- 25 estudos analisados, totalizando dados de mais de 8.000 pacientes (2009–2025)
- AH glúteo: maior estudo com 91 pacientes, follow-up de 4,5 anos, zero eventos adversos graves; 55% classificados como "muito melhorado"
- PLLA: consenso internacional de 19 especialistas + estudo duplo-cego split-body demonstrando 40% de redução em depressões de celulite
- CaHA hiperdiluída: 54% de redução de depressões visíveis de celulite e 91,6% de satisfação em estudo prospectivo (NCT05885035)
- PMMA: maior base de dados (4.725 procedimentos, 2,1% de complicação), mas irreversível e sob debate regulatório
- Nenhum RCT comparou diretamente as quatro substâncias — nível de evidência predominante: IV
- O resultado depende mais do profissional e do protocolo do que da substância escolhida
01. Introdução e contexto
A busca por procedimentos estéticos na região glútea cresceu exponencialmente na última década. Termos como "preenchimento de bumbum", "lifting glúteo sem cirurgia", "bioestimulador no glúteo" e "harmonização de bumbum" dominam as pesquisas de pacientes brasileiros, enquanto na literatura internacional o campo é referenciado como non-surgical buttock augmentation, minimally invasive gluteal enhancement ou gluteal volume correction.
A demanda é impulsionada por pacientes que desejam melhorias no volume, projeção, contorno, firmeza e textura da região glútea sem os riscos, custo e tempo de recuperação associados a procedimentos cirúrgicos como implantes de silicone ou lipoenxertia (o chamado Brazilian Butt Lift ou BBL). A evolução dos preenchimentos dérmicos corporais, bioestimuladores de colágeno e técnicas de injeção guiada por ultrassom expandiu significativamente o arsenal terapêutico não cirúrgico.
No entanto, conforme destacado por uma revisão sistemática publicada na Aesthetic Plastic Surgery em 2022, a base de evidência para o aumento glúteo minimamente invasivo é composta predominantemente por estudos observacionais com alto risco de viés, configurando um nível de evidência IV na hierarquia da medicina baseada em evidências. Nenhum ensaio clínico randomizado (RCT) comparou diretamente as diferentes substâncias injetáveis entre si. Esta lacuna é o ponto de partida desta revisão.
02. Metodologia desta revisão
Esta é uma revisão narrativa da literatura, não uma revisão sistemática formal com protocolo PRISMA. A busca foi conduzida nos bancos de dados PubMed, Medline, Embase e nas plataformas Wiley, Springer e MDPI, utilizando os termos: "gluteal augmentation" OR "buttock augmentation" OR "gluteal filler" OR "non-surgical buttock", combinados com "hyaluronic acid" OR "poly-L-lactic acid" OR "PLLA" OR "calcium hydroxylapatite" OR "CaHA" OR "polymethylmethacrylate" OR "PMMA". O período coberto foi de janeiro de 2009 a dezembro de 2025.
Foram priorizados: revisões sistemáticas, meta-análises, consensos de especialistas, estudos prospectivos e séries de casos com n ≥ 20 pacientes. Os 25 estudos incluídos na análise final representam dados de mais de 8.000 pacientes, com follow-up variando de 14 dias a 10 anos, conforme a substância avaliada.
03. Anatomia glútea e planos de injeção
A compreensão da anatomia da região glútea é indispensável para a segurança e eficácia de qualquer procedimento injetável nessa área. A região apresenta múltiplas camadas: pele, tecido subcutâneo (que pode ter vários centímetros de espessura), fáscia glútea, musculatura (glúteo máximo, médio e mínimo) e estruturas neurovasculares profundas.
A revisão histórica de 2025 publicada na Aesthetic Surgery Journal classifica as técnicas de aumento glúteo em quatro abordagens anatômicas: subcutânea, subfascial, submuscular e intramuscular. Para injetáveis não cirúrgicos, os planos mais utilizados são o subcutâneo profundo (para AH e bioestimuladores) e o intramuscular (para PMMA). A escolha do plano determina não apenas o efeito estético, mas fundamentalmente o perfil de risco.
A injeção intramuscular na região glútea envolve risco inerentemente maior de lesão vascular, dada a rica vascularização do músculo glúteo máximo. É neste plano que ocorrem as complicações embólicas mais graves. Por isso, a tendência contemporânea para preenchimentos de volume favorece o plano subcutâneo profundo, com uso de cânulas rombas e, idealmente, orientação ultrassonográfica.
04. Ácido hialurônico (AH): preenchimento e volumização glútea
O ácido hialurônico (AH) para preenchimento corporal é o injetável com o maior corpo de evidência específica para a região glútea nos últimos anos. Diferente dos AH faciais de baixo volume, os produtos corporais (como HYAcorp MLF1 e MLF2) são formulações de alta viscosidade e cross-linking, projetadas para suportar as forças mecânicas de uma região com grande massa muscular e tecidual.
Estudo multicêntrico retrospectivo — 91 pacientes (2024)
O maior estudo publicado para AH glúteo é o de Plastic and Reconstructive Surgery – Global Open (2024), um estudo retrospectivo multicêntrico conduzido em três centros (Milão, Roma e Dubai) com 91 participantes — 81 mulheres (89%), 4 homens (4,4%) e 6 pacientes transexuais (6,6%), com idade média de 33,5 anos.
O produto utilizado foi o HYAcorp MLF1/2, injetado na camada subcutânea profunda por cânula 18G com técnica retrógrada em leque. O volume médio total por lado foi de 119,89 ml, distribuído em 1 a 4 sessões. O follow-up médio foi de 701,6 dias (quase 2 anos), com acompanhamento máximo de 4 anos e 7 meses.
Estudo multicêntrico HYAcorp MLF2 — 35 pacientes (2025)
Um segundo estudo multicêntrico, publicado em 2025, avaliou especificamente o HYAcorp MLF2 em 35 mulheres em 4 centros italianos. A satisfação foi de 94% tanto pelos pacientes quanto pelos médicos no follow-up precoce, subindo para 100% na avaliação médica aos 3–6 meses. Notavelmente, não houve diferença estatística nos resultados entre os quatro profissionais com diferentes níveis de experiência (P > 0,05).
05. Ácido poli-L-lático (PLLA): bioestimulação de colágeno no glúteo
O ácido poli-L-lático (PLLA), comercializado como Sculptra (Galderma), é um bioestimulador de colágeno que atua por mecanismo fundamentalmente diferente dos preenchimentos volumizadores. Em vez de adicionar volume direto, as micropartículas de PLLA provocam uma resposta inflamatória controlada que estimula neocolagênese — a produção de colágeno novo — ao longo de semanas a meses.
Consenso Internacional — 19 especialistas (2025)
O documento mais relevante é o consenso internacional publicado na Aesthetic Plastic Surgery (2025), reunindo 19 especialistas de Brasil, EUA, Reino Unido, Suíça, Coreia, Austrália e Taiwan. O painel definiu três abordagens distintas baseadas no objetivo primário:
Abordagem 1 — Qualidade da pele: Foco em melhora de textura, tratamento de celulite e firmeza cutânea. Injeção subcutânea superficial.
Abordagem 2 — Contorno e lifting: Foco na redefinição do contorno e elevação do glúteo. Distribuição 70% na região superior e 30% na inferior.
Abordagem 3 — Projeção e volume: Foco no aumento de projeção. Injeção mais profunda no subcutâneo.
O consenso recomenda diluição de 17 ml por frasco de 150mg, adição de lidocaína, uso de agulha 25G ou cânula rígida 20–22G. O protocolo padrão é de 3 sessões com intervalo de 4–6 semanas, com mínimo de 20 frascos ao longo do tratamento completo.
Estudo duplo-cego split-body — design mais robusto
Em um ensaio prospectivo, unicêntrico, duplo-cego, com design split-body (cada paciente servindo como seu próprio controle), o PLLA demonstrou redução de 40% na profundidade das depressões cutâneas e melhora de 22,5% na aparência morfológica da pele do glúteo, sem efeitos colaterais significativos. Este é o desenho de estudo mais robusto disponível para qualquer bioestimulador na região glútea.
06. Hidroxiapatita de cálcio (CaHA): bioestimulação e tratamento de celulite
A hidroxiapatita de cálcio (CaHA), comercializada como Radiesse (Merz), quando utilizada na forma hiperdiluída, atua primariamente como bioestimulador, promovendo neocolagênese, neoelastinogênese, proliferação de fibroblastos e angiogênese. A forma diluída e hiperdiluída é usada para melhorar a qualidade da pele, tratar flacidez e atenuar a aparência da celulite no glúteo e coxas.
Estudo prospectivo para celulite glútea (2024) — NCT05885035
O estudo mais específico é um ensaio prospectivo, aberto, unicêntrico, registrado no ClinicalTrials.gov (NCT05885035), publicado na Aesthetic Plastic Surgery em 2024. Incluiu 24 mulheres com celulite moderada a grave nos glúteos (idade média 35 anos, IMC médio 26,88 kg/m²). O protocolo consistiu em 3 sessões com CaHA diluída 1:1, técnica de subcisão com cânula, totalizando 12 seringas.
07. Polimetilmetacrilato (PMMA): preenchimento permanente e controvérsia
O PMMA é, paradoxalmente, a substância com o maior volume de dados publicados para aumento glúteo no Brasil — e também a mais controversa. Trata-se de um polímero sintético, não absorvível e permanente, que gera volumização imediata e encapsulamento fibroso tardio. Sua irreversibilidade é simultaneamente sua vantagem (durabilidade sem manutenção) e seu maior risco.
Coorte de 10 anos — 1.681 pacientes (2019)
O estudo de referência é uma coorte retrospectiva de 10 anos (2009–2018) publicada no Plastic and Reconstructive Surgery – Global Open, com 1.681 pacientes submetidos a 2.770 procedimentos de preenchimento glúteo com PMMA 30% intramuscular. A taxa de complicação foi de 1,88% (52 eventos em 2.770 procedimentos), com 98,12% dos procedimentos livres de intercorrências. Zero casos de rejeição, migração ou deslocamento do produto foram reportados.
Coorte ampliada — 4.725 procedimentos (2024)
Uma extensão publicada em 2024 ampliou a análise para 2.801 pacientes e 4.725 procedimentos, totalizando 922.776 ml de produto injetado. A taxa de complicação foi de 2,1% (101 eventos), sem nenhum evento adverso grave (necroses ou embolia). As complicações mais frequentes foram seromas e nódulos (0,50% cada), hematomas (0,29%), infecções (0,06%) e granulomas (0,04%).
08. Tabela comparativa das quatro substâncias
| Parâmetro | AH | PLLA (Sculptra) | CaHA (Radiesse) | PMMA |
|---|---|---|---|---|
| Mecanismo primário | Volumização imediata | Bioestimulação (neocolagênese) | Bioestimulação (neocolagênese + elastogênese) | Volumização permanente + encapsulamento |
| Início do resultado | Imediato | Gradual (4–12 semanas) | Gradual (4–12 semanas) | Imediato |
| Duração estimada | 12–24 meses | 18–24+ meses | 12–18 meses | Permanente |
| Reversibilidade | Sim (hialuronidase) | Não (mas biodegradável) | Não (mas biodegradável) | Não (permanente) |
| Melhor indicação | Volume e contorno | Firmeza, textura e volume gradual | Celulite, flacidez e textura | Grande volume permanente |
| Taxa de complicação | ~55% leves; 0% graves | ~1% nódulos; 0% graves | Dados limitados; 0% graves | 2,1% (n=4.725); 0% graves em centros especializados |
| Maior estudo | 91 pacientes, 4,5 anos follow-up | 60 pacientes, 2 anos | 24 pacientes, estudo prospectivo | 2.801 pacientes, 4.725 procedimentos |
| Nível de evidência | Moderado (IV) | Moderado (IV) | Baixo (IV–V) | Moderado (IV) |
| Status regulatório (Brasil) | Aprovado (ANVISA) | Aprovado (ANVISA) | Aprovado (ANVISA) | Aprovado classe IV — sob debate (CFM pediu banimento) |
Nenhum RCT comparou diretamente as quatro substâncias. "Graves" = necrose, embolia, óbito. Resultados podem diferir entre centros de alto volume e prática clínica geral.
09. Lipoenxertia glútea (BBL): o comparador cirúrgico
Para contextualizar os procedimentos não cirúrgicos, é necessário discutir o Brazilian Butt Lift (BBL) — lipoenxertia glútea com gordura autóloga — que permanece como o padrão de referência em volumização glútea cirúrgica. O BBL combina lipoaspiração de áreas doadoras com reinjeção da gordura processada na região glútea. Oferece resultados de grande volume com aparência e tato naturais, mas carrega o risco mais grave de todo o campo: embolia gordurosa pulmonar (EGP).
A mortalidade por EGP no BBL foi estimada em 1:3.448 procedimentos (2017). Com a implementação de diretrizes de segurança — especialmente a proibição de injeção intramuscular de gordura — a taxa caiu para aproximadamente 1:14.952 (2019), uma melhora de 4 vezes. Ainda assim, é a taxa de mortalidade mais alta entre todos os procedimentos estéticos eletivos. Esta taxa é uma das razões pelas quais alternativas não cirúrgicas ganharam tração: pacientes que desejam melhoras moderadas podem obter resultados satisfatórios com injetáveis, sem risco anestésico e com retorno imediato às atividades.
10. Protocolos combinados: a harmonização glútea na prática clínica
O termo "harmonização glútea" reflete precisamente a tendência de combinar diferentes substâncias e técnicas para abordar múltiplas queixas simultaneamente. Na prática, é raro que um paciente busque apenas volume, ou apenas melhora de textura. A demanda típica envolve: mais volume, menos celulite, pele mais firme e contorno mais definido.
AH + PLLA: O AH fornece volumização e contorno imediatos, enquanto o PLLA atua na qualidade da pele, firmeza e atenuação de celulite ao longo das semanas seguintes. Este é o protocolo mais alinhado ao conceito de "harmonização glútea" como tratamento multimodal.
AH + CaHA hiperdiluída: O AH para volume e contorno, combinado com CaHA diluída com técnica de subcisão para celulite localizada. Particularmente útil quando a celulite é a queixa dominante mas alguma volumização também é desejada.
PLLA + CaHA: Combinação de dois bioestimuladores com mecanismos complementares para pacientes que priorizam firmeza, textura e lifting sem grande adição de volume. Abordagem conservadora e progressiva.
Estas combinações são biologicamente plausíveis e clinicamente praticadas, mas carecem de estudos específicos que as avaliem de forma controlada. Esta é uma das principais fronteiras de pesquisa do campo.
11. Segurança: eventos adversos e complicações graves
Eventos adversos leves e esperados
Todas as substâncias revisadas compartilham um perfil de eventos adversos leves similares: edema local, equimose, dor no local de injeção, eritema e prurido. Estes são transitórios (resolução em 1–7 dias) e considerados esperados. A incidência varia de 23% a 55% dependendo do estudo e da substância.
| Complicação | AH | PLLA | CaHA | PMMA |
|---|---|---|---|---|
| Nódulos/caroços | 3,3% (n=91) | ~1% (n=568) | Não reportado | 0,50% (n=4.725) |
| Infecção | 1,1% (n=91) | Rara | Não reportado | 0,06% (n=4.725) |
| Seromas | Não reportado | Não reportado | Não reportado | 0,50% (n=4.725) |
| Granulomas | 0% (n=91) | Raro | Não reportado | 0,04% (n=4.725) |
| Hematomas | Não quantificado | Raro | Não reportado | 0,29% (n=4.725) |
Complicações graves e recomendações de segurança
A complicação mais temida é a embolia pulmonar. O risco é maximizado quando: (1) injeção é intramuscular profunda, (2) volumes são excessivos, (3) cânulas cortantes são usadas em vez de rombas, (4) o procedimento é realizado por profissional não qualificado.
Com base na literatura revisada, as medidas consensuais para minimização de risco incluem: uso exclusivo de cânulas rombas de largo calibre (18G); aspiração sistemática antes de cada injeção; preferência pelo plano subcutâneo em vez de intramuscular para AH e bioestimuladores; orientação por ultrassonografia quando disponível; e realização exclusiva por profissional qualificado em ambiente certificado.
12. Limitações da evidência atual e direções futuras
Ausência de RCTs comparativos: Nenhum ensaio clínico randomizado comparou AH vs PLLA vs CaHA vs PMMA para a região glútea. Todas as comparações são indiretas. Esta é a lacuna mais crítica do campo.
Nível de evidência IV: A quase totalidade dos estudos são séries de casos retrospectivas ou estudos observacionais sem grupo controle. Apenas o estudo de CaHA para celulite (NCT05885035) e o ensaio split-body de PLLA atingem designs mais robustos.
Heterogeneidade de protocolos: Cada estudo utiliza protocolos diferentes de diluição, volume, número de sessões, técnica e endpoints, dificultando meta-análises formais.
Follow-up limitado para bioestimuladores: Para PLLA e CaHA na região glútea, o follow-up mais longo é de 2 anos. Para AH, 4,5 anos. Para PMMA, 10 anos.
Viés de publicação: Vários estudos são financiados pelos fabricantes dos produtos avaliados. O consenso de PLLA foi financiado por grant irrestrito da Galderma; estudos de AH frequentemente utilizam produtos de um único fabricante (HYAcorp).
13. Conclusão
A harmonização glútea — englobando preenchimento, bioestimulação, tratamento de celulite, melhora da firmeza e contorno do bumbum — dispõe hoje de um arsenal terapêutico não cirúrgico diversificado e com evidência crescente. As quatro substâncias revisadas atendem a demandas clínicas distintas, e a escolha entre elas não é uma questão de "qual é melhor", mas de "qual é mais adequada para este paciente e este objetivo".
O ácido hialurônico é a opção com melhor perfil de segurança documentado para volumização, oferecendo a vantagem exclusiva da reversibilidade. O PLLA é o bioestimulador com a melhor sistematização de protocolo (consenso internacional) e o único com estudo duplo-cego split-body. A CaHA hiperdiluída demonstra eficácia específica para celulite e flacidez. O PMMA oferece durabilidade permanente com grandes volumes de dados brasileiros, mas sua irreversibilidade exige ponderação cuidadosa.
O denominador comum de toda a literatura é que o resultado depende mais do profissional do que do produto. Conhecimento anatômico detalhado, domínio da técnica de injeção, escolha criteriosa do plano, respeito aos volumes recomendados e acompanhamento rigoroso são os verdadeiros determinantes de um resultado seguro e satisfatório.
Talita Almeida · Moema, São Paulo
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