Corte anatômico da celulite com injeção localizada de colagenase junto ao septo fibroso
Ilustração conceitual de septo fibroso e injeção no tecido subcutâneo. Não demonstra técnica de aplicação, ângulo, profundidade ou distribuição real da enzima.
Índice do Artigo
  1. Introdução
  2. Mecanismo de ação
  3. Trial de fase 2
  4. RELEASE-1 e RELEASE-2
  5. Aprovação FDA e QWO
  6. Colagenase vs. subcisão
  7. Comparação com RF e laser
  8. Perfil de segurança
  9. Quem é candidata
  10. Protocolo e expectativas
  11. Limitações da evidência
  12. Perguntas frequentes
  13. Conclusão
⚠️ Atualização de setembro de 2026: em 6 de dezembro de 2022, a Endo anunciou a cessação da produção e venda de QWO. Esta revisão examina seu histórico clínico; a clínica não oferece o produto. O comunicado não comprova, isoladamente, a situação regulatória atual em cada país.[9]
Resposta rápida

A colagenase injetável funciona para celulite?

Sim, com eficácia estatisticamente demonstrada, porém modesta em magnitude absoluta. Nos dois ensaios clínicos de fase 3 (RELEASE-1 e RELEASE-2), a colagenase de Clostridium histolyticum (CCH-aaes, comercializada como QWO nos EUA) obteve resposta composta de pelo menos 2 níveis de melhora em 7,6% e 5,6% das pacientes tratadas, contra 1,9% e 0,5% no grupo placebo — diferença estatisticamente significativa (p ≤ 0,006), sem demonstrar eliminação da celulite. Mesmo pelo critério menos exigente de melhora composta de 1 nível, responderam 37,1% e 41,6% das participantes tratadas; portanto, não se pode afirmar que a maioria melhorou por esse desfecho.[3]

A aprovação do FDA (2020) é restrita a nádegas de mulheres adultas com celulite moderada a severa. O evento adverso mais comum é a equimose no local da injeção, relatada em 84% das participantes na síntese dos ensaios apresentada pela bula de aprovação[8] e estimada em 89% (IC95% 71–96%) na análise de equimose de 2024, que agrupou quatro estudos de colagenase.[7] A metanálise citada compara estudos separados de CCH e subcisão; não é um ensaio randomizado entre as técnicas e não demonstra superioridade clínica de uma sobre a outra.

Principais Achados Científicos
  • FDA aprovou a colagenase (QWO/CCH-aaes) em julho de 2020, exclusivamente para celulite moderada-severa em nádegas de mulheres adultas
  • RELEASE-1 e RELEASE-2 (fase 3, n = 843): resposta composta ≥2 níveis em 7,6% e 5,6% vs. 1,9% e 0,5% no placebo
  • Mecanismo: duas colagenases bacterianas (AUX-I/AUX-II) hidrolisam especificamente colágeno tipo I e III dos septos fibrosos
  • Metanálise de 2024: 14 estudos na revisão, com números menores por evento adverso. As estimativas pontuais de equimose e dor diferem, mas os testes entre subgrupos não demonstraram diferença estatística nesses dois desfechos; comparação indireta não estabelece superioridade ou equivalência
  • Protocolo dos trials: até 3 sessões, ~21 dias de intervalo, 12 injeções por área tratada (até 2 áreas por sessão)
  • Cessação da produção e venda anunciada pela Endo em dezembro de 2022; no comunicado daquela data, a empresa informou que a aprovação FDA permanecia válida[9]
  • A comparação citada entre CCH e subcisão é indireta, reunindo estudos separados

1. Introdução: Uma Nova Classe de Tratamento Injetável

Método: revisão narrativa de estudos clínicos e documentos regulatórios selecionados. Não houve busca sistemática exaustiva, metanálise nova ou graduação GRADE independente. Comparações entre estudos e limitações de acesso às fontes são tratadas como tais.

A celulite — mais precisamente descrita como uma alteração estrutural da junção derme-subcutâneo — é frequente em mulheres após a puberdade e envolve mecanismos ainda discutidos.[1] Entre as abordagens estudadas estão tecnologias de energia e a subcisão mecânica, que atua fisicamente nos septos fibrosos. Resultados e duração precisam ser avaliados para cada técnica e protocolo.

A colagenase de Clostridium histolyticum (abreviada CCH, na formulação específica para celulite chamada CCH-aaes) representa uma terceira via: em vez de energia ou corte mecânico, a enzima digere quimicamente o colágeno que compõe os septos fibrosos responsáveis pela tração da pele. É a mesma classe de enzima já usada há mais de uma década para contratura de Dupuytren e doença de Peyronie (nome comercial Xiaflex), reaproveitada para uma nova indicação estética.

Em 2020, o FDA aprovou a primeira formulação injetável específica para celulite sob o nome comercial QWO, tornando-se o primeiro medicamento injetável aprovado para essa indicação nos Estados Unidos.

2. Mecanismo de Ação: Duas Enzimas, Um Alvo Molecular

Ilustração conceitual: septo vertical contínuo ligado à depressão da pele e septo vertical interrompido, mantendo os planos horizontais
Hipótese estrutural simplificada: um septo sob tensão pode contribuir para a depressão cutânea. A interrupção representada é vertical; os planos horizontais permanecem contínuos. Não é fotografia antes/depois, demonstração da distribuição da enzima ou previsão de resultado. O mecanismo clínico exato da colagenase na celulite permanece desconhecido.[8]

A CCH-aaes é composta por duas colagenases produzidas pela bactéria Clostridium histolyticum — a Colagenase Classe I (AUX-I) e a Colagenase Classe II (AUX-II) — combinadas em proporção de massa aproximada de 1:1. A bula descreve hidrólise do colágeno em sua conformação nativa; isso não estabelece seletividade para um septo específico nem o mecanismo clínico completo.[8]

  • Especificidade molecular: as colagenases hidrolisam preferencialmente colágeno tipo I e tipo III sob condições fisiológicas — os principais componentes estruturais dos septos fibrosos
  • Hipótese anatômica: a degradação de colágeno nos septos pode reduzir a tração responsável pelas depressões. A bula de aprovação de 2020 informa, porém, que o mecanismo exato do efeito na celulite é desconhecido.[8]
  • Sem energia térmica ou corte: ao contrário de RF/laser (dano térmico controlado) ou subcisão (corte mecânico com agulha/cânula), o mecanismo é puramente enzimático
Nota técnica: a hidrólise enzimática do colágeno tipo I/III é o mesmo racional farmacológico usado na CCH para contratura de Dupuytren e doença de Peyronie — isso não torna as formulações intercambiáveis. A bula de QWO proíbe sua substituição por outros produtos injetáveis de colagenase.[8]
Ilustração conceitual da fragmentação de fibras de colágeno por colagenases
Esquema ilustrativo de hidrólise do colágeno, não uma micrografia. Não demonstra seletividade anatômica nem ausência de dano aos tecidos adjacentes.

3. Trial de Fase 2: Prova de Conceito

Ensaio de fase 2 — Antes dos trials pivotais de fase 3, um ensaio randomizado, duplo-cego, controlado por placebo avaliou a CCH para o tratamento da paniculopatia edemato-fibroesclerótica (nome técnico da celulite) em mulheres adultas. O estudo comparou CCH 0,84 mg com placebo, em até 3 sessões separadas por 21 dias; não foi uma comparação entre diferentes doses.[2]

No ensaio de fase 2, 375 mulheres foram randomizadas: CCH (n = 189) e placebo (n = 186). A resposta composta de pelo menos 2 níveis no dia 71 foi de 10,6% versus 1,6%, na população por intenção de tratar. Já a resposta de pelo menos 1 nível — 44,6% versus 17,9% — foi analisada na população modificada, com 177 e 184 participantes, respectivamente, que tinham avaliação após o tratamento. Os denominadores são diferentes; ambos os testes tiveram p < 0,001. Esse desenho não compara doses entre si[2].

4. RELEASE-1 e RELEASE-2: Os Trials Pivotais de Fase 3

Dois painéis com resposta composta de um e dois níveis no dia 71: CCH e placebo nos estudos RELEASE-1 e RELEASE-2, na mesma escala de 0 a 50 por cento
Resposta simultânea nas escalas da paciente e do investigador no dia 71. RELEASE-1: 210 participantes CCH e 213 placebo; RELEASE-2: 214 e 206. Dados ausentes foram considerados não resposta. Os painéis usam a mesma escala e não representam comparação direta entre os ensaios nem durabilidade de longo prazo.[3]

Ensaios de fase 3 — Dois ensaios clínicos de fase 3, randomizados, duplo-cegos, controlados por placebo e de desenho idêntico (RELEASE-1, NCT03428750; RELEASE-2, NCT03446781) constituem a base regulatória da aprovação FDA. Mulheres adultas com celulite moderada a severa nas nádegas (grau 3–4 nas escalas PR-PCSS e CR-PCSS) receberam até 3 sessões de CCH 0,84 mg por área tratada ou placebo, injetadas subcutaneamente nas depressões marcadas.[3]

EstudoN (CCH vs. placebo)Resposta composta ≥2 níveisSignificância
RELEASE-1210 vs. 2137,6% vs. 1,9%p = 0,006
RELEASE-2214 vs. 2065,6% vs. 0,5%p = 0,002

Nas análises de eficácia da fase 3, participantes sem dados no dia 71 foram consideradas não respondedoras. O desfecho composto exige melhora simultânea nas duas escalas, não apenas satisfação ou avaliação isolada. A avaliação principal ocorreu 28 dias depois da última sessão prevista; ela não demonstra, sozinha, durabilidade de anos[3].

Ao todo, 843 mulheres receberam pelo menos uma injeção nos dois estudos combinados.[3] O desfecho primário — resposta composta de pelo menos 2 níveis simultâneos de melhora tanto na avaliação da paciente quanto do investigador — favoreceu consistentemente o grupo CCH em ambos os estudos, com significância estatística mantida.

O desfecho menos restritivo, de resposta composta de pelo menos 1 nível, mostra magnitude bem maior e ajuda a dimensionar o efeito real: 37,1% vs 17,8% no RELEASE-1 e 41,6% vs 11,2% no RELEASE-2 (p < 0,001 em ambos).[3] A leitura honesta é que cerca de 4 em cada 10 pacientes tratadas obtiveram melhora perceptível de 1 nível, enquanto menos de 1 em 10 atingiu o desfecho rigoroso de 2 níveis simultâneos. Poucas participantes descontinuaram por evento adverso (≤4,3%).

Uma análise por imagem tridimensional em 58 mulheres e 403 depressões documentou redução do volume negativo total das depressões de 27% no dia 90 e 26% no dia 180 (p < 0,001 e p = 0,002), com contorno glúteo global classificado como melhorado em 27% das participantes no dia 90 — a volumetria foi uma análise retrospectiva de imagens de uma coorte previamente tratada, sem comparação contemporânea com placebo. As 403 depressões pertenciam a 58 mulheres e não correspondem a 403 participantes independentes; o resultado volumétrico também não equivale à avaliação global de contorno.[6]

5. Aprovação FDA e o Produto QWO

A bula de aprovação de julho de 2020 indica QWO para celulite moderada a severa nas nádegas de mulheres adultas.[8] Em 6 de dezembro de 2022, a Endo anunciou a cessação de sua produção e venda, citando preocupações com equimoses e descoloração prolongada. O comunicado informou que a aprovação FDA permanecia válida naquele momento e admitiu o uso de estoques dentro do prazo de validade.[9] Portanto, o anúncio não equivale a uma revogação regulatória, mas também não comprova a disponibilidade atual do produto. Esta revisão não estabelece sua situação em todos os mercados e não apresenta autorização FDA como autorização brasileira.

Escopo da aprovação: a bula do FDA e os trials pivotais cobrem exclusivamente a região glútea. Uso em coxas ou outras áreas do corpo não tem a mesma base de evidência regulatória e é considerado uso off-label pelos padrões da FDA — uma limitação relevante ao avaliar promessas de "tratar celulite" de forma genérica.

6. Colagenase vs. Subcisão (Cellfina/Avéli)

A subcisão mecânica — popularizada pelos dispositivos Cellfina e, mais recentemente, Avéli — rompe fisicamente os septos fibrosos com uma cânula ou lâmina guiada. O estudo pivotal do Cellfina relatou manutenção do benefício por até 3 anos após sessão única — ressalvando que se trata de um estudo aberto, de braço único, com 45 participantes no seguimento estendido de 3 anos, sem grupo controle e, portanto, com nível de evidência inferior ao dos ensaios de fase 3 da colagenase.[5]

Uma revisão sistemática com metanálise publicada em 2024 reuniu 14 estudos (5 de CCH, 9 de subcisão), totalizando 1.254 pacientes (465 com CCH, 789 com subcisão), e comparou os perfis de eficácia e segurança das duas abordagens.[7] A síntese apresenta uma comparação indireta entre estudos separados; seus grupos não foram randomizados entre as duas técnicas na mesma população.

DesfechoColagenase (CCH)Subcisão (TS)
Equimose89% (IC95% 71–96%)99% (IC95% 81–100%; figura 2)
Dor com necessidade de analgésico74% (IC95% 55–87%)60% (IC95% 43–76%)
Induração7% (IC95% 5–11%)7% (IC95% 2–25%)
Descoloração da pele16% (IC95% 10–26%)7% (IC95% 5–10%)
InvasividadeInjeção (agulha fina)Cânula/lâmina subcutânea

Os 1.254 participantes pertencem ao inventário da revisão, não ao denominador de cada estimativa. Na figura de equimose, são quatro estudos e 315 participantes com CCH versus cinco estudos e 569 com subcisão; para descoloração, dois estudos e 85 participantes com CCH versus seis estudos e 390 com subcisão. As proporções são estimativas de efeitos aleatórios, não uma divisão simples do total de eventos pelo total de participantes. A análise procurou capturar eventos nos primeiros 30 dias e não permite comparar adequadamente complicações tardias.[7]

Há inconsistências internas na publicação: o quadro de resumo inverte a direção de equimose e dor em relação aos resultados, e o intervalo de equimose da subcisão difere entre texto e figura 2. Esta tabela reproduz o intervalo do gráfico. Os testes entre subgrupos apresentados nas figuras não demonstram diferença para equimose (p=0,15), dor (p=0,27) ou induração (p=0,95); descoloração teve p<0,01. Mesmo este último resultado vem de estudos separados, com populações e protocolos distintos, e não comprova uma diferença causal entre técnicas.[7]

As estimativas agrupadas descrevem estudos distintos e não estabelecem que uma técnica cause mais eventos que a outra em pacientes comparáveis. Os dois valores pontuais de induração foram 7%, mas isso não demonstra equivalência; tampouco a sobreposição dos intervalos de confiança substitui um teste comparativo. Diferenças de região, técnica e coleta de eventos limitam a comparação.[7]

7. Comparação com Radiofrequência e Laser

Radiofrequência e laser não constituem uma intervenção única. É incorreto afirmar que todo laser subdérmico apenas modifica edema ou microcirculação e não atua nos septos. Um estudo multicêntrico de laser Nd:YAG de 1.440 nm com fibra de emissão lateral descreve liberação térmica dos septos, além de outras etapas de tratamento.[10] Esses resultados pertencem ao dispositivo e ao protocolo estudados; não podem ser transferidos automaticamente a outros comprimentos de onda ou a qualquer procedimento denominado endolaser.

O estudo de laser incluiu 57 participantes, mas apenas 30 retornaram à avaliação de aproximadamente 12 meses. A ausência de grupo controle e as perdas de seguimento limitam a estimativa de benefício duradouro.[10] As fontes aqui analisadas não oferecem comparação randomizada direta desse protocolo com CCH. Assim, o racional de ação não basta para ordenar eficácia ou segurança entre tecnologias, nem para definir intervalos universais de manutenção.

8. Perfil de Segurança e Eventos Adversos

A equimose no local de aplicação foi relatada em 84% das participantes tratadas na síntese dos ensaios apresentada pela bula de aprovação.[8] Outros eventos comuns incluem:

  • Dor no local da injeção, por vezes exigindo analgesia
  • Endurecimento (induração) transitório da área tratada
  • Prurido, eritema e edema local
  • Sensação de calor na região tratada

A maioria dos eventos nos RELEASE foi leve a moderada, mas isso não garante resolução rápida individual. Os ensaios não registraram hipersensibilidade grave; a bula, porém, adverte sobre reações graves, incluindo anafilaxia, relatadas com colagenase. A ausência de casos nesses ensaios não permite excluir o risco nem atribuir-lhe uma frequência precisa[3][8].

Expectativa realista sobre downtime: a frequência de equimose nos estudos não permite prever sua duração individual. O anúncio comercial de 2022 também citou preocupações com descoloração prolongada; frequência, duração e impacto para a paciente são questões distintas.[9]

9. Quem Foi Estudada nos Ensaios

Os ensaios pivotais concentraram-se no seguinte perfil; descrevê-lo não constitui indicação atual do produto:

  • Mulher adulta com celulite moderada a severa (grau 3–4 nas escalas PR-PCSS/CR-PCSS) na região glútea
  • Depressões bem delimitadas e localizáveis, passíveis de marcação individual para injeção
  • Sem histórico de alergia a colagenase ou aos excipientes da formulação
  • Ciente do downtime esperado (equimose) e das expectativas realistas de melhora parcial, não eliminação total

A bula de 2020 relata ausência de dados de uso em gestantes e de informações sobre presença no leite humano ou efeitos no lactente. Isso é uma lacuna de evidência, não demonstração de segurança. Hipersensibilidade à formulação e infecção no local constam como contraindicações formais.[8]

10. Protocolo e Expectativas de Resultado

Linha do tempo de três sessões de colagenase separadas por aproximadamente 21 dias e frequência de equimose
Regime histórico dos estudos: sessões planejadas nos dias 1, 22 e 43, com avaliação principal no dia 71. A frequência de equimose foi 84% na síntese da bula; esse percentual não informa quantos dias o evento durou. O desenho não constitui recomendação atual de uso.[3][8]

O regime avaliado nos trials de fase 3 seguiu o padrão:

ParâmetroProtocolo dos trials
Número de sessõesAté 3
Intervalo entre sessões~21 dias
Injeções por sessão12 por área tratada, em até 2 áreas por sessão (até 24)
Dose0,84 mg por área tratada (até 1,68 mg por sessão em 2 áreas)

Os resultados principais dos RELEASE foram avaliados no dia 71; a análise volumétrica citada acompanhou imagens até o dia 180. Esses horizontes não demonstram manutenção do resultado por vários anos nem justificam definir um intervalo de retratamento.[3][6]

11. Limitações da Evidência Disponível

O que a literatura ainda não responde com solidez:
  • Comparação direta (head-to-head) randomizada entre CCH e subcisão — a diferença de eficácia entre as duas é inferida indiretamente, não comprovada em ensaio comparativo direto
  • Durabilidade multi-anual do resultado, com dados de seguimento mais longos que os dos trials pivotais
  • Eficácia e segurança em áreas fora das nádegas, que carecem da mesma robustez regulatória
  • Efeito em graus mais leves de celulite (os trials incluíram apenas grau 3–4)

A publicação dos ensaios foi acompanhada por um comentário editorial.[4] Ao interpretar os desfechos apresentados, é necessário distinguir significância estatística, magnitude absoluta e benefício percebido: uma diferença favorável ao tratamento não implica eliminação da celulite ou satisfação de todas as participantes.

Também importa a independência da evidência: a declaração de conflitos dos ensaios RELEASE identifica autores empregados da Endo e pesquisadores com vínculos de consultoria ou participação no desenvolvimento do produto.[3] Isso não invalida os resultados, mas reforça a necessidade de avaliar desenho, relato de eventos e replicação independente.

12. Perguntas Frequentes

O que é a colagenase de Clostridium histolyticum usada na celulite?

QWO é uma combinação injetável de duas colagenases bacterianas, AUX-I e AUX-II. A hidrólise de colágeno fundamenta a hipótese de ação nos septos, mas a bula de aprovação informa que o mecanismo exato na celulite é desconhecido. A indicação aprovada nos EUA em 2020 restringiu-se à celulite moderada a severa nas nádegas de mulheres adultas.

A colagenase para celulite funciona em qualquer parte do corpo?

Não. A aprovação FDA e os trials pivotais RELEASE-1 e RELEASE-2 avaliaram exclusivamente a região glútea (nádegas) de mulheres adultas. Uso em coxas ou outras áreas é off-label, com dados de segurança e eficácia mais limitados — a literatura mais robusta é específica para o glúteo.

Colagenase ou subcisão (Cellfina/Avéli): qual tem mais evidência?

As duas técnicas não têm o mesmo nível de evidência. A colagenase tem dois ensaios de fase 3 randomizados, duplo-cegos e controlados por placebo (RELEASE-1 e RELEASE-2). A subcisão guiada tem base menos robusta: o seguimento estendido de Cellfina acompanhou 45 participantes de um estudo aberto de braço único até 3 anos; não foi um ensaio randomizado. Uma metanálise de 2024 reuniu estudos separados das duas técnicas. Os testes entre subgrupos não demonstraram diferença para equimose, dor ou induração; a maior estimativa de descoloração com colagenase também vem de comparação indireta. Esses dados não estabelecem superioridade causal nem equivalência, e a publicação tem inconsistências entre seu resumo e os gráficos, discutidas no artigo. A metanálise citada não fornece uma comparação randomizada direta entre as técnicas.

Quais os principais efeitos colaterais da colagenase para celulite?

O evento adverso mais comum é a equimose no local da injeção, relatada em 84% das participantes nos ensaios clínicos do produto e estimada em 89% (IC95% 71–96%) na análise de equimose de 2024, que agrupou quatro estudos de colagenase. Também são frequentes dor, endurecimento (induração), prurido, vermelhidão e edema. A maioria dos eventos é leve a moderada e resolve em semanas. A bula adverte sobre reações alérgicas graves, incluindo anafilaxia; os ensaios citados não permitem estimar com precisão sua frequência.

Quantas sessões de colagenase são necessárias para celulite?

Os trials de fase 3 utilizaram até 3 sessões de tratamento, com aproximadamente 21 dias de intervalo entre elas, e 12 injeções por área tratada, em até 2 áreas por sessão (até 24 injeções). Esse é o regime histórico dos estudos, não uma recomendação atual de uso; a clínica não oferece QWO.

O QWO está disponível no Brasil?

A clínica não oferece QWO. A fonte primária consultada documenta o anúncio de cessação da produção e venda pela Endo em dezembro de 2022. A aprovação norte-americana não autoriza uso no Brasil; esta revisão não confirmou um registro brasileiro vigente para essa indicação.

13. Conclusão: Onde a Colagenase se Encaixa no Arsenal Terapêutico

A aprovação de QWO em 2020 introduziu uma abordagem farmacológica baseada na hidrólise de colágeno para celulite glútea; seu mecanismo clínico exato permanece uma limitação do conhecimento. A evidência de fase 3 (RELEASE-1/RELEASE-2) confirma superioridade estatística sobre placebo, com efeito absoluto modesto e perfil de eventos adversos em que a equimose foi frequente.

Frente à subcisão, a colagenase representava uma opção sem instrumento cortante, mas sem vantagem de eficácia comprovada em comparação direta. O anúncio da Endo em dezembro de 2022 torna necessário distinguir a evidência dos estudos da disponibilidade comercial. A experiência da colagenase ilustra por que superioridade estatística sobre placebo, magnitude de melhora e aceitabilidade dos eventos adversos precisam ser avaliadas separadamente.[9]

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Subcisão, bioestimuladores ou radiofrequência — cada tecnologia tem um mecanismo e uma evidência diferentes. Agende sua avaliação para um plano baseado no seu grau de celulite. (A colagenase injetável discutida neste artigo não é ofertada pela clínica.)

Referências Científicas

  1. Khan MH, Victor F, Rao B, Sadick NS. Treatment of cellulite: Part I. Pathophysiology. J Am Acad Dermatol. 2010;62(3):361-70; quiz 371-2. DOI 10.1016/j.jaad.2009.10.042. PMID 20159304
  2. Sadick NS, Goldman MP, Liu G, Shusterman NH, McLane MP, Hurley D, et al. Collagenase Clostridium Histolyticum for the Treatment of Edematous Fibrosclerotic Panniculopathy (Cellulite): A Randomized Trial. Dermatol Surg. 2019;45(8):1047-1056. DOI 10.1097/DSS.0000000000001803. PMID 30829779
  3. Kaufman-Janette J, Joseph JH, Kaminer MS, Clark J, Fabi SG, Gold MH, et al. Collagenase Clostridium Histolyticum-aaes for the Treatment of Cellulite in Women: Results From Two Phase 3 Randomized, Placebo-Controlled Trials. Dermatol Surg. 2021;47(5):649-656. DOI 10.1097/DSS.0000000000002952. PMID 33840781
  4. Draelos ZD. Commentary on Collagenase Clostridium Histolyticum-Aaes for the Treatment of Cellulite in Women: Results From 2 Phase 3 Randomized, Placebo-Controlled Trials. Dermatol Surg. 2021;47(5):657. DOI 10.1097/DSS.0000000000002968. PMID 33625138
  5. Kaminer MS, Coleman WP 3rd, Weiss RA, Robinson DM, Grossman J. A Multicenter Pivotal Study to Evaluate Tissue Stabilized-Guided Subcision Using the Cellfina Device for the Treatment of Cellulite With 3-Year Follow-Up. Dermatol Surg. 2017;43(10):1240-1248. DOI 10.1097/DSS.0000000000001218. PMID 28661995
  6. Hartman NN, Almukhtar RM, Wood ES, Fabi SG. Collagenase Clostridium Histolyticum-aaes Injections for Volumetric Change of Cellulite Dimples and Gluteal Contouring. Dermatol Surg. 2023;49(4):383-386. DOI 10.1097/DSS.0000000000003727. PMID 36826346
  7. Foppiani JA, Raska O, Galinaud C, Stearns S, Hernandez Alvarez A, Taritsa IC, et al. Comparing Collagenase and Tissue Subcision for Cellulite Treatment of the Buttock and Thigh Regions: A Systematic Review and Meta-analysis. Plast Reconstr Surg Glob Open. 2024;12(6):e5857. DOI 10.1097/GOX.0000000000005857. PMID 38911581
  8. U.S. Food and Drug Administration. QWO: prescribing information, aprovação inicial de julho de 2020. Seções 2, 4–6, 8, 11–12 e 14. Bula de aprovação de 2020. Documento histórico, não apresentado como última versão.
  9. Endo International. Endo to Cease Production and Sale of Qwo. 6 dez. 2022. Comunicado da fabricante.
  10. DiBernardo BE, Sasaki GH, Katz BE, Hunstad JP, Petti C, Burns AJ. A Multicenter Study for Cellulite Treatment Using a 1440-nm Nd:YAG Wavelength Laser with Side-Firing Fiber. Aesthet Surg J. 2016;36(3):335-343. DOI 10.1093/asj/sjv203. PMID 26879299.
Aviso importante: Este artigo tem finalidade informativa e educacional, não substitui consulta com profissional de saúde. Os resultados apresentados são baseados em médias de estudos clínicos e podem variar entre indivíduos. Consulte um profissional qualificado antes de iniciar qualquer procedimento.
TA
Talita Almeida
Dra. Talita Almeida — COREN-SP 427.906 · ORCID 0009-0003-6199-1872
Revisão técnica: Dr. Alessandro Borges Alla — Médico · CRM-SP 118.136 · ORCID 0009-0003-0621-4755
Especialista em procedimentos estéticos minimamente invasivos, com foco em harmonização corporal baseada em evidências. Clínica em Moema, São Paulo.