Resposta Rápida

qual é o melhor momento para fazer procedimentos corporais em quem usa ou usou um agonista de GLP-1?

A literatura não define uma data, mas aponta uma condição: peso estável por um período documentado, com um plano de manutenção já combinado com o médico prescritor. Procedimentos cujo resultado depende do volume e do contorno tendem a ser mais previsíveis nessa fase do que durante a perda ativa. Se houver interrupção do medicamento, o risco de reganho deve entrar no planejamento antes de qualquer etapa. Qualquer sedação exige que a equipe saiba do uso do medicamento.

Principais Achados Científicos
  • O uso crescente de agonistas do receptor de GLP-1 e de agonistas duplos GIP/GLP-1 no tratamento da obesidade trouxe ao consultório estético uma pergunta que não é apenas "o que fazer com a flacidez", mas "quando fazer e em que ordem".
  • Os ensaios de fase 3 mostram perda média relevante e, nos estudos de retirada, reganho substancial após a suspensão.
  • Uma revisão sistemática estimou platô de peso em torno de um ano de uso de semaglutida.
  • Não há ensaio controlado que compare momentos diferentes para procedimentos estéticos não cirúrgicos nessa população.

Resumo

O uso crescente de agonistas do receptor de GLP-1 e de agonistas duplos GIP/GLP-1 no tratamento da obesidade trouxe ao consultório estético uma pergunta que não é apenas "o que fazer com a flacidez", mas "quando fazer e em que ordem". Esta revisão narrativa examina a literatura acessível até 10 de outubro de 2026 sobre quatro eixos: trajetória do peso durante e após o tratamento (perda ativa, platô, manutenção, interrupção e reganho); composição corporal e preservação de massa muscular; o que a cirurgia plástica pós-bariátrica e as primeiras séries pós-GLP-1 dizem sobre o momento do contorno corporal; e segurança periprocedimento, com destaque para esvaziamento gástrico retardado e sedação. Os ensaios de fase 3 mostram perda média relevante e, nos estudos de retirada, reganho substancial após a suspensão. Uma revisão sistemática estimou platô de peso em torno de um ano de uso de semaglutida. Não há ensaio controlado que compare momentos diferentes para procedimentos estéticos não cirúrgicos nessa população. A síntese propõe critérios de decisão (estabilidade documentada, plano de manutenção definido pelo prescritor, avaliação de força e nutrição, triagem de sedação) em vez de prazos fixos, e reserva a decisão sobre iniciar, manter ou suspender medicação ao médico prescritor.

Palavras-chave: agonistas do receptor de GLP-1; semaglutida; tirzepatida; contorno corporal; flacidez cutânea; massa magra; reganho de peso; sedação; planejamento estético.

1. Por que o momento virou a pergunta central

Os ensaios que consolidaram os agonistas de GLP-1 no tratamento da obesidade descrevem perdas médias de peso maiores do que as habitualmente obtidas com intervenção comportamental isolada. No STEP 1, adultos sem diabetes que receberam semaglutida 2,4 mg semanal por 68 semanas tiveram variação média de peso de -14,9%, contra -2,4% com placebo [1]. No SURMOUNT-1, a tirzepatida produziu, na semana 72, variações médias de -15,0%, -19,5% e -20,9% conforme a dose, contra -3,1% com placebo [2]. Esses números são médias de populações selecionadas; a resposta individual varia bastante, e não servem para prever o resultado de uma pessoa específica.

Para o planejamento estético, importa menos a média final do que a forma da curva. Um procedimento que mexa em volume, contorno ou tensão de pele no meio dessa curva será julgado sobre uma base que ainda vai mudar.

O texto sobre flacidez corporal após GLP-1 descreve opções de tratamento por área, e a revisão sobre face, flacidez e recuperação após GLP-1 discute deflação facial e tratamentos faciais. Este artigo não repete esse catálogo, e o glúteo, cuja avaliação depende de volume e projeção, será tratado em artigo próprio no fascículo de novembro. A pergunta aqui é anterior: em que fase do peso a pessoa está, o que a composição corporal permite esperar, quais riscos mudam com o medicamento e como ordenar as etapas.

2. Método e limites desta revisão

Trata-se de revisão narrativa crítica, com busca dirigida no PubMed entre 9 e 10 de outubro de 2026. Os termos combinaram agonistas de GLP-1, semaglutida e tirzepatida com contorno corporal, cirurgia plástica, momento cirúrgico, perda de massa magra, sarcopenia, reganho após retirada, esvaziamento gástrico, conteúdo gástrico residual, anestesia e sedação. Foram priorizados ensaios clínicos de fase 3 com desenho de retirada, revisões sistemáticas sobre platô de peso, estudos de composição corporal, documentos de consenso de sociedades e séries de cirurgia de contorno.

Não houve protocolo registrado, seleção em duplicata, avaliação formal de risco de viés nem meta-análise própria. Parte das referências foi lida em texto completo (PubMed Central ou acesso aberto do editor): os documentos de orientação perioperatória [3, 4, 5], as extensões e revisões sobre retirada e exercício [6, 7], o protocolo LEAN-PREP [8], o documento de nutrição [9], o consenso de sarcopenia [10] e as revisões de Mollero, Ersan, Haykal e Çitilcioğlu [11, 12, 13, 14]. Para as demais, a leitura se restringiu ao resumo disponível no PubMed, e isso está indicado no texto quando um número é citado. Os ensaios Lundgren, STEP 4 e SURMOUNT-4, as séries e revisões cirúrgicas de Bruno, Venza, Lewis, Smith e Garbaccio e os estudos de conteúdo gástrico foram conferidos apenas no resumo. Notas de sociedades brasileiras sobre o tema foram procuradas, mas o texto original não pôde ser aberto; por isso não são citadas como fonte (ver seção 8).

Há três limites estruturais. A evidência sobre momento vem sobretudo de cirurgia, e sua transposição para procedimentos não cirúrgicos é feita por analogia, marcada como tal. As séries de cirurgia em usuários de GLP-1 são retrospectivas, pequenas ou baseadas em bancos administrativos. E os ensaios de fase 3 não mediram flacidez, contorno nem satisfação estética.

3. As quatro fases do peso e o que cada uma muda no plano

Uma forma útil de organizar a conversa é localizar a pessoa em uma de quatro fases. Elas não são categorias formais da literatura; são uma ferramenta de raciocínio clínico construída a partir dos dados dos ensaios.

Perda ativa. O peso cai de forma contínua, e volume e medidas mudam de um mês para o outro. Sintomas gastrointestinais são mais frequentes nessa fase [1, 2], e a ingestão reduzida pesa sobre proteína e micronutrientes [9, 15].

Platô. A curva se achata apesar do medicamento. Em revisão sistemática com meta-análise de 12 estudos com semaglutida (n = 13.947), Garbaccio e colaboradores definiram platô como pelo menos um mês com perda inferior a 3% e o estimaram, no resumo, em 53,0 ± 8,2 semanas, com perda média de 16% (± 3,1%) nesse ponto [16]. Os autores concluíram que o peso parece estabilizar entre 8 e 12 meses de uso.

Manutenção. O peso permanece estável por mais tempo, com o medicamento mantido ou com estratégia definida pelo prescritor para depois da suspensão. É a fase em que a avaliação de excesso de pele, gordura localizada e contorno tende a ser mais confiável.

Interrupção e reganho. A suspensão, por decisão médica, efeito adverso, custo ou falta de acesso, é seguida, em média, de recuperação de parte importante do peso perdido.

Tabela 1. Fase do peso e implicações para o planejamento estético

FaseO que caracterizaImplicação para procedimentos de contorno e volumeImplicação para cuidados de pele e superfície
Perda ativaQueda contínua de peso; mais sintomas gastrointestinais; ingestão reduzidaResultado avaliado sobre base instável; etapas que dependem do volume final tendem a ser menos previsíveisCuidados de baixa agressão podem ser discutidos; atenção a hidratação, nutrição e tolerância
PlatôCurva achatada apesar do medicamento; estimativa média em torno de 53 semanas com semaglutida [16]Início da reavaliação de excesso de pele e contorno; ainda sem garantia de estabilidadeMomento razoável para mapear qualidade de pele e flacidez de forma sistemática
ManutençãoPeso estável por período documentado, com plano definido pelo prescritorFase de maior previsibilidade para contorno e tratamento de flacidezPlano completo, com sequência e reavaliações
Interrupção e reganhoRecuperação de parte do peso, em média, nos estudos de retirada [6, 17, 18]Resultado de contorno pode ser alterado; reavaliar antes de prosseguirRevisar metas; discutir se etapas que dependem do peso ganham com nova estabilização

Fonte: síntese dos autores a partir de [1, 2, 6, 16, 17, 18]. As fases são ferramenta de raciocínio, não categorias validadas.

4. Interrupção e reganho: o dado que mais pesa sobre o planejamento

Três estudos de retirada ajudam a dimensionar o problema. No STEP 4, 803 participantes que completaram 20 semanas de semaglutida (perda média de 10,6% na fase inicial) foram randomizados para continuar o medicamento ou trocar para placebo. Da semana 20 à 68, a variação média de peso foi de -7,9% com continuação e de +6,9% com a troca para placebo, diferença de -14,8 pontos percentuais [17].

Na extensão do STEP 1, após 68 semanas de tratamento, medicamento e intervenção de estilo de vida foram suspensos, e um subgrupo representativo de 327 participantes foi acompanhado por mais um ano. No resumo, quem havia recebido semaglutida perdeu em média 17,3% do peso até a semana 68 e recuperou 11,6 pontos percentuais até a semana 120, ficando com perda líquida de 5,6% em relação ao início [6]. As análises dessa extensão foram exploratórias.

No SURMOUNT-4, 670 participantes que perderam em média 20,9% do peso em 36 semanas de tirzepatida foram randomizados para continuar ou trocar para placebo. Da semana 36 à 88, a variação foi de -5,5% com continuação e de +14,0% com placebo; 89,5% dos que continuaram mantiveram ao menos 80% da perda inicial, contra 16,6% no grupo placebo [18].

A revisão de Garbaccio encontrou apenas dois estudos com dados após descontinuação de semaglutida. No resumo, o reganho começou a ser detectado entre 12 e 24 semanas após a suspensão, e os participantes recuperaram 62,7% e 74,3% da maior perda obtida durante o tratamento ao fim da observação [16]. Por isso os autores recomendam cautela com cirurgia de contorno até que o efeito do reganho sobre os resultados esteja mais claro.

Duas consequências práticas decorrem desses números. "Terminar o tratamento" não equivale a "estabilizar o peso": quem pretende suspender o medicamento logo após a meta está entrando em nova fase de instabilidade. E a decisão de manter, reduzir ou suspender cabe ao médico prescritor e à pessoa; o plano estético se adapta a ela, nunca a orienta. O post sobre efeito rebote ao parar Ozempic ou Mounjaro trata o tema para o leitor leigo.

Gráfico com dois painéis comparando continuação do medicamento e troca para placebo: no STEP 4, -7,9% contra +6,9% entre as semanas 20 e 68; no SURMOUNT-4, -5,5% contra +14,0% entre as semanas 36 e 88.
Figura 1. Variação média de peso após a randomização nos estudos de retirada STEP 4 e SURMOUNT-4, continuação versus troca para placebo. Valores dos resumos [17, 18]; curvas entre os pontos são ilustrativas. Arte vetorial composta pela equipe; elementos de fundo gerados por IA.

5. Composição corporal: o que se perde além de gordura

Neeland, Linge e Birkenfeld revisaram os dados disponíveis e descreveram heterogeneidade grande: em alguns estudos, a redução de massa magra corresponde a 40% a 60% do peso total perdido; em outros, a cerca de 15% ou menos [19]. Os autores lembram que massa magra não equivale a músculo esquelético. Na análise de composição corporal por absorciometria de dupla energia (DXA), gordura, tecido magro e conteúdo mineral ósseo são componentes separados; o tecido magro inclui músculo, órgãos e água. O uso genérico de "massa magra" e "massa livre de gordura" em diferentes estudos também precisa ser distinguido antes de comparar resultados. Com base em estudos de ressonância magnética, eles interpretam a redução de volume muscular como, em grande parte, adaptativa e proporcional à perda de peso, com melhora da infiltração gordurosa do músculo. Fazem, porém, uma ressalva: idade mais avançada e gravidade de doença podem tornar a perda relevante para risco de sarcopenia.

Ilustração conceitual de camadas sobrepostas em marfim, rosa-quartzo e ameixa, sugerindo pele, tecido subcutâneo e músculo, com fibras finas em tom de ameixa na camada mais profunda.
Ilustração conceitual gerada por IA, sem escala; não representa anatomia real, exame de imagem ou medida de composição corporal.

Uma revisão narrativa mais recente, de Mollero e colaboradores, chega a conclusão semelhante: a perda de massa magra é em geral proporcional à magnitude da perda de peso e não deve ser lida como sinônimo de perda de músculo ou de toxicidade muscular do fármaco. A revisão destaca que dados sobre função, força e desempenho em pessoas mais velhas ou frágeis ainda são limitados [11].

Sarcopenia, por sua vez, não é definida por uma medida de massa magra isolada. O consenso europeu revisado (EWGSOP2) coloca a força muscular baixa como característica central, usa quantidade e qualidade muscular para confirmar o diagnóstico e reserva o desempenho físico ruim para indicar gravidade [10]. Para o consultório estético, isso tem uma implicação concreta: não cabe diagnosticar sarcopenia a partir de bioimpedância nem de aparência. Quando há suspeita (pessoa mais velha, perda de força percebida, dificuldade para tarefas cotidianas), o caminho é encaminhar para avaliação médica.

Preservar músculo: o que a evidência sustenta

A revisão de Cava, Yeat e Mittendorfer, anterior à era dos agonistas de GLP-1, resume dados sobre perda de peso por dieta: ingestão proteica mais alta ajuda a preservar massa magra e muscular, mas não melhora força por si; exercício aeróbico e de resistência ajudam a preservar massa muscular, e o treino de resistência também melhora força [20].

O documento conjunto de quatro sociedades norte-americanas sobre nutrição no tratamento com GLP-1, lido em texto completo, lembra que no STEP 1, dos 13,6 kg perdidos em média, 8,3 kg (62%) foram de massa gorda e 5,3 kg (38%) de massa magra; o documento faz uma aproximação de cerca de 20% do peso perdido como músculo, assumindo que ele corresponda a aproximadamente metade da massa magra. Essa aproximação não é uma medição de perda muscular no STEP 1: a proporção de músculo dentro da massa magra inicial não demonstra a proporção de músculo perdido durante o tratamento. O mesmo documento lista deficiências nutricionais e perda de músculo e osso entre os desafios, e recomenda avaliar força, função e composição corporal, além de treino de resistência e dieta adequada [9]. Arslan propõe ingestão proteica de pelo menos 1,2 g/kg/dia (até 1,6 g/kg/dia em adultos sem doença renal crônica), em estrutura conduzida por nutricionista [21]. São recomendações de especialistas; metas individuais cabem a nutricionista e médico.

Há um ensaio randomizado que combina exercício e agonista de GLP-1 na fase de manutenção. No estudo de Lundgren e colaboradores, após dieta de baixa caloria com perda média de 13,1 kg, 195 participantes foram randomizados para exercício, liraglutida, combinação ou placebo por um ano. A combinação reduziu o percentual de gordura em 3,9 pontos percentuais, cerca do dobro do observado com exercício ou liraglutida isolados, e foi a única estratégia associada a melhora de hemoglobina glicada, sensibilidade à insulina e capacidade cardiorrespiratória [22]. O estudo usou liraglutida, não semaglutida nem tirzepatida, e uma revisão de 2026 alerta justamente que esse é o único ensaio controlado nesse formato, sem garantia de generalização para os agentes mais novos [7]. A mesma revisão afirma que nenhum ensaio randomizado avaliou diretamente exercício no momento da suspensão do medicamento [7].

Ensaios desenhados para responder se treino de resistência e proteína preservam músculo durante o uso de semaglutida ou tirzepatida estão em andamento. O protocolo LEAN-PREP, por exemplo, prevê 232 participantes randomizados em quatro braços, com área de secção transversa do quadríceps por ressonância como desfecho primário [8]. Até que resultados como esse sejam publicados, a recomendação de treino de resistência e proteína adequada se apoia em plausibilidade biológica, dados de perda de peso por outros métodos e consenso de especialistas.

Por que isso interessa à estética corporal. Contorno depende de pele, gordura e da estrutura embaixo delas, e não há comparação que permita apresentar procedimentos estéticos como substitutos do treino para preservar massa e função muscular em usuários de GLP-1. A estimulação muscular eletromagnética, discutida em artigo próprio, não foi comparada a treino de resistência em usuários de GLP-1 e não deve ser apresentada como substituta.

6. Pele e flacidez como desfecho da perda rápida

A flacidez após grande perda de peso não é específica do medicamento. Ersan e Özturhan, em revisão narrativa sobre o impacto dos agonistas de GLP-1 na prática de cirurgia estética, concluem que a perda de volume facial e a flacidez popularmente chamadas de "Ozempic face" refletem de forma mais plausível a perda de peso rápida ou substancial do que um efeito facial próprio do fármaco [12]. O mesmo raciocínio vale para o corpo: a magnitude da perda, a velocidade, a idade, o histórico de exposição solar e tabagismo e a qualidade prévia da pele pesam mais do que o nome do medicamento.

Velocidade é um ponto delicado. É intuitivo supor que perder o mesmo peso mais devagar produza menos flacidez, mas não localizamos ensaio que compare velocidades de perda com desfecho de flacidez cutânea em usuários de GLP-1. Afirmações de limiares percentuais "seguros" por mês circulam na divulgação, sem estudo que as sustente nessa população. A dose e o ritmo de titulação são decisões médicas tomadas por razões de tolerância e eficácia, e não devem ser ajustados para fins estéticos.

Para registrar o grau de alteração de contorno de forma reprodutível, a cirurgia plástica dispõe da Escala de Pittsburgh, que classifica dez regiões corporais em quatro graus (0 a 3). Na validação original, a concordância entre 12 observadores, medida por kappa ponderado, foi igual ou superior a 0,6 em todas as dez categorias, com média de 0,68 (faixa de 0,61 a 0,78) [23]. A escala foi desenvolvida para perda maciça após cirurgia bariátrica; seu uso fora desse contexto é extrapolação, mas a lógica de documentar por região, com fotografia padronizada, serve a qualquer plano.

Tabela 2. Componentes a separar na avaliação e o que muda com a fase do peso

ComponenteComo se apresentaDepende do peso estabilizar?Observação de planejamento
Excesso de pele (redundância)Dobra que persiste com o músculo contraído e em péSimGrau alto costuma ser indicação de avaliação cirúrgica; procedimento não cirúrgico não remove pele excedente
Flacidez sem grande excessoPerda de firmeza, textura enrugada, sem aventalParcialmenteAvaliação tende a ser mais informativa a partir do platô; tratamentos de superfície podem ser discutidos antes
Gordura localizada residualDepósito que persiste com peso estávelSimSó é "residual" quando o peso parou de cair
Perda de volume e projeçãoÁreas esvaziadas, perda de curvaturaSimVolume final tende a ser mais bem estimado com peso estável; glúteo será tratado em artigo próprio
Massa e força muscularPerda de tônus, fraqueza referidaNão; pode ser abordada em qualquer faseTreino de resistência e nutrição com profissionais habilitados; suspeita de sarcopenia exige avaliação médica
Estado nutricionalIngestão reduzida, queda de cabelo, cansaçoNão; pode ser abordado em qualquer faseInterfere em cicatrização e tolerância; encaminhar quando houver sinais

Fonte: síntese dos autores a partir de [9, 10, 11, 12, 15, 19, 20, 21, 23]. Não é instrumento validado.

7. O que a cirurgia plástica ensina sobre momento

A revisão de Colwell e Borud sobre segurança no contorno pós-bariátrico sintetizou como consenso a conclusão e estabilização da perda de peso antes da cirurgia, idealmente com índice de massa corporal abaixo de 32, além de cessação do tabagismo, avaliação nutricional, rastreio de anemia e profilaxia de tromboembolismo [24]. Humar e Robinson reforçam estabilização, otimização nutricional e vigilância de trombose venosa profunda [25].

O peso residual também importa. Em série retrospectiva de 2.533 abdominoplastias após perda maciça de peso, Borriello e colaboradores relataram que pacientes com índice de massa corporal de 30 kg/m² ou mais tiveram taxas significativamente maiores de seroma, necrose umbilical, deiscência, hematoma com reintervenção e infecção de sítio cirúrgico [26]. É uma série de cirurgia pós-bariátrica, não de usuários de GLP-1, e de uma única equipe.

Os dados específicos de GLP-1 ainda são iniciais e heterogêneos:

  • Momento. A revisão de Garbaccio estimou o platô em torno de 8 a 12 meses de semaglutida e sugeriu que, a partir daí, a cirurgia de contorno pode ser apropriada, desde que o risco de reganho após suspensão seja considerado [16].
  • Comparação com cirurgia bariátrica. Em análise de base de dados com pareamento por escore de propensão, Smith e colaboradores observaram que usuários de GLP-1 fizeram cirurgia de contorno em tempos mais variáveis, com proporção maior ainda no primeiro ano de tratamento, e mais procedimentos mamários (56,9% contra 21,7%). Infecção, deiscência e eventos tromboembólicos foram semelhantes entre grupos [27].
  • Uso do medicamento até a cirurgia. Em estudo retrospectivo com 80 pacientes de lipoabdominoplastia divididos em quatro grupos de 20, Bruno e colaboradores relataram, no resumo, complicações em 45% de quem manteve semaglutida até a cirurgia, 30% com suspensão de duas semanas, 10% com suspensão de quatro semanas e 10% nos controles sem o medicamento [28]. A amostra é pequena e o desenho retrospectivo; o dado não autoriza recomendação de suspensão, apenas indica que o tema exige coordenação com prescritor e equipe cirúrgica.
  • Cicatrização e nutrição. Venza e Venza citam, em revisão narrativa, maior taxa de deiscência em usuários de semaglutida do que em controles pareados (5,19% contra 2,78%) e chamam atenção para a redução de massa magra como possível fator na qualidade tecidual e na estratégia de contorno [29]. O número vem de um estudo primário de Lewis e colaboradores, lido apenas no resumo: coorte retrospectiva em banco de prontuários eletrônicos (TriNetX) de pessoas sem diabetes submetidas a contorno corporal após cirurgia bariátrica entre 2021 e 2024, comparando 4.215 que usaram semaglutida por pelo menos 6 meses antes da cirurgia com não usuários, com pareamento por escore de propensão apenas para idade, sexo, raça e índice de massa corporal, e desfechos registrados em até 30 dias [30]. Além da deiscência, os usuários tiveram mais atraso de cicatrização, infecção de sítio cirúrgico e cicatriz hipertrófica. O desenho não ajusta para magnitude e velocidade da perda, estado nutricional nem tabagismo, depende de codificação administrativa e não informa se o medicamento foi mantido até a cirurgia; mostra associação, não efeito do fármaco. O sinal também não aparece em todas as séries: na de Smith, que faz outra comparação (perda de peso com GLP-1 contra perda após cirurgia bariátrica), infecção e deiscência foram semelhantes [27]. Mehta e colaboradores lembram que a supressão do apetite pode reduzir ingestão de proteína e micronutrientes, e que deficiência proteica prejudica produção de colágeno, angiogênese e imunidade [15].

A revisão de Ersan e Özturhan resume bem o estado da questão: o uso de agonistas de GLP-1 não deve ser visto como vantagem absoluta nem como contraindicação automática, e efeitos farmacológicos diretos muitas vezes não podem ser separados das consequências da perda de peso ou do risco metabólico prévio [12].

O que se pode transpor para procedimentos não cirúrgicos. A analogia mais defensável é a de previsibilidade: o resultado de um tratamento de contorno ou de gordura localizada tende a ser mais fácil de avaliar quando a base parou de mudar. Haykal e colaboradores apontam lacunas de dados empíricos e de momento ideal [13]. Não encontramos estudo que compare procedimentos não cirúrgicos feitos durante a perda ativa e após estabilização em usuários de GLP-1. Um prazo exato em meses, nesse contexto, é opinião clínica, não resultado de pesquisa.

8. Segurança: esvaziamento gástrico, sedação e procedimentos ambulatoriais

O retardo do esvaziamento gástrico faz parte do mecanismo dos agonistas de GLP-1 e tem implicação direta para qualquer procedimento com sedação ou anestesia geral: conteúdo retido no estômago aumenta o risco de regurgitação e aspiração pulmonar. A orientação multissociedades de 2024 acrescenta um problema de diagnóstico. Náusea, vômito, dor abdominal e constipação, efeitos comuns desses medicamentos, podem confundir a avaliação de quadros pré e pós-operatórios que têm os mesmos sintomas [3].

Natureza-morta editorial com prancheta em branco, ampulheta de areia dourada e copo de água sobre superfície marfim, sob luz suave.
Ilustração conceitual gerada por IA; não representa protocolo de sedação, ambiente cirúrgico específico nem orientação de jejum.

Quadro 1. Resumo das orientações sobre sedação e anestesia (detalhes e ressalvas ao longo desta seção)

DocumentoNaturezaManter ou suspenderPapel dos sintomas digestivosMedidas de mitigação citadas
Orientação multissociedades, Estados Unidos, 2024 [3]Opinião de especialistas; declara não ser diretriz baseada em evidênciaDecisão compartilhada; manter se não houver risco elevado; se suspender, tempo ideal desconhecidoListados entre os fatores de risco a ponderarDieta líquida de 24 horas quando há suspeita; ultrassom gástrico como possibilidade
Consenso britânico, 2025 [4]Delphi modificado, oito organizaçõesManter durante o período perioperatórioIsoladamente, não servem para estimar o conteúdo gástricoAvaliação individual; anestesia regional quando adequada; ultrassom gástrico a considerar
Recomendações de Austrália e Nova Zelândia, 2025 [5]Evidência de baixa qualidade; recomendação condicionalManter; sem período de suspensão que normalize o esvaziamentoAusência de sintomas não deve estratificar o riscoDieta de líquidos claros de 24 horas para todos, depois jejum padrão
Consenso multidisciplinar SPAQI, Estados Unidos, 2025 [31]Consenso com revisão sistemática; lido só no resumoReconhece variação significativa entre recomendações publicadasNão avaliado aquiNão avaliado aqui

Fonte: síntese dos autores a partir de [3, 4, 5, 31]. Todos os documentos tratam de cirurgia, endoscopia e anestesia ou sedação; nenhum trata de procedimentos estéticos feitos sem sedação, e seus prazos de jejum ou suspensão não devem ser transpostos para esses procedimentos. A conduta em cada caso é definida pelo anestesiologista responsável.

O que os estudos de conteúdo gástrico mostram

Dois estudos retrospectivos de um mesmo grupo de São Paulo, em endoscopia digestiva alta, abriram a discussão no Brasil. No primeiro, com 404 exames sob sedação profunda ou anestesia geral, conteúdo gástrico residual aumentado apareceu em 24,2% dos usuários de semaglutida (8 de apenas 33 usuários) e em 5,1% dos não usuários; houve um caso de aspiração pulmonar, no grupo semaglutida [32]. No segundo, com 1.094 pacientes (123 usuários), as proporções foram de 20,33% e 3,19%; sintomas digestivos antes do exame e interrupções inferiores a 8 dias, ou de 8 a 14 dias, se associaram a conteúdo aumentado, e, no resumo, suspensões superiores a 21 dias com sintomas e superiores a 14 dias sem sintomas resultaram em conteúdo semelhante ao de não usuários [33].

Estudos prospectivos com ultrassom gástrico antes de cirurgia eletiva, publicados depois, apontam na mesma direção, sempre com conteúdo gástrico como desfecho substituto, e não com aspiração clínica:

  • São Paulo, 2024. Em 220 pacientes, conteúdo residual aumentado (qualquer sólido ou líquido claro acima de 1,5 mL/kg) foi encontrado em 40% dos que haviam usado semaglutida semanal nos 10 dias anteriores (43 de 107) e em 3% dos controles (3 de 113). Não houve aspiração [34].
  • Estados Unidos, 2025. Em pacientes diabéticos com jejum adequado (106 usuários e 100 não usuários de agonistas de GLP-1), o volume gástrico mediano foi maior nos usuários (0,61 contra 0,16 mL/kg), com razão de chances de 11,3 para estômago cheio; volumes foram maiores quando a última dose ocorrera nos 7 dias anteriores à cirurgia [35].
  • Bélgica, 2026. Em estudo multicêntrico com 44 usuários de semaglutida e 44 controles pareados por idade, índice de massa corporal e diabetes, a análise avaliável incluiu 43 usuários e 44 controles: estômago cheio foi observado em 21/43 (49%) contra 8/44 (18%), e conteúdo sólido em 18/43 (42%) contra 3/44 (7%), mesmo após a omissão de uma dose [36].
  • Canadá, 2026. Em 93 pacientes cujo agonista semanal fora suspenso por pelo menos 7 dias, conteúdo aumentado apareceu em 42% (22 de 52), contra 24% (10 de 41) dos controles. A diferença não foi estatisticamente significativa, e os autores reconhecem que o estudo não tinha poder suficiente; leem o achado como sinal de que 7 dias de suspensão podem não bastar [37].

Esses números vêm de resumos, com definições, populações e cenários diferentes, e não estimam a frequência de aspiração. Uma revisão de 2026, lida em texto completo, resume que a aspiração clinicamente evidente parece incomum, mas que há relatos de regurgitação e de conteúdo sólido inesperado na indução, sobretudo no início do tratamento e durante o escalonamento de dose [14].

O que a orientação multissociedades de 2024 diz, em texto completo

O documento foi publicado de forma idêntica em três revistas (Surgery for Obesity and Related Diseases, Clinical Gastroenterology and Hepatology e Surgical Endoscopy); citamos a versão de Surgical Endoscopy, disponível no PubMed Central [3]. Segundo o comunicado da Sociedade Americana de Anestesiologistas, cinco sociedades participaram: anestesiologia, gastroenterologia, cirurgia bariátrica e metabólica, cuidado perioperatório do paciente com obesidade e cirurgia endoscópica [3]. O conteúdo, lido na íntegra, é o seguinte:

  • Natureza do documento. Os autores afirmam que os dados são limitados, que as recomendações se baseiam em farmacologia e experiência clínica e que o texto deve ser considerado orientação, e não diretriz baseada em evidência. Não há graduação formal de evidência nem de força de recomendação. É, portanto, opinião de especialistas organizada por consenso.
  • Recomendação 1: decisão compartilhada. O uso perioperatório deve resultar de decisão compartilhada entre paciente, equipe do procedimento, equipe de anestesia e prescritor, pesando a necessidade metabólica do medicamento contra o risco individual, de preferência com protocolos multidisciplinares de cada serviço.
  • Fatores de risco listados. Fase de escalonamento de dose (em comparação com a fase de manutenção), doses mais altas, formulações semanais (em comparação com as diárias), sintomas sugestivos de esvaziamento lento (náusea, vômito, dor abdominal, dispepsia, constipação) e outras condições que retardam o esvaziamento, como gastroparesia, distúrbios de motilidade e doença de Parkinson. A avaliação deve ocorrer com antecedência suficiente para permitir ajustes.
  • Manter ou suspender. O medicamento pode ser mantido em quem não tem risco elevado. Havendo risco elevado, a suspensão deve ser pesada contra o risco de descompensação metabólica, como hiperglicemia. O texto acrescenta que suspender o medicamento apenas porque a pessoa tem sobrepeso ou obesidade, sem os fatores de risco acima, pode configurar viés contra a obesidade.
  • Se a suspensão for decidida. O documento declara que o tempo ideal é desconhecido e sugere seguir a orientação original da Sociedade Americana de Anestesiologistas: suspender no dia do procedimento as formulações diárias e uma semana antes as semanais. Todos devem ser reavaliados no dia quanto a sintomas.
  • Recomendação 2: reduzir o risco de aspiração. Dieta líquida por pelo menos 24 horas antes, como já se faz antes de colonoscopia e de cirurgia bariátrica, pode ser usada quando os sintomas levantam suspeita de esvaziamento lento. O ultrassom gástrico à beira do leito "poderia ser usado" no dia do procedimento, com limitações reconhecidas pelo próprio texto: disponibilidade, variabilidade entre examinadores e exigência de capacitação. Se houver suspeita ou confirmação de conteúdo retido, a escolha entre indução em sequência rápida com intubação traqueal e cancelamento deve ser compartilhada com o paciente.
  • Escopo. O texto trata de cirurgia e endoscopia digestiva e equipara a conduta à de outros pacientes com gastroparesia. Não menciona procedimentos feitos apenas com anestesia local ou tópica.

Há uma diferença que merece registro. O comunicado de imprensa da Sociedade Americana de Anestesiologistas afirma que a cirurgia eletiva deve ser adiada até o fim da fase de escalonamento e que pacientes com sintomas digestivos devem esperar. O documento em si não traz essa regra: lista escalonamento e sintomas como fatores de risco a ponderar na decisão compartilhada. Também consta na declaração de interesses que parte dos autores presta consultoria à indústria, inclusive a fabricante de agonista de GLP-1.

Orientações posteriores: convergência parcial

Documentos de 2025, lidos em texto completo, mantêm o eixo "continuar e mitigar", mas divergem em pontos práticos:

  • Reino Unido. O consenso de oito organizações britânicas, construído por processo Delphi modificado, recomenda manter o medicamento durante todo o período perioperatório, completar avaliação individual do risco de aspiração, considerar anestesia regional como técnica principal quando adequada e considerar ultrassom gástrico antes da indução. Diferentemente do documento norte-americano, afirma que sintomas digestivos altos, isoladamente, não devem ser usados para estimar o conteúdo gástrico. Observa ainda que procedimentos sob sedação, ou sem intubação traqueal, podem ter risco maior de aspiração [4].
  • Austrália e Nova Zelândia. As recomendações de quatro entidades indicam perguntar a todos sobre o uso, manter o medicamento e adotar para todos os usuários dieta de líquidos claros nas 24 horas anteriores, seguida do jejum padrão de 6 horas. Quando a dieta não foi cumprida, recomendam estratificação por ultrassom gástrico ou gastroscopia com sedação mínima. Os autores não recomendam usar a ausência de sintomas para estratificar o risco nem conseguem definir um período de suspensão que normalize o esvaziamento. Classificam a evidência como de baixa qualidade (relatos de caso e dados retrospectivos) e a recomendação como condicional [5].
  • Estados Unidos, 2025. Um consenso multidisciplinar conduzido por sociedade de avaliação perioperatória, com revisão sistemática registrada, abre seu resumo reconhecendo que as recomendações publicadas variam de forma significativa quanto ao manejo do medicamento e ao jejum [31]. Só o resumo foi lido.

No Brasil, notícias de portais médicos relatam uma nota da Sociedade Brasileira de Anestesiologia, de maio de 2026, que teria abandonado a suspensão rotineira em favor de abordagem individualizada, e uma nota da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, de janeiro de 2026, sobre preparo de pacientes que emagreceram com esses medicamentos. Não conseguimos abrir os textos originais e, por isso, não os usamos como fonte. Na prática, a conduta é definida pelo anestesiologista responsável, à luz das normas vigentes.

O que se aplica, e o que não se aplica, a procedimentos estéticos

Nenhum dos documentos lidos trata de procedimentos estéticos feitos sem sedação. Seu objeto é sedação e anestesia para cirurgia e endoscopia. Transpor recomendações de jejum, dieta líquida ou suspensão para uma sessão de tecnologia de energia ou de injetáveis sob anestesia tópica ou local seria extrapolação sem base. A recíproca também vale: a ausência de sedação não autoriza esquecer o medicamento. Três pontos decorrem do material lido:

  1. Informar sempre o uso do medicamento, com fase de titulação, data da última dose e sintomas digestivos, a quem fará qualquer procedimento com sedação ou anestesia. Esse tipo de procedimento pertence ao ambiente com anestesiologista, e o consenso britânico lembra que sedação sem proteção da via aérea não é, por si, uma opção de menor risco nesses pacientes [4].
  2. Não suspender o medicamento por conta própria para um procedimento estético. Todos os documentos tratam a decisão como compartilhada entre prescritor, equipe de anestesia e paciente, e dois deles desaconselham a suspensão rotineira [3, 4, 5].
  3. Considerar tolerância e hidratação mesmo sem sedação. Náuseas e ingestão reduzida, mais frequentes na titulação, podem diminuir a tolerância a sessões longas. Não localizamos estudo sobre isso; é cautela clínica.

Também não há, no material lido, evidência de interação direta entre agonistas de GLP-1 e tecnologias de energia (ultrassom microfocado, radiofrequência, laser) ou bioestimuladores injetáveis. A ausência de estudo não é prova de segurança; é razão para avaliação individual e registro cuidadoso.

9. Sequência: um raciocínio de planejamento, não um protocolo

Não existe ensaio que compare sequências ou momentos de procedimentos estéticos em usuários de agonistas de GLP-1. O que segue é uma forma de organizar a discussão, construída por analogia com a cirurgia de contorno e com os dados de peso e composição corporal das seções anteriores. As etapas não são obrigatórias, não têm prazo em meses e não precisam acontecer todas nem nesta ordem: servem para tornar explícito de que depende cada decisão. A ordem real resulta da avaliação individual, dos objetivos da pessoa, do tipo de procedimento e da conversa com o médico prescritor e, quando for o caso, com a equipe de anestesia ou cirurgia. Nenhuma delas envolve iniciar, ajustar, pausar ou suspender medicamento, decisão que cabe ao prescritor.

Três princípios orientam o raciocínio, todos com fundamento indireto: cuidar primeiro do que protege a base (função muscular e estado nutricional), porque é o que tem algum respaldo de evidência [9, 20, 21]; dar mais peso à estabilidade quanto mais o resultado depender de volume e contorno; e separar cedo o que é predominantemente cirúrgico do que pode ser discutido sem cirurgia. O quanto de estabilidade é desejável varia conforme o objetivo e o procedimento: um cuidado de superfície depende pouco do peso, uma abordagem de contorno ou de volume depende muito.

Etapa 0: alinhar premissas com o prescritor. Depende de saber a fase do peso, a estratégia de manutenção, se há intenção de suspensão e quais condições de saúde são relevantes. Não se trata de pedir autorização para estética, e sim de evitar um plano construído sobre premissa errada a respeito do peso.

Etapa 1: preservar função muscular e estado nutricional. Treino de resistência e ingestão proteica adequada, conduzidos por profissionais habilitados, podem ser discutidos em qualquer fase, inclusive na perda ativa [9, 20, 21]. Depende de avaliação de força, função e sinais de ingestão insuficiente, com encaminhamento quando houver suspeita. É a etapa voltada à preservação de massa e função muscular; não se atribui às demais benefício muscular demonstrado nessa população.

Etapa 2: cuidados de superfície, se desejados. Fotoproteção, hidratação e procedimentos de baixa agressão podem ser considerados durante a perda ativa, conforme tolerância, sintomas digestivos e estado nutricional. Não há ensaio mostrando que tratar a pele nessa fase previna flacidez posterior em usuários de GLP-1; o argumento "preventivo" comum na divulgação não tem esse respaldo.

Etapa 3: reavaliação estruturada. Fotografia padronizada, mapeamento por região [23] e separação dos componentes da Tabela 2 ajudam a discutir se o caso é predominantemente cirúrgico ou se há espaço para abordagem não cirúrgica. O platô é um momento natural para essa reavaliação, mas ela pode ser repetida sempre que o peso mudar de trajetória.

Etapa 4: firmeza e contorno. Tecnologias de firmeza e abordagem de gordura localizada tendem a ser mais previsíveis quando o peso está estável por um período documentado e a estratégia de manutenção está definida. Depende de critérios, não de calendário: medidas e fotografias semelhantes em reavaliações sucessivas, ausência de plano de suspensão próxima sem estratégia de manutenção e expectativa compatível com o grau de flacidez. Os detalhes de cada modalidade estão em artigos como os de HIFU corporal e flacidez de braços.

Etapa 5: volume, com cautela adicional. Repor ou estimular volume antes de conhecer o contorno estabilizado pode levar a resultado desproporcional se o peso mudar depois; por isso, essa decisão costuma pedir mais estabilidade do que as anteriores. Em alguns casos, faz sentido discutir firmeza antes de volume, porque o volume percebido depende de como a pele se acomodou; em outros, a ordem pode ser diferente ou as abordagens podem ser combinadas, conforme a avaliação. Não há estudo que compare essas ordens. O glúteo será tratado em artigo próprio no próximo fascículo.

Etapa 6: acompanhamento e revisão do plano. Reavaliações com o mesmo método de documentação, revendo premissas e etapas se houver reganho, nova perda ou mudança na estratégia definida com o prescritor.

Diagrama com uma faixa de quatro fases do peso e, abaixo, barras de bordas esmaecidas indicando quando cada uma das sete etapas (0 a 6) costuma entrar na discussão do plano estético, com seta de retorno da fase de reganho para a reavaliação.
Figura 2. Raciocínio de planejamento para discussão individual: sete etapas (0 a 6) sobrepostas às quatro fases do peso. Fronteiras aproximadas, sem prazos em meses; as etapas não são obrigatórias nem têm ordem fixa. Não é protocolo validado nem prescrição. Arte vetorial composta pela equipe; elementos de fundo gerados por IA.

Tabela 3. Perguntas de checagem para a discussão de cada etapa

Ao discutir...PerguntaSe a resposta for "não" ou "não sei", um caminho possível
Qualquer etapaO prescritor conhece o plano estético e a estratégia de manutenção está definida?Esclarecer essas premissas com o prescritor antes de avançar no plano
Procedimento com sedaçãoA equipe de anestesia sabe do uso, dose, fase de titulação e sintomas digestivos?Informar a equipe de anestesia; a conduta é decisão dela, compartilhada com prescritor e paciente [3, 4, 5]
Tratamento de contorno ou gordura localizadaO peso está estável por período documentado?Discutir se vale esperar e reavaliar, considerando que o resultado avaliado sobre base instável é menos previsível
Reposição ou estímulo de volumeO contorno estabilizado já é conhecido e a firmeza da pele foi avaliada?Discutir a ordem das abordagens e se a decisão sobre volume ganha com mais estabilidade
Qualquer etapaHá sinais de ingestão insuficiente, perda de força ou queda de cabelo importante?Considerar encaminhamento para avaliação médica e nutricional
Indicação não cirúrgicaO excesso de pele é compatível com abordagem não cirúrgica?Discutir avaliação com cirurgião plástico

Fonte: síntese dos autores. Roteiro de perguntas para conversa clínica, sem prazos e sem ensaio comparativo que o sustente; não é instrumento validado nem protocolo, e cada resposta depende da avaliação individual.

10. Reganho e manutenção do resultado estético

Mesmo com um plano bem organizado, o resultado estético de procedimentos corporais depende de o peso permanecer próximo do ponto em que foi tratado. Os estudos de retirada mostram que a recuperação de peso após a suspensão é o padrão médio observado, embora a resposta individual varie [6, 16, 17, 18]. O documento das sociedades de nutrição e obesidade cita a baixa adesão a longo prazo, com reganho subsequente, entre os principais desafios do tratamento [9].

Algumas consequências merecem ser ditas com clareza na consulta:

  • O reganho tende a recompor gordura, não a reverter a flacidez de forma proporcional. Uma revisão de 2026 descreve, a partir de dados observacionais e de extensão, que o reganho após suspensão é predominantemente de gordura, sobre uma base que já perdeu massa magra durante o tratamento [7]. O contorno resultante pode ser diferente do que existia antes e do que foi tratado.
  • Áreas tratadas para gordura localizada podem voltar a acumular gordura com reganho. Nenhum procedimento estético protege uma região contra ganho de peso.
  • Exercício iniciado durante o tratamento farmacológico se associou a menos reganho no único ensaio controlado disponível, com liraglutida [7, 22]. É razoável incluir a continuidade da atividade física no plano de manutenção, com a ressalva de que os dados para semaglutida e tirzepatida ainda faltam.

Por isso, a conversa sobre manutenção estética começa pela manutenção do peso, que é tema do médico prescritor e da equipe multiprofissional, e só depois passa para sessões de manutenção de procedimentos.

11. Expectativas: o que a literatura permite prometer (e o que não permite)

Uma síntese honesta para quem está em uso ou acabou de usar agonistas de GLP-1:

  • Permite dizer que o peso tende a estabilizar durante o tratamento, que a estabilização tende a ser a fase mais previsível para contorno, que a suspensão costuma trazer reganho parcial [6, 16, 17, 18], que parte da perda é massa magra [11, 19] e que o medicamento deve ser informado em qualquer sedação [3, 4, 5].
  • Não permite dizer que tratar a pele durante a perda ativa previne flacidez, que existe um prazo exato em meses para procedimentos não cirúrgicos, que uma velocidade de perda específica evita flacidez ou que procedimentos estéticos substituem cirurgia quando há excesso importante de pele.
  • Não permite recomendar dose, troca, pausa ou suspensão de medicamento para fins estéticos.

O post sobre emagrecimento com Mounjaro e flacidez e o guia do blog sobre GLP-1 trazem a perspectiva do paciente. Este artigo procura oferecer o arcabouço de decisão; a aplicação a um caso depende de avaliação presencial individual.

12. Lacunas e prioridades de pesquisa

As perguntas sem resposta são mais numerosas do que as respondidas:

  1. Não há ensaio controlado comparando procedimentos estéticos não cirúrgicos feitos em diferentes fases do peso em usuários de GLP-1.
  2. Não há ensaio que relacione velocidade de perda com desfecho de flacidez cutânea medido de forma objetiva nessa população.
  3. Os dados de cirurgia de contorno em usuários de GLP-1 são retrospectivos, com amostras pequenas ou bancos administrativos, e com resultados divergentes sobre complicações [12, 27, 28, 29, 30].
  4. Ensaios de preservação muscular com semaglutida e tirzepatida estão em curso, sem resultados publicados no material lido [8].
  5. Não há dados sobre o comportamento, após reganho, de áreas tratadas com tecnologias de energia ou bioestimuladores.
  6. Os estudos sobre conteúdo gástrico residual são observacionais, medem um desfecho substituto e não estimam o risco real de aspiração; as orientações de sociedades se baseiam sobretudo em opinião de especialistas e divergem em pontos práticos, como o papel dos sintomas e da dieta líquida [3, 4, 5, 32, 33, 34, 35, 36, 37].

Enquanto essas lacunas persistirem, o melhor que um plano estético pode fazer é ser explícito sobre suas premissas: em que fase do peso foi feito, qual estratégia de manutenção pressupõe e o que será reavaliado se essas premissas mudarem.

13. Transparência editorial

  • Conflito de interesse: não há conflito financeiro declarado pela autoria em relação a fabricantes de medicamentos, equipamentos ou produtos citados. O conteúdo é produzido no contexto de uma clínica de estética avançada; a revisão descreve a literatura e não indica que todos os procedimentos mencionados estejam disponíveis na clínica.
  • Revisão: a revisão médica humana foi realizada por Alessandro Borges Alla (CRM-SP 118.136) em 10 de outubro de 2026 e está registrada no registro editorial do Fascículo 12. O revisor médico é sócio da Clínica Talita Almeida Estética Avançada, vínculo que se declara como possível interesse.
  • Escopo: material educativo. Não constitui prescrição nem recomendação de iniciar, manter, ajustar ou suspender medicamento, decisões que cabem ao médico prescritor. Não substitui avaliação presencial individual.
  • Método: revisão narrativa crítica com busca dirigida no PubMed até 10 de outubro de 2026; parte das fontes lida em texto completo e parte apenas em resumo, conforme indicado na seção 2 e no texto.

14. Perguntas Frequentes

Posso fazer procedimentos estéticos corporais enquanto ainda estou perdendo peso com o medicamento?

Alguns cuidados de pele de baixa agressão podem ser discutidos nessa fase, com avaliação individual. Procedimentos cujo resultado depende do contorno ou do volume final tendem a ser mais previsíveis depois que o peso estabiliza, porque a base ainda vai mudar durante a perda ativa. Não há estudo que defina um prazo exato.

Quanto tempo depois de começar o medicamento o peso costuma estabilizar?

Uma revisão sistemática com semaglutida estimou o platô, em média, em torno de 53 semanas, com variação entre estudos e entre pessoas. Para tirzepatida e para casos individuais, a referência é o acompanhamento do próprio peso com o médico prescritor.

Preciso parar o medicamento antes de um procedimento estético?

Essa decisão não deve ser tomada por conta própria nem pela equipe estética. Para procedimentos com sedação ou anestesia, a orientação multissociedades de 2024, que se declara opinião de especialistas e não diretriz baseada em evidência, recomenda decisão compartilhada entre prescritor, equipe de anestesia e paciente; documentos britânico e australiano de 2025 recomendam, em geral, manter o medicamento e reforçar as medidas de proteção. Nenhum deles trata de procedimentos estéticos sem sedação. A maioria dos procedimentos estéticos não cirúrgicos é feita sem sedação, mas o uso do medicamento deve ser informado sempre.

Se eu parar o medicamento, perco o resultado do procedimento?

Os estudos de retirada mostram reganho de parte importante do peso após a suspensão, em média. Áreas tratadas para gordura localizada podem voltar a acumular gordura, e o contorno pode mudar. Por isso o plano estético deve considerar a estratégia de manutenção definida com o prescritor.

Procedimentos estéticos ajudam a recuperar a massa muscular perdida?

Não de forma comparável ao treino de resistência associado a ingestão proteica adequada, que são as medidas com maior plausibilidade para preservar músculo durante a perda de peso. Tecnologias de estimulação muscular não foram comparadas a treino em usuários de GLP-1.

Quando a cirurgia plástica é a opção mais adequada?

Quando há excesso de pele importante, que forma dobras persistentes, a literatura de contorno após grande perda de peso trata a cirurgia como referência, após estabilização do peso e otimização clínica e nutricional. Procedimentos não cirúrgicos não removem pele excedente. A indicação depende de avaliação com cirurgião plástico.

Avaliação personalizada na Clínica Talita Almeida

Av. Jandira, 295, Moema, São Paulo. Dra. Talita Almeida (Enfermeira Esteta, COREN-SP 427.906).

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Aviso importante: Este artigo tem finalidade informativa e educacional. Os resultados apresentados são baseados em médias de estudos clínicos e podem variar. Consulte um profissional qualificado antes de iniciar qualquer procedimento.
TA
Talita Almeida
Enfermeira Estética, COREN-SP 427.906
Especialista em procedimentos estéticos minimamente invasivos baseados em evidência. Clínica em Moema, São Paulo.