e a tirzepatida (maior perda de peso) é a mais ligada a efluvio telógeno[14]
- Scoping review de 2025 (9 estudos): mais de 1.000 casos espontâneos de alopecia associada a GLP-1 reportados ao FAERS (farmacovigilância dos EUA) — a maioria sem confirmação dermatológica do subtipo[8]
- Evidência de PRP e microagulhamento é mais robusta para alopecia androgenética do que especificamente para efluvio telógeno, onde não há revisão sistemática dedicada nem ensaio randomizado de porte[11]
- Minoxidil tópico 5% mostrou aumento mensurável de contagem de fios terminais em ensaio aberto de braço único com 12 pacientes, mas é uso off-label especificamente para efluvio telógeno[9]
- Autolimitado na maioria dos casos: recuperação espontânea entre 6 e 12 meses após remoção/estabilização do gatilho
1. Introdução: Um Efeito Colateral Real do Sucesso na Perda de Peso
O boom de tratamentos para emagrecimento — cirurgia bariátrica, dietas de restrição calórica agressiva e, mais recentemente, os agonistas de receptor de GLP-1 (semaglutida, tirzepatida, liraglutida) — trouxe consigo um efeito colateral que pega muitos pacientes de surpresa: a queda de cabelo. Não é incomum que, meses depois de alcançar uma perda de peso significativa e celebrada, a pessoa perceba mais fios no travesseiro, na escova e no ralo do chuveiro — um contraste desconcertante com o resultado positivo na balança.
Esse fenômeno tem nome e mecanismo bem descritos na literatura dermatológica: efluvio telógeno (telogen effluvium), a forma mais comum de queda de cabelo difusa e não cicatricial, classicamente associada a estresses fisiológicos agudos — parto, febre alta, cirurgia, perda de peso abrupta, estresse psicológico intenso. Este artigo revisa a fisiopatologia, os gatilhos específicos ao contexto de emagrecimento (incluindo a associação emergente com GLP-1), o curso temporal esperado, como diferenciar de alopecia androgenética, e o que a estética avançada pode — e não pode — oferecer.
2. Fisiopatologia: Do Ciclo Folicular ao Efluvio

Cada folículo capilar passa por um ciclo contínuo e assíncrono de três fases: anágena (crescimento ativo, que dura de 2 a 7 anos e é responsável por cerca de 85-90% dos fios do couro cabeludo em um dado momento), catágena (fase curta de transição/involução, cerca de 2-3 semanas) e telógena (repouso, aproximadamente 3 meses, ao final da qual o fio cai — teloptose — para dar lugar a um novo ciclo anágeno). Em condições normais, esse ciclo é assíncrono entre os folículos: enquanto uns estão em anágena, outros estão em telógena, o que garante que a queda diária (fisiologicamente normal, cerca de 50-100 fios/dia) seja imperceptível.[1][2]
O efluvio telógeno rompe essa assincronia. Um estresse metabólico, nutricional, hormonal ou febril suficientemente intenso pode empurrar prematuramente um número anormalmente alto de folículos — que estariam normalmente em anágena — para a fase telógena de forma sincronizada. Como a fase telógena dura cerca de 3 meses antes da queda efetiva do fio, o resultado clínico é uma queda difusa e visível que só se manifesta 2 a 4 meses depois do evento desencadeante, o que frequentemente confunde pacientes e profissionais sobre a causa real (a pessoa já não associa mais a queda ao evento, que ocorreu meses antes).[1][3]
No contexto específico de perda de peso rápida, os mecanismos propostos incluem: restrição calórica e proteica (o folículo capilar é um dos tecidos metabolicamente mais ativos do corpo e um dos primeiros a ser "sacrificado" fisiologicamente diante de um aporte energético insuficiente), deficiências de micronutrientes específicos (ferro, zinco, vitamina B12, ácido fólico) essenciais para a proliferação da matriz folicular, e o próprio estresse sistêmico associado a mudanças metabólicas e hormonais abruptas — incluindo, no caso da bariátrica, o próprio trauma cirúrgico e a anestesia como gatilhos adicionais.[2][4][6]

3. Gatilhos Específicos: Bariátrica, Dieta Restritiva e Perda Rápida de Massa
Evidência Forte — A queda de cabelo após cirurgia bariátrica é um dos gatilhos de efluvio telógeno mais bem documentados na literatura. Duas metanálises estimaram a incidência combinada de queda de cabelo após cirurgia bariátrica: 57% (IC 95%: 42-71%) em 18 estudos (n=2.538) na revisão de 2021[12], e 47% na metanálise atualizada de 2025 com 41 estudos (n=7.044), que também mostrou taxa maior após bypass em Y-de-Roux do que após sleeve (OR 1,91)[13]. A prevalência relatada diminui à medida que o seguimento se estende, consistente com o caráter autolimitado do quadro.
Dois padrões temporais e causais distintos aparecem na literatura sobre bariátrica: uma queda aguda, nos primeiros três meses, mais associada ao próprio estresse cirúrgico/anestésico e à restrição calórica abrupta do pós-operatório imediato; e uma queda de instalação mais tardia, a partir do sexto mês, mais ligada às deficiências nutricionais que se acumulam progressivamente — sobretudo ferro, zinco, proteína, vitamina B12 e ácido fólico — na medida em que a restrição de absorção (nos procedimentos disabsortivos) e a redução de ingestão se sustentam.[4][6][12]
Fora do contexto cirúrgico, dietas de restrição calórica muito agressiva — sobretudo as hipoproteicas, populares em protocolos de emagrecimento rápido — reproduzem o mesmo mecanismo fisiopatológico: o corpo, diante de aporte energético e proteico insuficiente, reduz investimento metabólico em tecidos não essenciais à sobrevivência imediata, e o folículo capilar está entre os primeiros afetados. Em uma casuística de 140 pacientes com efluvio telógeno atribuído a perda de peso, a perda média foi de 15,2% do peso corporal a uma velocidade média de 3,5 kg/mês[5] — não um limiar de risco, mas uma referência de magnitude típica nos casos que chegam ao consultório. O mesmo estudo observou que mulheres e pessoas mais velhas desenvolveram o quadro com perdas proporcionalmente menores.
| Gatilho | Mecanismo predominante | Janela típica |
|---|---|---|
| Cirurgia bariátrica (fase aguda) | Estresse cirúrgico/anestésico + restrição calórica abrupta | 0-3 meses pós-cirurgia |
| Cirurgia bariátrica (fase tardia) | Deficiência de ferro, zinco, proteína, B12, folato | A partir de ~6 meses |
| Dieta hipocalórica/hipoproteica restritiva | Aporte energético/proteico insuficiente | 2-4 meses após início |
| Agonistas de GLP-1 (associação emergente) | Provável via perda de peso rápida/déficit nutricional; mecanismo direto não estabelecido | Variável, reportado nos primeiros meses de uso em dose alta |
4. GLP-1 e Queda de Cabelo: O Que a Evidência Sustenta (e o Que Ainda Não)
Evidência Emergente/Observacional — Com a popularização de semaglutida (Ozempic/Wegovy) e tirzepatida (Mounjaro) para emagrecimento, relatos de queda de cabelo em usuários aumentaram de forma expressiva entre 2023 e 2025, e a literatura científica começou a acompanhar esse sinal. É essencial começar pela distinção mais importante desta seção: a evidência disponível é majoritariamente observacional e farmacovigilante — não são ensaios clínicos randomizados desenhados especificamente para testar causalidade entre GLP-1 e queda de cabelo.
Uma revisão sistemática de 2026 (Gupta et al.), com 24 estudos, encontrou as maiores taxas de relato com semaglutida e tirzepatida, e um padrão dose-dependente: as doses menores, típicas do tratamento do diabetes, raramente foram implicadas, enquanto os relatos se concentraram nas doses altas usadas para obesidade — semaglutida até 2,4 mg/semana e tirzepatida em 5–15 mg/semana, escalas distintas entre as moléculas. A tirzepatida — associada à maior magnitude de perda de peso — foi a mais frequentemente ligada especificamente a efluvio telógeno, e mulheres pareceram desproporcionalmente afetadas.[14] Esse padrão é consistente com a hipótese de que o gatilho seja a magnitude da perda de peso e do déficit nutricional associado, não uma ação farmacológica direta e universal do fármaco sobre o folículo.[7]
Uma scoping review publicada em agosto de 2025 (Rojas Lopez et al., Cureus) revisou nove estudos — ensaios clínicos, estudos de coorte e análises de farmacovigilância — e identificou mais de 1.000 casos espontâneos de alopecia associados a GLP-1 reportados ao FAERS (sistema de farmacovigilância dos EUA), envolvendo semaglutida, liraglutida, tirzepatida e dulaglutida. Um ponto metodológico relevante apontado pelos próprios autores: a maioria dos estudos não tinha confirmação dermatológica do subtipo de alopecia, e apenas um estudo descreveu o padrão clínico com precisão — identificando efluvio telógeno e alopecia androgenética como os subtipos mais frequentes, o que reforça que os dois mecanismos — gatilho agudo e predisposição de base — podem coexistir no mesmo paciente.[8]
Isso não significa que o achado deva ser minimizado: o volume de relatos é grande o suficiente para justificar orientação preventiva — atenção redobrada à ingestão proteica e à reposição de micronutrientes durante o uso de GLP-1 para emagrecimento, sobretudo em doses mais altas ou perdas de peso mais aceleradas — e acompanhamento clínico se a queda for perceptível.
5. Timeline: Quando Aparece e Quando Resolve
Entender a defasagem temporal do efluvio telógeno é fundamental tanto para o diagnóstico correto quanto para o manejo de expectativa do paciente[1][2][3]:
| Momento | O que ocorre |
|---|---|
| Mês 0 | Evento gatilho (perda de peso acelerada, cirurgia, início de restrição calórica severa ou de GLP-1 em dose alta) |
| Meses 0-3 | Folículos migram prematuramente para a fase telógena (fase silenciosa — ainda sem queda visível) |
| Meses 2-4 | Início da queda clinicamente perceptível — pico típico de relato pelo paciente |
| Meses 4-8 | Queda tende a atingir platô e começar a desacelerar, se o gatilho foi removido/estabilizado |
| Meses 6-12 | Resolução espontânea na maioria dos casos, com recuperação gradual de densidade |
| Além de 12 meses | Persistência sugere efluvio crônico, gatilho não resolvido, ou sobreposição com outra causa (androgenética, deficiência nutricional não corrigida, disfunção tireoidiana) — investigação adicional indicada |
Um ponto prático relevante: como a queda só aparece 2 a 4 meses depois do gatilho, é comum que o paciente já tenha "esquecido" ou desvalorizado o evento causal na hora da consulta — reconstituir essa linha do tempo em conjunto (quando a perda de peso foi mais intensa, quando houve a cirurgia, quando o GLP-1 foi iniciado ou teve a dose aumentada) é parte central da anamnese.
6. Diagnóstico Diferencial: Efluvio Telógeno vs. Alopecia Androgenética

Um erro clínico comum é tratar toda queda de cabelo pós-emagrecimento como se fosse um único fenômeno. Na prática, dois quadros distintos — e frequentemente sobrepostos — precisam ser diferenciados:
| Característica | Efluvio telógeno | Alopecia androgenética |
|---|---|---|
| Padrão espacial | Difuso, todo o couro cabeludo | Localizado — coroa/bitemporal (homens); linha central preservando borda frontal (mulheres) |
| Início | Agudo, 2-4 meses após gatilho identificável | Gradual, insidioso, sem gatilho agudo evidente |
| Curso | Autolimitado na maioria dos casos (6-12 meses) | Crônico, progressivo, sem gatilho, tende a piorar sem tratamento |
| Relação com genética | Não determinante (embora predisponha em quem já tem miniaturização de base) | Fortemente hereditária/hormonal (sensibilidade à DHT) |
| Efeito do emagrecimento | Causa direta do quadro | Pode ser acelerada e tornada mais visível pelo efluvio, mas não é causada por ele |
Esse último ponto merece ênfase: é bem documentado que um episódio de efluvio telógeno pode "revelar" ou acentuar uma alopecia androgenética que já estava em curso de forma subclínica — a queda aguda melhora dentro do prazo esperado, mas o afinamento de base (miniaturização progressiva dos fios em áreas geneticamente predispostas) permanece e não regride espontaneamente. Nesses casos, a queixa "meu cabelo caiu depois que emagreci e nunca mais voltou ao normal" pode, na verdade, refletir esse fenômeno combinado — e não apenas um efluvio prolongado.
A literatura registra que essa separação é frequentemente difícil na prática, sobretudo em mulheres, e destaca dois elementos auxiliares: o tricograma, em que uma proporção de fios em telógena acima de 25% favorece o diagnóstico de efluvio; e a tricodinia (dor, ardência ou sensibilidade do couro cabeludo) — sintoma frequente no efluvio telógeno, mas também bem descrito na alopecia androgenética e que, portanto, não deve ser usado isoladamente como elemento de diferenciação entre os dois quadros.[3] A tricoscopia (dermatoscopia capilar) e, quando indicado, o teste de tração e a avaliação da razão de fios em anágena/telógena por profissional habilitado são ferramentas úteis para diferenciar os dois quadros com mais precisão do que a história clínica isolada.[2][3]
7. O Que a Estética Avançada Pode Oferecer
Evidência Preliminar/Moderada — É importante começar com uma calibração honesta: a maior parte da evidência de alta qualidade para PRP e microagulhamento em queda de cabelo foi gerada em estudos de alopecia androgenética, onde revisões sistemáticas relatam melhora na maioria dos estudos, embora com resultados heterogêneos entre os protocolos avaliados[11]. Para efluvio telógeno especificamente, não há revisão sistemática dedicada nem ensaio randomizado de porte: a revisão sistemática de PRP em alopecia[11] incluiu oito estudos, todos em alopecia androgenética ou areata. A extrapolação para efluvio telógeno é, portanto, racional biológico — não evidência direta.
Dito isso, existe racional biológico plausível para o uso coadjuvante dessas técnicas mesmo em efluvio telógeno: o PRP libera fatores de crescimento (PDGF, VEGF, EGF, entre outros) que podem favorecer a transição de folículos de volta à fase anágena e sustentar a microcirculação do couro cabeludo; o microagulhamento cria microcanais que podem potencializar a absorção de ativos tópicos e estimular sinalização de reparo local. Esse racional, porém, não foi testado em ensaio controlado específico para efluvio telógeno — e, como o quadro é autolimitado, qualquer melhora observada após uma intervenção coincide com a evolução natural esperada.
Minoxidil tópico tem uma base de evidência um pouco mais estruturada especificamente para efluvio telógeno: em ensaio aberto de braço único com 12 pacientes japoneses (5%, duas vezes ao dia, 24 semanas), a contagem de fios terminais aumentou 12,6 fios/cm² na 4ª semana e 11,2 fios/cm² na 12ª.[9] Os próprios autores registram que o caráter autolimitado do efluvio e o tamanho amostral comprometem a validade do achado, e que o estudo teve participação da fabricante do produto. Trata-se de uso off-label — a indicação, a prescrição e o acompanhamento são de competência médica, e a clínica de estética não prescreve nem indica o fármaco.
Para o efluvio telógeno crônico especificamente, o dado disponível mais direto vem de um estudo retrospectivo com 36 mulheres tratadas com minoxidil oral em baixa dose, com melhora relatada na densidade capilar[10] — desenho retrospectivo, sem grupo controle, e igualmente de prescrição médica.
8. O Papel Central da Nutrição e da Suplementação Orientada
Em nenhum outro contexto de queda de cabelo a correção nutricional é tão diretamente causal quanto no efluvio pós-emagrecimento — especialmente pós-bariátrica. Os nutrientes mais consistentemente associados ao quadro na literatura[6][12] são:
- Ferro: a deficiência de ferro (com ou sem anemia manifesta) é uma das causas nutricionais mais bem documentadas de queda de cabelo difusa, e a ferritina sérica é o marcador mais sensível — na metanálise pós-bariátrica, a ferritina se associou à queda, enquanto o ferro sérico isolado não[12]
- Zinco: cofator essencial para proliferação celular na matriz folicular, com associação documentada à queda pós-bariátrica[12]; sua absorção pode ficar comprometida especialmente após bypass gástrico
- Proteína: o cabelo é composto majoritariamente de queratina — aporte proteico insuficiente (comum em dietas de emagrecimento muito restritivas e no pós-bariátrica imediato) reduz diretamente o substrato disponível para síntese capilar
- Vitamina B12 e ácido fólico: deficiências comuns após procedimentos disabsortivos; na metanálise disponível, o folato se associou à queda, mas a B12 não[12] — a reposição de B12 continua indicada pelo protocolo pós-bariátrico por outras razões, não como tratamento capilar
- Biotina: suplementada com frequência, embora a evidência de benefício em pessoas sem deficiência documentada seja fraca — sua utilidade real está em corrigir uma deficiência confirmada, não em suplementação empírica indiscriminada
A recomendação com melhor respaldo é a suplementação orientada por exames laboratoriais (ferritina, zinco sérico, proteínas totais/albumina, B12, folato, e, no contexto pós-bariátrica, o painel nutricional completo já indicado pelo protocolo cirúrgico padrão) — não a suplementação empírica genérica "para cabelo", que pode mascarar deficiências reais sem corrigi-las adequadamente ou gerar excesso desnecessário de determinados micronutrientes.
9. Quando Encaminhar para Avaliação Nutricional ou Endocrinológica
A avaliação estética tem um papel de suporte, mas não substitui investigação médica quando os sinais de alerta abaixo estão presentes:
- Queda que não mostra sinal de melhora após 6 meses de gatilho estabilizado, ou que persiste além de 12 meses, deve ser reavaliada
- Perda de peso muito rápida ou muito intensa — cirurgia bariátrica, dietas extremamente restritivas, doses altas de GLP-1 com perda acelerada
- Sintomas sistêmicos associados: fadiga intensa, unhas quebradiças, palidez, queixas de pele/mucosa sugestivas de deficiência nutricional
- Ausência de exames laboratoriais básicos recentes (ferritina, zinco, proteínas totais, TSH, B12/folato, vitamina D)
- Suspeita de sobreposição com alopecia androgenética não tratada, identificada na avaliação tricológica
- Pós-bariátrica sem acompanhamento nutricional regular — o protocolo de suplementação pós-cirúrgico deve ser mantido e reavaliado periodicamente, independentemente da queixa capilar
Nesses cenários, o encaminhamento a nutricionista e/ou endocrinologista — em paralelo, não em substituição, ao acompanhamento estético — é a conduta responsável, e deve ser comunicado ao paciente como parte do cuidado integral, não como recusa de atendimento.
10. Perguntas Frequentes
Ozempic, Wegovy ou Mounjaro causam queda de cabelo diretamente?
A relação ainda não é de causalidade estabelecida — é uma associação emergente, mais forte em doses altas e perdas de peso mais rápidas, compatível com o mecanismo já conhecido do efluvio telógeno por perda de peso/déficit nutricional, não necessariamente uma ação tóxica direta do fármaco sobre o folículo.
Quanto tempo depois de emagrecer a queda de cabelo aparece e quando ela para?
Tipicamente aparece 2 a 4 meses após o gatilho e resolve espontaneamente em 6 a 12 meses na maioria dos casos, assim que o peso e a nutrição se estabilizam.
Como saber se é efluvio telógeno ou alopecia androgenética?
Efluvio é difuso e ligado a um gatilho recente; androgenética segue um padrão espacial característico (coroa/bitemporal ou linha central) e é progressiva, sem gatilho agudo. Avaliação tricológica ajuda a diferenciar com precisão, inclusive nos casos em que os dois coexistem.
PRP e microagulhamento funcionam para queda de cabelo por efluvio telógeno?
Para efluvio telógeno especificamente não há revisão sistemática dedicada nem ensaio randomizado de porte — a revisão sistemática de PRP em alopecia incluiu oito estudos, todos em alopecia androgenética ou areata. Podem ser usados como suporte coadjuvante, não como tratamento indispensável, já que a maioria dos casos se resolve sozinha.
Quando a queda de cabelo pós-emagrecimento deve ser avaliada por nutricionista ou endocrinologista?
Quando a queda não mostra sinal de melhora após 6 meses de gatilho estabilizado ou persiste além de 12 meses, quando há sinais de deficiência nutricional associados (fadiga intensa, unhas quebradiças, palidez, alterações de pele/mucosa), quando a perda de peso foi muito intensa/rápida (bariátrica, dietas muito restritivas, doses altas de GLP-1), ou quando não há exames laboratoriais básicos recentes (ferritina, zinco, proteínas totais, TSH, B12/folato, vitamina D) — especialmente no contexto pós-bariátrica.
11. Conclusão: Autolimitado na Maioria, Mas Merece Investigação Quando Persiste
A queda de cabelo após emagrecimento rápido, cirurgia bariátrica ou uso de agonistas de GLP-1 é, na esmagadora maioria dos casos, um efluvio telógeno — quadro difuso, autolimitado, com mecanismo fisiopatológico bem estabelecido (migração sincronizada de folículos para a fase telógena diante de estresse metabólico/nutricional agudo) e curso previsível: início 2-4 meses após o gatilho, resolução em 6-12 meses. A associação com os agonistas de GLP-1 é um sinal emergente e observacional relevante — mais forte em doses altas e perdas de peso mais aceleradas —, mas ainda não é causalidade farmacológica estabelecida, e deve ser comunicada com essa nuance.
A estética avançada tem um papel real, porém coadjuvante: PRP, microagulhamento e minoxidil tópico têm racional biológico e alguma evidência de suporte — mais robusta para alopecia androgenética do que para efluvio telógeno isoladamente —, mas não substituem o pilar central do manejo, que é nutricional (correção de ferro, zinco, proteína, B12/folato conforme exames) e temporal (a maioria dos casos simplesmente precisa de tempo). Reconhecer quando encaminhar para avaliação nutricional ou endocrinológica adicional — sobretudo quando a queda não mostra sinal de melhora após 6 meses de gatilho estabilizado, ou persiste além de 12 meses — é parte essencial do cuidado responsável.
"A queda de cabelo pós-emagrecimento quase sempre tem prazo de validade — mas comunicar isso com precisão, sem subestimar o desconforto do paciente nem superestimar o que qualquer tratamento estético pode entregar sozinho, é o que diferencia orientação responsável de promessa vazia."
Emagreceu rápido, fez bariátrica ou está usando GLP-1 e notou mais cabelo caindo? Cada caso tem um gatilho e uma janela de recuperação diferentes. Agende sua avaliação para entender o quadro e as opções de suporte baseadas em evidência.
Referências Científicas
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