
Índice do Artigo
- Introdução
- Mecanismo de ação no masseter
- Evidência: dor e bruxismo noturno
- Evidência: dor miofascial de DTM
- Comparação com placa oclusal
- Dose: masseter vs. uso estético
- Efeito estético colateral
- Segurança e contraindicações
- Quem é candidato
- Protocolo e reaplicação
- Off-label: o que isso significa
- Perguntas frequentes
- Conclusão
Toxina botulínica funciona para bruxismo e dor miofascial?
Sim, há evidência moderada a baixa, conforme o desfecho e o horizonte de seguimento — múltiplos ensaios clínicos randomizados e revisões sistemáticas mostram redução estatisticamente significativa da dor miofascial mastigatória com toxina botulínica injetada no masseter (e, por vezes, temporal), com efeito mais consistente no primeiro mês e tendendo a se equalizar com outras terapias entre 3 e 6 meses.[6] Uma revisão sistemática de 2024 com 20 RCTs confirmou superioridade sobre placebo na redução de dor, com eficácia semelhante à de tratamentos convencionais[5] — a síntese de maior nível disponível (umbrella review de 18 revisões sistemáticas, 2024) classifica essa evidência como moderada e recomenda a toxina como última alternativa terapêutica, não como primeira linha.[7]
Dois pontos precisam ficar claros desde já: (1) esta é, na esmagadora maioria dos protocolos, uma indicação off-label — sem aprovação regulatória específica para bruxismo/DTM no Brasil ou nos EUA — e (2) não substitui a avaliação odontológica nem a placa oclusal noturna, que seguem sendo a base diagnóstica e terapêutica do bruxismo. A toxina é uma ferramenta complementar para controle sintomático da dor e da hiperatividade muscular, não uma alternativa isolada de primeira linha.
- Mecanismo: a toxina inibe a liberação pré-sináptica de acetilcolina na junção neuromuscular, reduzindo a atividade EMG do masseter e levando à hipotrofia gradual da fibra muscular hiperativa
- Meta-análise de 11 estudos (365 pacientes): redução média de 4,06 pontos na escala de dor por bruxismo, com efeito mais robusto nos primeiros 6 meses[3]
- Revisão sistemática com meta-análise de 2024 (20 RCTs na análise qualitativa, 6 na meta-análise): toxina mais eficaz que placebo na redução da dor, com eficácia semelhante à dos métodos convencionais e sem melhora da abertura bucal máxima[5]
- Meta-análise de 2019/2020 (12 RCTs): toxina discretamente superior ao placebo em 1 mês (−1,74 pontos; 3 RCTs, 60 participantes), sem diferença em 3 e 6 meses — com qualidade de evidência classificada como baixa pelos autores[6]
- RCT de equivalência (2024): placa oclusal e toxina reduzem dor de forma equivalente aos 3-6 meses, mas a placa tem vantagem funcional (abertura bucal, mobilidade mandibular)[8]
- Umbrella review de 18 revisões sistemáticas (2024): efeito confirmado sobre placebo com evidência moderada, porém sem superioridade sobre tratamentos convencionais e recomendação de uso como última alternativa pelo perfil de eventos adversos musculares e ósseos[7]
- Dose no masseter é substancialmente maior que a usada em glabela/têmporas — reflexo da massa muscular mastigatória
- Uso é majoritariamente off-label — não há aprovação regulatória específica para bruxismo/DTM
1. Introdução: Uma Terapia Complementar, Não Substitutiva
O bruxismo — atividade repetitiva da musculatura mastigatória, com apertamento ou ranger dos dentes — ocorre em duas formas distintas: o bruxismo de vigília, mais prevalente em adultos, e o bruxismo do sono. A evidência revisada neste artigo concentra-se no bruxismo do sono e na dor miofascial associada — os ensaios controlados disponíveis com toxina botulínica recrutaram predominantemente pacientes com bruxismo do sono, não de vigília.[4]
O bruxismo e a disfunção temporomandibular (DTM) de origem muscular estão entre as queixas orofaciais mais comuns na prática clínica, associados a dor miofascial mastigatória, cefaleia tensional, desgaste dentário e, em casos crônicos, hipertrofia visível do músculo masseter. O manejo padrão-ouro permanece odontológico: diagnóstico clínico (por vezes com polissonografia), controle de fatores comportamentais/estresse e, principalmente, a placa oclusal noturna (splint), que protege a dentição do desgaste e redistribui as forças de apertamento — sua eficácia na redução da própria atividade de bruxismo é objeto de debate.
A toxina botulínica tipo A entrou nesse cenário como uma ferramenta farmacológica complementar: injetada diretamente no masseter (e por vezes no temporal), ela reduz a capacidade contrátil do músculo hiperativo, o que se traduz clinicamente em menos dor e, secundariamente, menor força de apertamento. Este artigo revisa o mecanismo, a evidência clínica específica para bruxismo e dor miofascial de DTM — um ângulo distinto do uso estético em rugas de expressão e da hiperidrose, já cobertos em artigos irmãos deste periódico — e é enfático em um ponto: esta indicação é majoritariamente off-label e a toxina não substitui a avaliação odontológica nem a placa oclusal.
2. Mecanismo de Ação no Masseter e Temporal

O mecanismo molecular da toxina botulínica tipo A é o mesmo em qualquer músculo esquelético: a toxina cliva a proteína SNAP-25, componente do complexo SNARE necessário para a fusão das vesículas sinápticas contendo acetilcolina com a membrana pré-sináptica do neurônio motor. Sem liberação de acetilcolina na junção neuromuscular, a fibra muscular perde a capacidade de receber o sinal de contração — o resultado é uma quimiodenervação parcial e reversível.
No contexto do masseter e do temporal, essa quimiodenervação tem três efeitos clínicos relevantes e sequenciais:
- Redução da atividade eletromiográfica (EMG): estudos que monitoraram o músculo por eletromiografia de superfície documentaram queda mensurável da atividade contrátil noturna após a aplicação, correlacionada com a melhora da dor referida
- Redução da força de apertamento: menos unidades motoras funcionais disponíveis significa menor pico de força gerado durante os episódios de bruxismo, o que reduz a sobrecarga mecânica sobre a articulação temporomandibular e a musculatura adjacente
- Hipotrofia muscular gradual: com a redução sustentada da atividade contrátil ao longo de semanas, o músculo cronicamente hiperativo tende a reduzir de volume — efeito que é a base do uso estético para afinamento do contorno mandibular, discutido na seção 7
Anatomia aplicada e zona segura. O masseter tem duas porções: a superficial, que se origina no arco zigomático e se insere no ângulo e na borda inferior da mandíbula, e a profunda, mais curta e vertical. A injeção terapêutica visa o ventre muscular profundo da porção superficial — aplicações rasas atingem o tecido subcutâneo e o SMAS sem efeito muscular, e aplicações muito anteriores aproximam-se do músculo zigomático maior e do risco de assimetria de sorriso. A zona segura descrita na literatura é delimitada abaixo de uma linha que vai do trago à comissura labial, acima da borda inferior da mandíbula e posterior à borda anterior palpável do masseter (identificada pedindo ao paciente que cerre os dentes). Estruturas a respeitar nesse território: a glândula parótida e o ducto de Stensen, que cruzam a face superficial do masseter — a difusão para a parótida explica a xerostomia ocasionalmente relatada; a artéria facial, que cruza a borda inferior da mandíbula na margem anterior do músculo; e o ramo marginal da mandíbula do nervo facial, que corre próximo a essa mesma borda inferior.[10]

3. Evidência Clínica: Dor e Bruxismo Noturno
Evidência Moderada — Um ensaio clínico randomizado, controlado por placebo, avaliou 10 MU de toxina botulínica injetada no masseter de 22 pacientes com bruxismo noturno (11 no grupo tratamento, 11 no placebo), com dor mensurada por escala visual analógica e atividade muscular por eletromiografia (MU = mouse units, unidade reportada pelo estudo, sem equivalência direta declarada com as unidades comerciais de onabotulíntoxina discutidas na seção 6 — não deve ser lida como 10 U comerciais). Dentro do grupo toxina, a redução da dor em relação ao basal foi estatisticamente significativa nas avaliações de 2 semanas, 1 mês e 3 meses, com retorno gradual dos sintomas a partir daí, sugerindo aproximadamente 3 meses de alívio sustentado antes da necessidade de reforço.[1]
Um estudo duplo-cego, randomizado, controlado por placebo e cruzado (cross-over) testou três esquemas de dose crescente — masseter bilateral isolado (60U), masseter + temporal (90U) e masseter + temporal + pterigóideo medial (120U) — para determinar o regime ideal em pacientes com bruxismo do sono confirmado.[2]
O benefício objetivo apareceu em 4 semanas (redução média de 1,66 evento de bruxismo por hora de sono; p=0,003), não se sustentou em 12 semanas, e não houve diferença em nenhum desfecho subjetivo (dor, cefaleia, percepção de bruxismo) em nenhum momento. As doses são totais por sessão — 60U bilaterais correspondem a cerca de 30U por masseter. Cinco participantes tiveram efeitos adversos leves e transitórios.[2]
Esse contraste entre desfechos objetivos e subjetivos já havia sido apontado por uma revisão sistemática anterior, que observou que as avaliações objetivas não mostraram redução do número de episódios de bruxismo, apenas da intensidade das contrações musculares.[4]
A metanálise mais robusta disponível sobre este desfecho específico reuniu 11 estudos controlados com 365 pacientes e calculou uma redução média de 4,06 pontos na escala de dor relacionada ao bruxismo após a injeção de toxina, com alívio significativo concentrado nos primeiros 6 meses de acompanhamento — e superioridade da toxina sobre placa oclusal isolada ou injeção salina nesse recorte de estudos.[3] Esse resultado favorável à toxina frente à placa oclusal vem de comparação indireta dentro de uma rede bayesiana, e não foi confirmado pelo único ensaio randomizado de comparação direta entre as duas intervenções (2024), que encontrou equivalência na dor e vantagem funcional para a placa (seção 5). Em hierarquia de evidência, a comparação direta prevalece.
4. Evidência: Dor Miofascial de Disfunção Temporomandibular (DTM)
Evidência Moderada — Além do bruxismo propriamente dito, uma parcela relevante da literatura avalia a toxina botulínica para dor miofascial de DTM de origem muscular (miogênica), quadro clínico sobreposto mas nem sempre idêntico ao bruxismo isolado.
Uma revisão sistemática com meta-análise de 2024 (Zhu et al.), que recuperou 519 estudos e incluiu 20 ensaios clínicos randomizados na análise qualitativa e 6 na meta-análise, concluiu que a toxina botulínica tipo A é mais eficaz que placebo na redução da dor miofascial de DTM, com eficácia semelhante à dos métodos convencionais e sem melhora da abertura bucal máxima. Os autores recomendam dose baixa e reservam a indicação a pacientes sem alívio completo com tratamento conservador.[5]
Uma revisão sistemática com meta-análise de 2019/2020 (12 RCTs) chegou a conclusão convergente: a toxina é discretamente superior ao placebo na redução de dor no curto prazo (diferença média de aproximadamente −1,74 pontos em escala de 0 a 10 no primeiro mês, a partir de apenas 3 RCTs e 60 participantes), sem diferença em 3 e 6 meses — e os próprios autores classificam a qualidade da evidência como baixa, insuficiente para sustentar recomendação firme.[6]
Um umbrella review (revisão de revisões sistemáticas) publicado em 2024 na revista Drugs, sintetizando 18 revisões sistemáticas sobre toxina botulínica para DTM miogênica, confirma que a toxina é mais eficaz que placebo para reduzir dor, mas não demonstra superioridade sobre tratamentos convencionais estabelecidos e não melhora a amplitude de movimento mandibular. Por conta do perfil de eventos adversos musculares, os autores recomendam que a toxina seja considerada última alternativa terapêutica, não primeira linha, no manejo da DTM miogênica — classificando o suporte como evidência moderada.[7]
5. Comparação com Placa Oclusal: Complementar, Não Substituta
A placa oclusal (splint noturno) segue sendo a intervenção odontológica padrão para bruxismo — dispositivo removível que protege os dentes do desgaste por atrito e redistribui as forças de apertamento, prescrito após avaliação odontológica que inclui exame clínico da oclusão e, quando indicado, investigação do sono.
Um ensaio clínico randomizado de equivalência, publicado em 2024, comparou diretamente placa oclusal e toxina botulínica em 60 pacientes randomizados (59 analisados) com bruxismo provável e dor muscular mandibular, com avaliação em 3 e 6 meses:[8]
| Desfecho | Placa oclusal | Toxina botulínica |
|---|---|---|
| Redução de dor (3 e 6 meses) | Significativa | Significativa (equivalente) |
| Qualidade de vida relacionada à saúde oral | Melhora | Melhora |
| Parâmetros funcionais (abertura bucal, mobilidade) | Vantagem | Sem vantagem |
| Desconforto à mastigação nas primeiras semanas | Não relatado como desfecho | 79,3% do braço toxina (23 de 29) relatou desconforto leve |
Outro ensaio randomizado, conduzido em pacientes com sobredentaduras implantossuportadas e bruxismo do sono, comparou remoção noturna da prótese, placa oclusal convencional e toxina botulínica — com o grupo toxina apresentando melhora estatisticamente significativa em satisfação e qualidade do sono frente aos outros dois braços, e menor incidência de complicações mecânicas do que o grupo controle.[9]
6. Dose: Masseter vs. Uso Estético em Glabela/Têmporas
Um erro conceitual comum é assumir que a dose usada em áreas de expressão facial (glabela, têmporas, "pés de galinha") se aplica ao masseter. Não se aplica. O masseter é um músculo mastigatório primário, com volume e força de contração muito superiores aos pequenos músculos miméticos da face — os protocolos de estudo para masseter usam tipicamente dezenas de unidades por lado (variando por volume muscular, objetivo terapêutico vs. estético e formulação de toxina utilizada), uma ordem de grandeza acima das poucas unidades por ponto usadas em glabela.
Fatores que influenciam a dose individualizada:
- Volume do masseter à palpação e, quando disponível, avaliação por imagem/ultrassom — músculos mais hipertróficos toleram e frequentemente requerem doses maiores
- Objetivo do tratamento — doses para controle predominante de dor tendem a ser mais conservadoras que doses voltadas ao afinamento estético do contorno mandibular
- Formulação e unidades — diferentes marcas de toxina botulínica não são intercambiáveis unidade a unidade; a equivalência de dose depende da formulação específica utilizada
- Resposta a sessões anteriores — histórico individual de eficácia e eventos adversos orienta ajustes na sessão seguinte
Por essa razão, protocolos de dose devem ser sempre definidos por avaliação individual e não extrapolados de tabelas genéricas de uso estético facial.
7. Efeito Estético Colateral: Afinamento do Contorno Mandibular
Embora o foco deste artigo seja terapêutico (dor e bruxismo), é cientificamente correto — e clinicamente relevante para a comunicação com o paciente — mencionar que a hipotrofia progressiva do masseter tratado produz, como efeito secundário observável, um afinamento do terço inferior da face em pacientes com hipertrofia muscular associada ao bruxismo crônico.
Uma revisão de 2022 sobre eficácia da toxina em hipertrofia de masseter para contorno da face inferior descreve que o efeito máximo após sessão única costuma ser visto por volta de 3 meses, com duração de 6 a 12 meses[10] — a mesma indicação é, na prática dermatológica, também conduzida com objetivo primariamente estético em pacientes sem queixa de dor. A mesma revisão registra que sessões múltiplas costumam ser necessárias para manter o efeito a longo prazo, e que o número ótimo de unidades não pôde ser estabelecido pela ampla variabilidade entre estudos, etnias e critérios de mensuração da hipertrofia.[10]
Um estudo retrospectivo de 2025 avaliando 80 pacientes tratados com toxina no masseter sob uma perspectiva dermatológica encontrou que os objetivos de tratamento se sobrepõem na prática: 22,5% buscavam exclusivamente contorno facial, 35% buscavam exclusivamente alívio do bruxismo, e 42,5% buscavam ambos simultaneamente[11] — reforçando que, na prática clínica real, a dimensão estética e a terapêutica frequentemente coexistem na mesma indicação.
8. Segurança e Contraindicações

Na maior série dermatológica publicada (80 pacientes), 18,8% apresentaram algum evento adverso relacionado ao tratamento (15 pacientes, 16 eventos).[11] A toxina botulínica no masseter é geralmente bem tolerada em aplicações isoladas, mas apresenta um conjunto de eventos adversos específicos deste sítio — e um perfil de risco que, na síntese de maior nível disponível, é o principal argumento contra seu uso como primeira linha:
- Fraqueza mastigatória e desconforto ao mastigar: efeito esperado e dose-dependente — em um ensaio comparativo, 79,3% dos participantes do braço toxina (23 de 29) relataram desconforto leve à mastigação nas primeiras semanas[8]; dificuldade com alimentos mais duros/fibrosos é comum no início do efeito
- Assimetria de sorriso: descrita em cerca de 2,5% dos casos em uma série de 80 pacientes[11], ocorre quando há difusão da toxina para o músculo zigomático maior adjacente — risco reduzido mantendo os pontos de aplicação bem dentro dos limites palpáveis do masseter e afastados da sua borda anterior, com injeção profunda no ventre muscular[10]
- Perda de massa muscular e repercussão óssea com uso repetido prolongado: a redução volumétrica do masseter é o efeito buscado no uso estético, mas com aplicações repetidas ao longo de anos há preocupação documentada com atrofia muscular sustentada e efeitos adversos sobre o tecido ósseo do ângulo mandibular. O umbrella review de 2024 identificou risco aumentado de eventos adversos musculares e ósseos em comparação com outros tratamentos — e é justamente esse perfil que fundamenta a recomendação de reservar a toxina como última alternativa na DTM miogênica.[7]
- Abaulamento paradoxal: em alguns pacientes, a parte não tratada ou hipertrofia compensatória de porções adjacentes do masseter pode gerar contorno irregular
- Disfagia: evento raro, mas documentado em relatos de caso — mais provável com dose excessiva ou difusão para musculatura suprahioide/faríngea adjacente
- Xerostomia e parestesia transitória no local da aplicação: descritas ocasionalmente e geralmente transitórias — a xerostomia é atribuída à difusão para a glândula parótida, que recobre a face superficial do masseter, e a parestesia ao trauma da agulha
9. Quem é Candidato ao Tratamento
Com base no desenho dos estudos revisados e nas recomendações de uso responsável desta indicação off-label, o perfil de candidato mais respaldado é:
- Paciente com bruxismo confirmado (idealmente por avaliação odontológica prévia, incluindo exame clínico da oclusão e, quando indicado, investigação do sono) e dor miofascial mastigatória associada
- Paciente que já utiliza ou é orientado a utilizar placa oclusal noturna, buscando a toxina como complemento para controle sintomático adicional — não como substituto
- Ausência de contraindicações neuromusculares, gestação/amamentação ou alergia conhecida à toxina
- Expectativa realista sobre magnitude do alívio (moderado, concentrado nos primeiros meses) e sobre a necessidade de reforço periódico
- Ciência prévia e explícita de que se trata de uso off-label, com discussão de riscos específicos (fraqueza mastigatória, possível assimetria de sorriso)
A avaliação individual — incluindo, sempre que possível, articulação com o cirurgião-dentista responsável pelo diagnóstico do bruxismo — é indispensável antes de qualquer decisão terapêutica.
10. Protocolo e Reaplicação
Não existe um protocolo único e padronizado universalmente — os desenhos de estudo variam em dose, número de pontos e músculos incluídos (masseter isolado vs. masseter + temporal vs. adição de pterigóideo medial). Um padrão geral observável na literatura:
| Parâmetro | Observado na literatura |
|---|---|
| Músculos tratados | Masseter isolado, ou masseter + temporal (protocolos mais amplos incluem pterigóideo medial) |
| Início de ação | Dias a ~2 semanas, efeito pleno em 2-4 semanas |
| Pico de alívio de dor | Mais consistente no 1º mês pós-aplicação |
| Duração do alívio sintomático | Tende a reduzir a partir de ~3 meses; equaliza com outras terapias em 3-6 meses |
| Intervalo típico de reaplicação | ~3 a 6 meses, conforme resposta individual |
A resposta clínica deve ser reavaliada a cada sessão — inclusive para ajuste de dose e de pontos de aplicação — e a manutenção da placa oclusal e do acompanhamento odontológico não deve ser interrompida apenas porque a dor melhorou com a toxina.
11. Off-Label: O Que Isso Significa na Prática
Isso tem implicações práticas concretas: (1) a decisão terapêutica deve ser tomada com consentimento informado explícito sobre a natureza off-label; (2) o próprio umbrella review de 2024 recomenda que a toxina seja considerada última alternativa — depois de esgotadas ou associadas a abordagens convencionais como a placa oclusal; (3) a robustez estatística dos desfechos de longo prazo (além de 6 meses) ainda é limitada, com heterogeneidade relevante entre os desenhos de estudo publicados.
12. Perguntas Frequentes
Toxina botulínica para bruxismo é aprovada pela Anvisa ou pelo FDA?
Não. A toxina botulínica tipo A tem aprovação regulatória para indicações específicas (blefaroespasmo, distonia cervical, hiperidrose axilar, enxaqueca crônica, espasticidade e um conjunto de indicações estéticas faciais aprovadas), mas o uso no masseter/temporal para bruxismo e dor miofascial de DTM é considerado off-label na grande maioria dos países, incluindo Brasil e EUA. Isso não significa ausência de evidência — existem múltiplos ensaios clínicos randomizados — mas significa que a indicação não passou pelo processo regulatório completo específico para essa finalidade, e deve ser comunicada como tal na avaliação.
A toxina botulínica substitui a placa oclusal noturna para bruxismo?
Não deve ser vista como substituta. Um ensaio randomizado de 2024 comparando placa oclusal e toxina botulínica para dor miofascial em bruxismo provável mostrou que ambas reduzem a dor de forma equivalente aos 3 e 6 meses, mas a placa oclusal apresentou vantagem em parâmetros funcionais (abertura bucal, mobilidade mandibular).[8] A toxina botulínica é complementar — trata o sintoma muscular e a dor, mas não substitui a avaliação odontológica que diagnostica o bruxismo, investiga fatores oclusais/articulares e prescreve a placa quando indicada.
Quanto tempo dura o efeito da toxina botulínica no masseter para bruxismo?
Nos estudos, o alívio da dor relacionada ao bruxismo é mais consistente nos primeiros 3 a 6 meses após a aplicação, com tendência de retorno gradual dos sintomas depois desse período — um dos ensaios documentou retorno da dor após aproximadamente 3 meses.[1] Isso é mais curto que a duração típica do efeito estético em glabela/têmporas e reflete a dose e o contexto funcional diferentes do masseter. A reaplicação, quando indicada, costuma ser espaçada em 3 a 6 meses, conforme resposta individual.
Toxina botulínica no masseter pode causar dificuldade para mastigar?
Sim, é um efeito esperado e dose-dependente, não uma complicação rara: em um ensaio comparativo, 79,3% dos participantes do braço toxina (23 de 29) relataram desconforto leve à mastigação nas primeiras semanas.[8] Em doses excessivas ou aplicação imprecisa, pode ocorrer fraqueza mastigatória mais pronunciada, dificuldade com alimentos duros, e — se a difusão atingir o músculo zigomático adjacente — assimetria de sorriso. Disfagia é um evento raro, mas descrito na literatura de segurança. Esses riscos reforçam a necessidade de avaliação individualizada e técnica cuidadosa.
A dose de toxina botulínica no masseter é igual à usada na glabela?
Não. O masseter é um músculo mastigatório robusto, com massa e força muito maiores que os músculos de expressão facial tratados na glabela ou têmporas. Os protocolos de estudo para masseter tipicamente usam dezenas de unidades por lado (variando conforme volume muscular e objetivo terapêutico vs. estético), valores bem superiores às poucas unidades usadas por ponto na glabela.[2] A dose exata depende de avaliação individual — volume do masseter, intensidade do bruxismo, objetivo (dor vs. contorno) — e deve ser definida caso a caso, nunca extrapolada de protocolos faciais padrão.
13. Conclusão: Uma Ferramenta Complementar, Com Limites Claros
A toxina botulínica no masseter e temporal tem, hoje, evidência clínica real — múltiplos RCTs, meta-análises e um umbrella review recente — para redução da dor miofascial associada ao bruxismo e à DTM muscular, com mecanismo bem descrito (bloqueio da liberação de acetilcolina, redução da atividade EMG, hipotrofia gradual do músculo). O efeito é mais robusto no primeiro mês e tende a se equalizar com terapias convencionais nos meses seguintes, o que qualifica — sem desqualificar — sua utilidade clínica.
Dois limites precisam permanecer no centro de qualquer decisão terapêutica: trata-se de uso majoritariamente off-label, e a evidência disponível não sustenta a toxina como substituta da avaliação odontológica ou da placa oclusal — apenas como complemento, mais bem indicado quando a dor persiste apesar do manejo convencional correto.
"A toxina botulínica não substitui a placa oclusal nem a avaliação odontológica do bruxismo — é uma ferramenta farmacológica complementar, com evidência real mas modesta em magnitude, que deve ser oferecida com transparência sobre seu caráter off-label e suas limitações de durabilidade."
Dor no masseter, apertamento noturno, hipertrofia mandibular — cada quadro tem um mecanismo e uma abordagem diferentes, sempre em complemento à avaliação odontológica. Agende sua avaliação para entender as opções baseadas em evidência.
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