
Índice do Artigo
- Introdução
- Química do AH e por que reticular
- BDDE: o agente reticulante
- NASHA, Vycross e CPM
- Reologia: G', viscosidade e coesividade
- Reologia e profundidade de aplicação
- Degradação e meia-vida in vivo
- Hialuronidase e reversibilidade
- Segurança do processo de fabricação
- Limitações da evidência
- Perguntas frequentes
- Conclusão
Por que o ácido hialurônico injetável precisa ser "reticulado"?
Porque o ácido hialurônico (AH) natural, não modificado, apresenta turnover tecidual rápido, de menos de um a vários dias[13] — uma estimativa fisiológica que varia entre tecidos e não determina, sozinha, a duração de toda formulação injetável. Não se deve confundir a meia-vida do polímero endógeno com a persistência clínica de um gel.
A reticulação (crosslinking) — na imensa maioria dos produtos comerciais, feita com o agente químico BDDE (1,4-butanediol diglicidil éter)[6] — une quimicamente cadeias lineares de AH em uma rede tridimensional muito mais resistente à degradação enzimática. Essa rede modifica a resistência à degradação; a renovação do polímero endógeno não fornece um prazo universal de permanência para os géis injetados. O grau e o padrão dessa reticulação — não apenas sua presença — determinam propriedades reológicas mensuráveis (módulo elástico G', viscosidade, coesividade) que, por sua vez, orientam a firmeza, o comportamento de fluxo e a durabilidade de cada produto.[11]
- A revisão fisiológica descreve meia-vida tecidual do AH de menos de um a vários dias; esse dado não prevê a duração de qualquer gel injetado[13]
- BDDE é o agente reticulante predominante na indústria; reage com grupos hidroxila do AH sob condições alcalinas, formando ligações éter estáveis[6]
- NASHA, Vycross e CPM são processos de fabricação diferentes que usam BDDE de formas distintas — não são "marcas de ingrediente", são arquiteturas moleculares diferentes[5]
- O módulo de rigidez complexo (G*) e a compliance complexa (J*) variam até 10 vezes entre produtos comerciais; a viscosidade complexa varia até 20 vezes — géis não são fisicamente intercambiáveis[11]
- BDDE livre residual: a revisão de 2013 descreve concentrações abaixo de 2 ppm; não é certificação de todos os produtos atuais[6]
- A hialuronidase hidrolisa especificamente ligações glicosídicas do AH, incluindo o AH reticulado — base farmacológica da reversibilidade do preenchimento[8]
1. Introdução: Um Capítulo de Farmacologia, Não de Indicação Clínica
Preenchedores de ácido hialurônico (AH) são utilizados em diferentes intervenções de volumização e correção de contornos faciais. A literatura sobre "onde aplicar" cada produto é vasta e já foi tratada em profundidade em revisões específicas por área do rosto, técnica e indicação.
Este artigo tem um objetivo diferente: entender o que o material realmente é — sua química, sua farmacocinética tecidual e as propriedades físicas mensuráveis (reologia) que determinam como um gel de AH se comporta depois de injetado. É um capítulo de farmacologia aplicada, não um guia de protocolo por região anatômica. A pergunta central não é "qual produto usar no lábio" — é "por que produtos diferentes de AH se comportam de forma tão diferente no tecido, mesmo sendo quimicamente a mesma molécula de base".
Escopo profissional: a aplicação de preenchedores no Brasil é ato privativo de profissional legalmente habilitado, dentro dos limites definidos pelo conselho de classe correspondente. O manejo de intercorrência vascular exige protocolo escrito, hialuronidase disponível no local e articulação imediata com suporte médico e serviço de urgência — condições que devem estar estabelecidas antes de qualquer aplicação.
2. A Química do Ácido Hialurônico e Por Que Reticular
O ácido hialurônico é um glicosaminoglicano não sulfatado, composto por unidades dissacarídicas repetidas de ácido D-glicurônico e N-acetil-D-glicosamina, ligadas de forma linear. É um constituinte natural e onipresente da matriz extracelular — presente na pele, cartilagem, fluido sinovial e humor vítreo — com funções fisiológicas bem descritas de hidratação tecidual, lubrificação, organização da matriz e regulação da atividade celular via interação com receptores específicos (hialadherinas).[1] O AH nativo é um polímero de massa molar elevada, que forma redes por emaranhamento mesmo em soluções diluídas.[1]
A característica farmacocinética central para entender por que a reticulação é necessária: o AH endógeno, não modificado, tem turnover extremamente rápido. A revisão citada descreve meia-vida tecidual de menos de um a vários dias[13] — o corpo produz e degrada continuamente seu próprio ácido hialurônico como parte do metabolismo normal da matriz extracelular, primariamente através da ação da hialuronidase endógena, com contribuição adicional de degradação oxidativa por radicais livres.
- Implicação farmacológica direta: a renovação rápida do AH endógeno ajuda a explicar o interesse pela estabilização dos géis; não fornece uma meia-vida universal para toda formulação injetável não reticulada
- Função da reticulação: conectar quimicamente cadeias lineares de AH entre si, formando uma rede tridimensional (hidrogel) que resiste muito mais à ação da hialuronidase e à degradação oxidativa, alterando a resistência do gel à degradação; a duração depende da formulação e do contexto tecidual[6]
- Trade-off inerente: quanto mais extensa e densa a reticulação, maior a resistência à degradação — mas também maiores as mudanças nas propriedades físicas do gel (rigidez, viscosidade), que precisam ser calibradas para não comprometer a injetabilidade nem a naturalidade do resultado
Em outras palavras: a reticulação não é um detalhe de manufatura — é a condição farmacocinética que transforma o ácido hialurônico de uma molécula fisiológica de turnover rápido em um material de preenchimento clinicamente viável.

3. BDDE: O Agente Reticulante Predominante

Revisão narrativa — O 1,4-butanediol diglicidil éter (BDDE) é, disparadamente, o agente reticulante mais usado na fabricação comercial de preenchedores de AH — uma revisão publicada em 2013 descreveu mais de 15 anos de experiência clínica e biocompatibilidade. Esse histórico não comprova segurança uniforme de todo produto ou processo atual.[6] A reação ocorre em meio fortemente alcalino (com condições definidas pelo processo de fabricação): os grupos epóxido nas duas extremidades da molécula de BDDE reagem com grupos hidroxila (álcool primário) presentes nas cadeias de AH, formando ligações éter covalentes que unem cadeias adjacentes.
| Parâmetro | Descrição |
|---|---|
| Agente reticulante | BDDE (1,4-butanediol diglicidil éter) — predominante na indústria; PEGDE é usado por alguns fabricantes como alternativa |
| Tipo de reação | Abertura do anel epóxido, formação de ligação éter com grupos hidroxila do AH, em pH alcalino |
| Resultado | Transformação de cadeias lineares de AH em uma rede tridimensional (hidrogel) resistente à degradação enzimática |
| BDDE livre residual | A revisão de 2013 descreve traços abaixo de 2 ppm; isso não certifica a composição de todo produto atual; a especificação aplicável deve ser conferida no produto e na jurisdição[6] |
O PEGDE (polietilenoglicol diglicidil éter) reage por mecanismo epóxido semelhante e é usado por alguns fabricantes; a literatura comparativa de segurança entre os dois agentes é escassa e não estabelece superioridade de um sobre o outro.
4. NASHA, Vycross e CPM: Arquiteturas Moleculares, Não Apenas Marcas
Um ponto frequentemente mal compreendido: NASHA, Vycross e CPM (Cohesive Polydensified Matrix) não são agentes reticulantes diferentes — todos usam predominantemente BDDE como base química. O que os diferencia é o processo de fabricação: como, quanto e em quantas etapas a reticulação é aplicada, e se o gel resultante é ou não fragmentado em partículas após reticulado. Essa engenharia de processo — não o agente químico — é o que produz perfis reológicos distintos, cuja relevância clínica precisa ser demonstrada.
| Tecnologia | Processo de fabricação | Perfil reológico característico |
|---|---|---|
| NASHA | Gel homogeneamente reticulado é fabricado em bloco e depois fragmentado por peneiramento em partículas de tamanhos variados | Menor coesividade nos produtos NASHA examinados nos ensaios citados, sem generalização a toda formulação atual |
| Vycross | Combina cadeias de AH de pesos moleculares alto e baixo; a descrição do processo deve ser conferida para cada produto | Mistura de pesos moleculares que reduz a concentração total de AH necessária; coesividade classificada como baixa-média em avaliação padronizada[3] — parcialmente coesivo em exame microscópico[5] |
| CPM | Reticulação em múltiplas etapas (polidensificação), sem fragmentação por peneiramento — gel não particulado, homogêneo | Maior coesividade do Belotero Balance nos ensaios citados[3] — sem partículas visíveis em microscopia óptica, um achado laboratorial que não demonstra, isoladamente, integração uniforme em qualquer tecido[10] |
Um estudo comparativo direto de sete géis de AH usando as diferentes tecnologias de reticulação, com avaliação visual e microscópica, documentou diferenças estruturais e de comportamento consistentes com essa classificação por processo de fabricação, não apenas por composição química nominal.[5] A descrição química nominal não resume todas essas propriedades, mas os testes não substituem avaliação clínica dos produtos.
5. Reologia: G', Viscosidade e Coesividade

Revisão narrativa — Reologia é o ramo da física que estuda como materiais se deformam e fluem sob tensão mecânica. Para preenchedores de AH, três propriedades reológicas são consistentemente citadas na literatura para caracterizar o material, junto à concentração de AH; sua relação com desempenho clínico precisa ser demonstrada:[4]
- G' (módulo de armazenamento elástico): descreve a resposta elástica ao cisalhamento oscilatório nas condições do ensaio. Não é medida direta de compressão vertical, estudada por parâmetros como E', nem prova isolada de sustentação clínica. G'' descreve o componente dissipativo; tan δ = G''/G' expressa a relação entre os componentes viscoso e elástico.[4]
- Viscosidade complexa: resistência do gel ao fluxo — relacionada à facilidade de injeção através da agulha/cânula (menor viscosidade = injeção mais fácil, mas potencialmente menos controle de forma) e ao espalhamento do material no tecido após a injeção
- Coesividade: capacidade das partículas ou da matriz do gel de permanecerem unidas como massa coesa, em vez de se dispersarem no tecido circundante — avaliada de forma padronizada por escalas como a escala de cinco pontos de Gavard-Sundaram, desenvolvida especificamente para quantificar essa propriedade de forma comparável entre produtos[3]
- Concentração de AH (mg/mL) e razão gel:fluido: propriedade frequentemente eclipsada pelo apelo da reologia, mas de peso independente — produtos comerciais diferem em concentração total de AH, na fração efetivamente reticulada e na proporção entre gel e AH livre.[2] É uma variável distinta de G', de viscosidade e de coesividade: dois géis podem ter G' semelhante com concentrações bem diferentes. Estudos que correlacionaram propriedades de bancada com persistência clínica encontraram associação mais forte com a concentração total de AH reticulado — e, secundariamente, com o percentual de elasticidade — do que com os parâmetros reológicos oscilatórios isoladamente.[11]
| Propriedade reológica | Variação documentada entre produtos comerciais[11] |
|---|---|
| Viscosidade complexa | Até 20 vezes de diferença entre produtos[11] |
| Módulo de rigidez complexo (G*) e compliance complexa (J*) | Até 10 vezes de diferença entre produtos[11] |
| Percentual de elasticidade | Faixa de 58% a 89,9% entre produtos avaliados[11] |
| Tan delta (relação G''/G') | Faixa de 0,11 a 0,70 entre produtos avaliados[11] |
Essa magnitude de variação é o dado central deste capítulo — mas com uma ressalva que a própria fonte desses números faz explicitamente: no estudo que os mediu, os dados clínicos disponíveis não puderam ser correlacionados com as propriedades reológicas oscilatórias ou de fluxo rotacional dos produtos; a persistência clínica correlacionou-se fortemente com a concentração total de AH reticulado e, em menor grau, com o percentual de elasticidade. Ou seja: produtos com a mesma classificação regulatória têm propriedades físicas mensuráveis ordens de grandeza diferentes, mas a tradução dessa diferença laboratorial em diferença clínica perceptível não está estabelecida.[11] A escala de coesividade de Gavard-Sundaram, validada em avaliação com repetibilidade e consistência interobservador, classificou produtos com tecnologia CPM como de coesividade alta, Hylacross (tecnologia legada) como média-alta, Vycross como baixa-média e NASHA como baixa — resultados dos produtos específicos avaliados em 2015, não uma classificação universal das tecnologias. O método utilizou extrusão em água sob agitação e validação piloto por seis avaliadores; requer confirmação clínica. No estudo de 2016, Vycross foi representado por Volbella, enquanto o ensaio de 2015 avaliou Voluma: não são o mesmo produto.[3]
A elasticidade do gel está associada principalmente às ligações covalentes formadas entre cadeias de AH pela reação de reticulação, enquanto a coesividade está mais relacionada a interações não covalentes (pontes de hidrogênio, emaranhamento de cadeias) dentro da matriz do gel — dois mecanismos físico-químicos distintos que, juntos, determinam o comportamento macroscópico observado na reometria oscilatória.[4]
6. Reologia e Profundidade de Aplicação: O Racional Físico, Não o Protocolo
A literatura de reometria correlaciona propriedades físicas do gel com adequação a diferentes planos teciduais — mas é importante separar o racional físico (o que este artigo aborda) da recomendação de protocolo por área anatômica (fora do escopo deste texto, coberto em revisões específicas por região facial).
- Géis de G' mais alto tendem a ser associados na literatura a aplicação em planos mais profundos (supraperiosteal, subcutâneo profundo), onde a função é sustentação estrutural e resistência à compressão tecidual — essa associação não torna G' uma medida direta de compressão nem garante sustentação em tecido vivo[4]
- Géis de G' mais baixo e menor viscosidade tendem a se espalhar de forma mais homogênea e uniforme no tecido, associados na literatura a planos mais superficiais (derme superficial a média), onde a integração suave ao tecido circundante e a ausência de contorno visível são prioritárias sobre a sustentação estrutural[4]
- Coesividade descreve a manutenção da massa do gel no ensaio utilizado; não demonstra, isoladamente, menor migração clínica[3]
7. Degradação e Meia-Vida In Vivo
Revisão narrativa — Ao contrário do AH endógeno (turnover tecidual de menos de um a vários dias), o AH reticulado permanece no tecido por meses — mas não indefinidamente. A literatura descreve dois mecanismos principais de degradação in vivo do AH reticulado: degradação enzimática pela hialuronidase tecidual (mais lenta que sobre o AH não reticulado, mas ainda presente) e degradação oxidativa por radicais livres gerados no microambiente tecidual.[7]
- Grau de modificação (MoD) versus grau de reticulação: são grandezas distintas e frequentemente confundidas. MoD é a proporção de unidades dissacarídicas do AH que reagiram com o BDDE — inclusive as que reagiram por uma só extremidade, formando BDDE pendente, que não conecta cadeias. As definições e os métodos analíticos de reticulação precisam ser explicitados; MoD total não mede somente pontes efetivas entre cadeias. A literatura distingue reticulação completa (C-MoD) de parcial (P-MoD) e associa a primeira a maior durabilidade; o BDDE pendente acumulado, por sua vez, é apontado como possível fator em reações imunes tardias — uma hipótese discutida pela revisão, não uma relação causal clínica estabelecida. BDDE ligado por uma extremidade não é o mesmo que BDDE livre residual removível por purificação.[7]
- Fatores que aceleram a degradação: a literatura discute como movimento mecânico repetido da região tratada, calor local, exposição UV crônica e atividade metabólica/inflamatória do tecido podem acelerar tanto a via enzimática quanto a oxidativa de degradação — um racional físico-químico plausível que ajuda a explicar por que a durabilidade clínica reportada varia entre regiões anatômicas com diferentes graus de mobilidade (ex.: região perioral versus malar)
- Resposta tecidual histológica: revisões descrevem, além da degradação química direta do gel, a formação de cápsula de colágeno ao redor do material implantado e processos de substituição progressiva por tecido autólogo — fenômenos que também influenciam o resultado clínico percebido ao longo do tempo, além da simples quantidade de gel remanescente[7]
8. Hialuronidase: O Mecanismo Farmacológico da Reversibilidade

A hialuronidase pode degradar ácido hialurônico e é utilizada no manejo de determinadas complicações de preenchedores. Essa propriedade não garante dissolução completa, correção do resultado estético ou recuperação de uma lesão já estabelecida. A revisão de 2024 reconhece dados controlados limitados e diferenças entre recomendações de dose.[8]
É preciso distinguir correção não emergencial de excesso de produto, avaliação de nódulo inflamatório e suspeita de oclusão vascular. São situações diferentes, que não compartilham automaticamente dose, momento ou demais intervenções. A revisão de Cavallini é uma síntese da literatura de 1928 a 2011, não um ensaio comparativo de cinética capaz de prever a quantidade de enzima necessária a partir da reticulação de cada produto.[9]
Resposta do material e resposta do paciente: a degradação observada em bancada não mede diretamente recuperação da perfusão ou da função visual. A seleção do gel por propriedades reológicas tampouco substitui prevenção, reconhecimento e assistência diante de complicações.
9. Segurança do Processo de Fabricação

Do ponto de vista farmacológico, a segurança do AH reticulado como classe terapêutica depende não apenas da molécula final, mas do controle de qualidade do processo de reticulação:
- BDDE residual: a revisão de 2013 descreve concentrações abaixo de 2 ppm de BDDE não reagido. Não é um laudo de todos os produtos atuais nem comprovação de um limite universal de segurança. BDDE livre, formas ligadas à rede e subprodutos hidrolisados são espécies diferentes.[6]
- BDPE em 2026: Kim e colaboradores analisaram 38 produtos de sete fabricantes. BDDE não foi detectado pelo método utilizado, enquanto BDPE variou entre produtos. As avaliações de sensibilização foram computacionais; o estudo não comparou eventos clínicos de longo prazo entre formulações. Portanto, não demonstra que determinada concentração cause alergia em pacientes nem estabelece um novo limite regulatório. Os autores têm afiliações à Across e à Hugel, embora declarem ausência de conflitos; esse contexto deve acompanhar a interpretação da comparação industrial.[12]
- Esterilização e estabilidade térmica: o processo de autoclave (esterilização terminal) pode gerar novos subprodutos de reação não previstos na formulação original — estudos de detecção de novos produtos de reação em AH reticulado autoclavado ilustram a importância de caracterização analítica completa, não apenas do agente reticulante original[14]
- Histórico de segurança acumulado: a revisão de 2013 apresenta uma avaliação favorável de segurança a partir do material disponível à época. Não substitui vigilância posterior, especificações por produto ou análise de eventos adversos atuais[6]
10. Limitações da Evidência Disponível
- Dados humanos de cinética de degradação in vivo por produto específico, região anatômica e paciente individual permanecem mais limitados que os dados in vitro/animais — estimativas de durabilidade seguem sendo aproximações, não previsões precisas
- A padronização analítica de subprodutos de reticulação além do BDDE residual (como o BDPE) ainda não é uniforme entre fabricantes nem exigida de forma consistente pelos órgãos regulatórios em todas as jurisdições
- Comparações reológicas diretas entre múltiplos produtos comerciais usam protocolos de reometria que variam entre laboratórios — dificultando comparação absoluta de valores de G' publicados por estudos diferentes
- A correlação entre propriedades reológicas medidas em laboratório (condições controladas, temperatura ambiente) e o comportamento real do gel no ambiente tecidual dinâmico (temperatura corporal, movimento, pressão tecidual variável) é inferida, não medida diretamente em todos os casos
Este capítulo trata do material em si — sua química, farmacocinética e reologia — com honestidade sobre o que é comprovado por reometria/estudos in vitro versus o que é inferência clínica razoável, mas não diretamente medida em todos os casos.
11. Perguntas Frequentes
Por que o ácido hialurônico precisa ser reticulado para ser usado como preenchedor?
A reticulação conecta cadeias em uma rede que pode resistir mais à degradação. A revisão fisiológica citada descreve turnover tecidual de menos de um a vários dias para AH nativo; esse dado não prevê sozinho a persistência de qualquer formulação injetada. Composição, processo e contexto tecidual também importam.[6][13]
Qual a diferença entre as tecnologias de reticulação BDDE, NASHA, Vycross e CPM?
BDDE (1,4-butanediol diglicidil éter) é o agente químico reticulante mais usado na indústria — a molécula que efetivamente forma as ligações éter entre cadeias de AH. NASHA, Vycross e CPM (Cohesive Polydensified Matrix) são processos de fabricação distintos que usam BDDE de formas diferentes: NASHA gera partículas por peneiramento de um gel homogeneamente reticulado; Vycross combina cadeias de AH de peso molecular alto e baixo reticuladas em conjunto; CPM aplica reticulação em múltiplas etapas para criar uma matriz não particulada e altamente coesiva. O resultado são perfis reológicos (elasticidade, coesividade, comportamento de fluxo) diferentes entre as três abordagens, mesmo usando o mesmo agente reticulante de base.[5]
O que significa o módulo elástico G' de um preenchedor de ácido hialurônico?
G' caracteriza a resposta elástica do gel ao cisalhamento oscilatório, nas condições do ensaio. Não mede diretamente a resistência à compressão vertical nem determina sozinho sustentação clínica, profundidade de aplicação ou segurança. A comparação exige considerar método, frequência, temperatura, composição e outras propriedades do gel. Os resultados de laboratório ajudam a compreender os materiais, mas não substituem evidência clínica por produto e indicação.
A hialuronidase consegue reverter completamente um preenchimento de ácido hialurônico?
Não há garantia de reversão completa. A enzima pode degradar AH, mas dissolução do material, resultado estético e recuperação de tecido ou visão são desfechos diferentes. A avaliação depende do produto e do tipo de complicação. Suspeita de oclusão vascular ou alteração visual exige atendimento imediato.[8][15]
O BDDE residual nos preenchedores de ácido hialurônico é seguro?
A revisão de 2013 descreve quantidades residuais abaixo de 2 ppm, sem certificar cada produto atual. BDDE não reagido e BDPE são substâncias distintas. O estudo de 2026 sobre BDPE é analítico e inclui previsões computacionais de sensibilização; não demonstra frequência de alergia em pacientes ou um novo limite regulatório.[6][12]
12. Conclusão: O Material Por Trás do Procedimento
O ácido hialurônico reticulado não é uma substância única e uniforme — é uma classe farmacológica com variação real e mensurável em química de fabricação (BDDE, processo NASHA/Vycross/CPM), propriedades físicas (G', viscosidade, coesividade) e comportamento farmacocinético no tecido (velocidade de degradação, resposta à hialuronidase). Compreender essa variação — não apenas memorizar nomes de marca — é o que permite uma leitura crítica e baseada em evidência da literatura de preenchimento facial.
A reticulação resolve um problema farmacocinético fundamental (o turnover rápido do AH nativo), mas introduz uma nova camada de complexidade: o grau, o padrão e o processo de reticulação determinam propriedades reológicas que variam em ordens de grandeza entre produtos comerciais — e é essa variação — não a mera presença de "ácido hialurônico" na bula — que precisa ser conhecida para uma leitura crítica da literatura. Ressalva essencial: a evidência atual mostra correlação fraca a ausente entre parâmetros reológicos de bancada e desfecho clínico medido, de modo que reologia é um racional de seleção, não um preditor validado de resultado.[11]
"Entender a reologia de um preenchedor de ácido hialurônico não é um exercício acadêmico — é a base farmacológica que separa uma escolha técnica informada de uma escolha por nome de marca."
Cada produto de ácido hialurônico tem uma reologia própria — firmeza, fluxo e integração tecidual diferentes. Agende sua avaliação para um plano baseado nas características físicas de cada material e no seu objetivo estético.
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