Corte anatômico da celulite com injeção localizada de colagenase junto ao septo fibroso
Representação anatômica da depressão causada por um septo fibroso vertical e da deposição localizada da enzima no tecido subcutâneo.
Índice do Artigo
  1. Introdução
  2. Mecanismo de ação
  3. Trial de fase 2
  4. RELEASE-1 e RELEASE-2
  5. Aprovação FDA e QWO
  6. Colagenase vs. subcisão
  7. Comparação com RF e laser
  8. Perfil de segurança
  9. Quem é candidata
  10. Protocolo e expectativas
  11. Limitações da evidência
  12. Perguntas frequentes
  13. Conclusão
⚠️ Nota de atualidade (agosto de 2026): o QWO (CCH-aaes) foi descontinuado comercialmente pela Endo em dezembro de 2022 e não está disponível em nenhum mercado. Esta revisão analisa a evidência publicada de uma classe terapêutica hoje indisponível.
Resposta rápida

A colagenase injetável funciona para celulite?

Sim, com eficácia estatisticamente demonstrada, porém modesta em magnitude absoluta. Nos dois ensaios clínicos de fase 3 (RELEASE-1 e RELEASE-2), a colagenase de Clostridium histolyticum (CCH-aaes, comercializada como QWO nos EUA) obteve resposta composta de pelo menos 2 níveis de melhora em 7,6% e 5,6% das pacientes tratadas, contra 1,9% e 0,5% no grupo placebo — diferença estatisticamente significativa (p ≤ 0,006), mas que deixa claro que a maioria das pacientes obtém melhora parcial, não eliminação da celulite.[3]

A aprovação do FDA (2020) é restrita a nádegas de mulheres adultas com celulite moderada a severa. O evento adverso mais comum é a equimose no local da injeção, relatada em 84% das participantes nos ensaios clínicos do produto[3] e estimada em 89% (IC95% 71–96%) na metanálise de 2024 que agrupou cinco estudos de colagenase.[7] Não há ensaio clínico randomizado comparando CCH diretamente contra subcisão (Cellfina/Avéli) — a comparação disponível vem de uma metanálise que reúne estudos separados de cada técnica, não um head-to-head direto.

Principais Achados Científicos
  • FDA aprovou a colagenase (QWO/CCH-aaes) em julho de 2020, exclusivamente para celulite moderada-severa em nádegas de mulheres adultas
  • RELEASE-1 e RELEASE-2 (fase 3, n = 843): resposta composta ≥2 níveis em 7,6% e 5,6% vs. 1,9% e 0,5% no placebo
  • Mecanismo: duas colagenases bacterianas (AUX-I/AUX-II) hidrolisam especificamente colágeno tipo I e III dos septos fibrosos
  • Metanálise de 2024 (14 estudos, 1.254 pacientes): equimose mais frequente na subcisão (99%) que na colagenase (89%), embora os intervalos de confiança de 95% se sobreponham (85–99% vs 71–96%), ou seja, a diferença não é necessariamente significativa; dor com necessidade de analgésico mais frequente na colagenase (74% vs 60%)
  • Protocolo dos trials: até 3 sessões, ~21 dias de intervalo, 12 injeções por área tratada (até 2 áreas por sessão)
  • Produto descontinuado comercialmente pela Endo em dezembro de 2022 — decisão comercial e de tolerabilidade, sem revogação do registro pelo FDA
  • Não há RCT comparando CCH e subcisão diretamente — apenas metanálise de estudos independentes

1. Introdução: Uma Nova Classe de Tratamento Injetável

A celulite — mais precisamente descrita como uma alteração estrutural da junção derme-subcutâneo — afeta a grande maioria das mulheres pós-puberdade, independentemente de peso ou condicionamento físico.[1] Por décadas, o arsenal terapêutico se dividiu entre tecnologias de energia (radiofrequência, laser, ondas de choque), com resultados modestos e temporários, e a subcisão mecânica, que rompe fisicamente os septos fibrosos com uma agulha ou lâmina.

A colagenase de Clostridium histolyticum (abreviada CCH, na formulação específica para celulite chamada CCH-aaes) representa uma terceira via: em vez de energia ou corte mecânico, a enzima digere quimicamente o colágeno que compõe os septos fibrosos responsáveis pela tração da pele. É a mesma classe de enzima já usada há mais de uma década para contratura de Dupuytren e doença de Peyronie (nome comercial Xiaflex), reaproveitada para uma nova indicação estética.

Em 2020, o FDA aprovou a primeira formulação injetável específica para celulite sob o nome comercial QWO, tornando-se o primeiro medicamento injetável aprovado para essa indicação nos Estados Unidos.

2. Mecanismo de Ação: Duas Enzimas, Um Alvo Molecular

Comparação anatômica entre septo fibroso tensionado com depressão cutânea e septo liberado com superfície regular
O septo vertical sob tensão traciona a derme e forma a depressão; sua liberação interrompe a tração e permite redistribuição do tecido adiposo. A figura representa o mecanismo estrutural, não um resultado individual garantido.
Difusão localizada de atividade enzimática ao longo do plano de um septo fibroso
Representação da ação confinada ao plano septal: o realce acompanha o feixe fibroso e não implica difusão indiscriminada pelo tecido adiposo adjacente.

A CCH-aaes é composta por duas colagenases produzidas pela bactéria Clostridium histolyticum — a Colagenase Classe I (AUX-I) e a Colagenase Classe II (AUX-II) — combinadas em proporção de massa 1:1. As duas enzimas atuam em sítios distintos da molécula de colágeno, o que confere um efeito hidrolítico sinérgico maior do que qualquer uma isoladamente teria.

  • Especificidade molecular: as colagenases hidrolisam preferencialmente colágeno tipo I e tipo III sob condições fisiológicas — os principais componentes estruturais dos septos fibrosos
  • Alvo anatômico: quando injetada na depressão da celulite, a enzima atua sobre o septo fibroso tracionado à derme, rompendo-o enzimaticamente e aliviando a tensão local que produz a depressão visível na superfície da pele
  • Sem energia térmica ou corte: ao contrário de RF/laser (dano térmico controlado) ou subcisão (corte mecânico com agulha/cânula), o mecanismo é puramente enzimático
Nota técnica: a hidrólise enzimática do colágeno tipo I/III é o mesmo racional farmacológico usado na CCH para contratura de Dupuytren e doença de Peyronie — a diferença está na formulação, dose e protocolo de injeção, adaptados especificamente para os septos subcutâneos superficiais da celulite.
Colagenase fragmentando seletivamente um feixe de fibras de colágeno
Representação microscópica do mecanismo: enzimas aderem ao feixe de colágeno sob tensão e produzem clivagens localizadas, gerando fragmentos menores sem destruição indiscriminada do tecido circundante.

3. Trial de Fase 2: Prova de Conceito

Evidência Moderada — Antes dos trials pivotais de fase 3, um ensaio randomizado, duplo-cego, controlado por placebo avaliou a CCH para o tratamento da paniculopatia edemato-fibroesclerótica (nome técnico da celulite) em mulheres adultas. O estudo comparou diferentes protocolos de dose e confirmou o sinal de eficácia que justificou avançar para fase 3, além de estabelecer o regime de até 3 sessões com aproximadamente 21 dias de intervalo entre elas.[2]

No ensaio de fase 2, 375 mulheres (idade média 46,5 anos) foram randomizadas para CCH (n = 189) ou placebo (n = 186). No dia 71, as taxas de resposta composta de 2 níveis e de 1 nível foram de 10,6% e 44,6% com CCH, contra 1,6% e 17,9% com placebo (p < 0,001 para ambos os desfechos), resultado que justificou o avanço para a fase 3 e consolidou a dose de 0,84 mg por área tratada.[2]

4. RELEASE-1 e RELEASE-2: Os Trials Pivotais de Fase 3

Gráfico das taxas de resposta da colagenase e do placebo nos estudos RELEASE-1 e RELEASE-2
Resposta composta nos dois estudos pivotais. As barras preservam os percentuais publicados e distinguem melhora de pelo menos um nível da resposta mais rigorosa de pelo menos dois níveis.

Evidência Forte — Dois ensaios clínicos de fase 3, randomizados, duplo-cegos, controlados por placebo e de desenho idêntico (RELEASE-1, NCT03428750; RELEASE-2, NCT03446781) constituem a base regulatória da aprovação FDA. Mulheres adultas com celulite moderada a severa nas nádegas (grau 3–4 nas escalas PR-PCSS e CR-PCSS) receberam até 3 sessões de CCH 0,84 mg por área tratada ou placebo, injetadas subcutaneamente nas depressões marcadas.[3]

EstudoN (CCH vs. placebo)Resposta composta ≥2 níveisSignificância
RELEASE-1210 vs. 2137,6% vs. 1,9%p = 0,006
RELEASE-2214 vs. 2065,6% vs. 0,5%p = 0,002

Ao todo, 843 mulheres receberam pelo menos uma injeção nos dois estudos combinados.[3] O desfecho primário — resposta composta de pelo menos 2 níveis simultâneos de melhora tanto na avaliação da paciente quanto do investigador — favoreceu consistentemente o grupo CCH em ambos os estudos, com significância estatística mantida.

O desfecho menos restritivo, de resposta composta de pelo menos 1 nível, mostra magnitude bem maior e ajuda a dimensionar o efeito real: 37,1% vs 17,8% no RELEASE-1 e 41,6% vs 11,2% no RELEASE-2 (p < 0,001 em ambos).[3] A leitura honesta é que cerca de 4 em cada 10 pacientes tratadas obtiveram melhora perceptível de 1 nível, enquanto menos de 1 em 10 atingiu o desfecho rigoroso de 2 níveis simultâneos. Poucas participantes descontinuaram por evento adverso (≤4,3%).

Uma análise por imagem tridimensional em 58 mulheres e 403 depressões documentou redução do volume negativo total das depressões de 27% no dia 90 e 26% no dia 180 (p < 0,001 e p = 0,002), com contorno glúteo global classificado como melhorado em 27% das participantes no dia 90 — um desfecho objetivo que complementa as escalas subjetivas dos trials pivotais, embora provenha de um estudo aberto, subanálise patrocinada pela fabricante — limitação que recomenda a mesma cautela interpretativa aplicada ao estudo pivotal da subcisão.[6]

5. Aprovação FDA e o Produto QWO

Em julho de 2020, o FDA aprovou a colagenase clostridium histolyticum-aaes sob o nome comercial QWO (Endo International) para o tratamento de celulite moderada a severa nas nádegas de mulheres adultas — tornando-se o primeiro tratamento injetável aprovado pela agência especificamente para essa indicação.[3] O produto chegou ao mercado americano em 2021, mas teve vida comercial curta: em 6 de dezembro de 2022 a Endo anunciou a cessação da produção e da venda do QWO, alegando a extensão e a variabilidade das equimoses após a primeira aplicação e o potencial de descoloração cutânea prolongada. A empresa havia conduzido um estudo aberto dedicado (APHRODITE) para testar intervenções mitigadoras da equimose; nenhuma das coortes obteve redução consistente o bastante para reverter a percepção de mercado. É importante distinguir: não houve retirada por sinal de segurança novo nem revogação do registro pelo FDA — a aprovação permanece formalmente válida e a decisão foi comercial e de tolerabilidade. Na prática, porém, a colagenase para celulite não está comercialmente disponível desde então, o que converte este artigo em uma revisão de uma classe terapêutica descontinuada, cujo maior valor hoje é a lição sobre a distância entre significância estatística e aceitabilidade clínica.

Escopo da aprovação: a bula do FDA e os trials pivotais cobrem exclusivamente a região glútea. Uso em coxas ou outras áreas do corpo não tem a mesma base de evidência regulatória e é considerado uso off-label pelos padrões da FDA — uma limitação relevante ao avaliar promessas de "tratar celulite" de forma genérica.

6. Colagenase vs. Subcisão (Cellfina/Avéli)

A subcisão mecânica — popularizada pelos dispositivos Cellfina e, mais recentemente, Avéli — rompe fisicamente os septos fibrosos com uma cânula ou lâmina guiada. É a abordagem historicamente mais estudada para tratar a causa estrutural da celulite, com o estudo pivotal do Cellfina relatando manutenção do benefício por até 3 anos após sessão única — ressalvando que se trata de um estudo aberto, de braço único e com 45 participantes, sem grupo controle e, portanto, com nível de evidência inferior ao dos ensaios de fase 3 da colagenase.[5]

Uma revisão sistemática com metanálise publicada em 2024 reuniu 14 estudos (5 de CCH, 9 de subcisão), totalizando 1.254 pacientes (465 com CCH, 789 com subcisão), e comparou os perfis de eficácia e segurança das duas abordagens.[7] É importante destacar que não existe até o momento um ensaio clínico randomizado head-to-head comparando as duas técnicas diretamente na mesma coorte de pacientes — a comparação é indireta, entre estudos separados.

DesfechoColagenase (CCH)Subcisão (TS)
Equimose~89%~99%
Dor com necessidade de analgésico~74%~60%
Induração7% (IC95% 5–11%)7% (IC95% 2–25%)
Descoloração da pele~16%~7%
InvasividadeInjeção (agulha fina)Cânula/lâmina subcutânea

Em síntese: a subcisão tende a gerar mais equimose (praticamente universal), enquanto a colagenase tende a gerar mais dor que exige analgesia e mais descoloração da pele. Ambas são consideradas eficazes e minimamente invasivas frente às alternativas cirúrgicas, mas o perfil de efeitos colaterais — não a eficácia comparativa direta, que carece de estudo head-to-head — é o principal diferenciador documentado até hoje. A induração foi equivalente entre as técnicas (7% em ambas), com intervalo de confiança bem mais amplo na subcisão pela maior heterogeneidade entre os estudos incluídos.[7] Vale registrar ainda que a metanálise agregou estudos de região glútea e de coxas, o que introduz heterogeneidade anatômica na comparação.

7. Comparação com Radiofrequência e Laser

Tecnologias de energia (radiofrequência monopolar/bipolar, laser subdérmico) atuam predominantemente sobre a microcirculação, o edema e, em menor grau, sobre estímulo de colágeno novo — mas não rompem diretamente os septos fibrosos tracionados. Por isso, seu efeito sobre a depressão estrutural profunda tende a ser mais modesto e, em geral, a demandar sessões de manutenção periódicas, cujo intervalo ideal não está padronizado na literatura — diferentemente do racional mecanístico direto da colagenase e da subcisão.

Evidência Moderada — Não há ensaios comparando diretamente CCH contra RF ou laser em desenho randomizado. A escolha entre essas classes de tratamento costuma ser guiada pelo mecanismo dominante identificado na avaliação clínica: depressão fixa e bem delimitada (favorece abordagem estrutural — CCH ou subcisão) versus componente difuso de flacidez/edema (favorece energia).

8. Perfil de Segurança e Eventos Adversos

O evento adverso mais frequente e virtualmente esperado da colagenase injetável é a equimose no local de aplicação, relatada em 84% das pacientes tratadas nos trials de fase 3.[3] Outros eventos comuns incluem:

  • Dor no local da injeção, por vezes exigindo analgesia
  • Endurecimento (induração) transitório da área tratada
  • Prurido, eritema e edema local
  • Sensação de calor na região tratada

A grande maioria dos eventos é leve a moderada, autolimitada, e resolve dentro de dias a poucas semanas. Reações de hipersensibilidade mais graves são raras — motivo pelo qual o histórico de alergia deve ser rastreado na triagem, assim como uso de anticoagulantes (que podem intensificar a equimose).

Expectativa realista sobre downtime: diferentemente de procedimentos com downtime cosmético mínimo, a equimose visível após a colagenase pode durar de 1 a algumas semanas e é praticamente esperada, não uma complicação rara — isso deve ser explicitamente comunicado na avaliação, especialmente para pacientes com compromissos sociais/profissionais próximos.

9. Quem é Candidata ao Tratamento

Com base no desenho dos trials pivotais, o perfil de candidata mais respaldado pela evidência é:

  • Mulher adulta com celulite moderada a severa (grau 3–4 nas escalas PR-PCSS/CR-PCSS) na região glútea
  • Depressões bem delimitadas e localizáveis, passíveis de marcação individual para injeção
  • Sem histórico de alergia a colagenase ou aos excipientes da formulação
  • Ciente do downtime esperado (equimose) e das expectativas realistas de melhora parcial, não eliminação total

Não é indicado para gestantes, e a segurança em amamentação não está estabelecida nos trials publicados. A avaliação individual é indispensável para confirmar elegibilidade, mapear as depressões-alvo e alinhar expectativas antes de qualquer decisão terapêutica.

10. Protocolo e Expectativas de Resultado

Linha do tempo de três sessões de colagenase separadas por aproximadamente 21 dias e frequência de equimose
Esquema dos estudos com três sessões em intervalos aproximados de 21 dias. A equimose foi frequente (84%) e é relevante para compreender o downtime; o desenho não constitui recomendação de uso atual.

O regime avaliado nos trials de fase 3 seguiu o padrão:

ParâmetroProtocolo dos trials
Número de sessõesAté 3
Intervalo entre sessões~21 dias
Injeções por sessão12 por área tratada, em até 2 áreas por sessão (até 24)
Dose0,84 mg por área tratada (até 1,68 mg por sessão em 2 áreas)

A melhora reportada nos estudos é progressiva ao longo das semanas seguintes a cada sessão, à medida que a enzima atua e o tecido remodela. Dados de seguimento de longo prazo (além do período dos trials pivotais) e de durabilidade multi-anual comparável ao Cellfina ainda são mais limitados na literatura publicada — um ponto de atenção ao definir expectativa de manutenção.

11. Limitações da Evidência Disponível

O que a literatura ainda não responde com solidez:
  • Comparação direta (head-to-head) randomizada entre CCH e subcisão — a diferença de eficácia entre as duas é inferida indiretamente, não comprovada em ensaio comparativo direto
  • Durabilidade multi-anual do resultado, com dados de seguimento mais longos que os dos trials pivotais
  • Eficácia e segurança em áreas fora das nádegas, que carecem da mesma robustez regulatória
  • Efeito em graus mais leves de celulite (os trials incluíram apenas grau 3–4)

O próprio comentário editorial que acompanhou a publicação dos trials pivotais na Dermatologic Surgery destacou a tensão entre a significância estatística do desfecho composto e a percepção prática de benefício pela paciente, apontando a necessidade de expectativas calibradas na comunicação clínica.[4]

12. Perguntas Frequentes

O que é a colagenase de Clostridium histolyticum usada na celulite?

É uma enzima injetável (CCH-aaes, nome comercial QWO nos EUA) composta por duas colagenases bacterianas (AUX-I e AUX-II) que hidrolisam especificamente colágeno tipo I e III. Injetada nas depressões da celulite, ela quebra enzimaticamente os septos fibrosos que tracionam a derme para baixo, sem incisão. É aprovada pelo FDA desde 2020 exclusivamente para celulite moderada a severa nas nádegas de mulheres adultas.

A colagenase para celulite funciona em qualquer parte do corpo?

Não. A aprovação FDA e os trials pivotais RELEASE-1 e RELEASE-2 avaliaram exclusivamente a região glútea (nádegas) de mulheres adultas. Uso em coxas ou outras áreas é off-label, com dados de segurança e eficácia mais limitados — a literatura mais robusta é específica para o glúteo.

Colagenase ou subcisão (Cellfina/Avéli): qual tem mais evidência?

As duas técnicas não têm o mesmo nível de evidência. A colagenase tem dois ensaios de fase 3 randomizados, duplo-cegos e controlados por placebo (RELEASE-1 e RELEASE-2). A subcisão guiada tem base menos robusta: o estudo pivotal do Cellfina foi aberto, de braço único, com 45 participantes e seguimento de 3 anos. Uma revisão sistemática com metanálise de 2024 comparou os dois métodos indiretamente e encontrou perfis de eventos adversos distintos: mais equimose na subcisão (99% vs 89%), mais dor exigindo analgésico na colagenase (74% vs 60%) e mais descoloração da pele na colagenase (16% vs 7%), com induração equivalente (7% em ambas). Não existe ensaio comparativo direto head-to-head.

Quais os principais efeitos colaterais da colagenase para celulite?

O evento adverso mais comum é a equimose no local da injeção, relatada em 84% das participantes nos ensaios clínicos do produto e estimada em 89% (IC95% 71–96%) na metanálise de 2024 que agrupou cinco estudos de colagenase. Também são frequentes dor, endurecimento (induração), prurido, vermelhidão e edema. A maioria dos eventos é leve a moderada e resolve em semanas. Reação alérgica grave é rara mas descrita.

Quantas sessões de colagenase são necessárias para celulite?

Os trials de fase 3 utilizaram até 3 sessões de tratamento, com aproximadamente 21 dias de intervalo entre elas, e 12 injeções por área tratada, em até 2 áreas por sessão (até 24 injeções). O protocolo é definido pela gravidade e número de depressões na avaliação individual.

O QWO está disponível no Brasil?

Não. O QWO nunca teve registro na Anvisa para a indicação de celulite e, desde dezembro de 2022, não está disponível em nenhum mercado — a fabricante (Endo) cessou a produção e a venda mundialmente por causa do perfil de equimose e descoloração cutânea. A aprovação do FDA citada neste artigo é histórica. Não há, portanto, oferta legal ou comercial deste produto no Brasil.

13. Conclusão: Onde a Colagenase se Encaixa no Arsenal Terapêutico

A colagenase de Clostridium histolyticum adicionou, em 2020, uma alternativa farmacológica de mecanismo direto ao tratamento da celulite glútea — rompendo enzimaticamente os septos fibrosos sem cortes. A evidência de fase 3 (RELEASE-1/RELEASE-2) confirma superioridade estatística sobre placebo, com efeito absoluto modesto e perfil de segurança dominado pela equimose quase universal.

Frente à subcisão, a colagenase representava uma opção sem instrumento cortante, mas sem vantagem de eficácia comprovada em comparação direta. A questão tornou-se largamente histórica com a descontinuação comercial do QWO em dezembro de 2022: na prática clínica atual, a abordagem estrutural da celulite permanece ancorada na subcisão, e a experiência da colagenase serve sobretudo como estudo de caso sobre a diferença entre superioridade estatística sobre placebo e aceitabilidade real do downtime pela paciente.

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Subcisão, bioestimuladores ou radiofrequência — cada tecnologia tem um mecanismo e uma evidência diferentes. Agende sua avaliação para um plano baseado no seu grau de celulite. (A colagenase injetável discutida neste artigo não está disponível comercialmente e não é ofertada pela clínica.)

Referências Científicas

  1. Khan MH, Victor F, Rao B, Sadick NS. Treatment of cellulite: Part I. Pathophysiology. J Am Acad Dermatol. 2010;62(3):361-70; quiz 371-2. DOI 10.1016/j.jaad.2009.10.042. PMID 20159304
  2. Sadick NS, Goldman MP, Liu G, Shusterman NH, McLane MP, Hurley D, et al. Collagenase Clostridium Histolyticum for the Treatment of Edematous Fibrosclerotic Panniculopathy (Cellulite): A Randomized Trial. Dermatol Surg. 2019;45(8):1047-1056. DOI 10.1097/DSS.0000000000001803. PMID 30829779
  3. Kaufman-Janette J, Joseph JH, Kaminer MS, Clark J, Fabi SG, Gold MH, et al. Collagenase Clostridium Histolyticum-aaes for the Treatment of Cellulite in Women: Results From Two Phase 3 Randomized, Placebo-Controlled Trials. Dermatol Surg. 2021;47(5):649-656. DOI 10.1097/DSS.0000000000002952. PMID 33840781
  4. Draelos ZD. Commentary on Collagenase Clostridium Histolyticum-Aaes for the Treatment of Cellulite in Women: Results From 2 Phase 3 Randomized, Placebo-Controlled Trials. Dermatol Surg. 2021;47(5):657. DOI 10.1097/DSS.0000000000002968. PMID 33625138
  5. Kaminer MS, Coleman WP 3rd, Weiss RA, Robinson DM, Grossman J. A Multicenter Pivotal Study to Evaluate Tissue Stabilized-Guided Subcision Using the Cellfina Device for the Treatment of Cellulite With 3-Year Follow-Up. Dermatol Surg. 2017;43(10):1240-1248. DOI 10.1097/DSS.0000000000001218. PMID 28661995
  6. Hartman NN, Almukhtar RM, Wood ES, Fabi SG. Collagenase Clostridium Histolyticum-aaes Injections for Volumetric Change of Cellulite Dimples and Gluteal Contouring. Dermatol Surg. 2023;49(4):383-386. DOI 10.1097/DSS.0000000000003727. PMID 36826346
  7. Foppiani JA, Raska O, Galinaud C, Stearns S, Hernandez Alvarez A, Taritsa IC, et al. Comparing Collagenase and Tissue Subcision for Cellulite Treatment of the Buttock and Thigh Regions: A Systematic Review and Meta-analysis. Plast Reconstr Surg Glob Open. 2024;12(6):e5857. DOI 10.1097/GOX.0000000000005857. PMID 38911581
Aviso importante: Este artigo tem finalidade informativa e educacional, não substitui consulta com profissional de saúde. Os resultados apresentados são baseados em médias de estudos clínicos e podem variar entre indivíduos. Consulte um profissional qualificado antes de iniciar qualquer procedimento.
TA
Talita Almeida
Dra. Talita Almeida — COREN-SP 427.906 · ORCID 0009-0003-6199-1872
Revisão técnica: Dr. Alessandro Borges Alla — Médico · CRM-SP 118.136 · ORCID 0009-0003-0621-4755
Especialista em procedimentos estéticos minimamente invasivos, com foco em harmonização corporal baseada em evidências. Clínica em Moema, São Paulo.